Facebook não tem respeito pelos usuários ou normas sociais, diz especialista em tecnologia Reprodução/The Guardian

Facebook não tem respeito pelos usuários ou normas sociais, diz especialista em tecnologia

Logo depois da revelação, no fim de janeiro, que o Facebook havia violado um acordo firmado com outra gigante de tecnologia, a Apple, o jornalista especializado em tecnologia Troy Wolverton, do site Business Insider, alertou que a audaciosa manobra – na prática, uma espionagem das atividades dos consumidores – era o suficiente para reguladores intervirem nos negócios de rede social de Mark Zuckerberg. Desde então, cresce o escrutínio das autoridades sobre a empresa. Na semana passada, em apenas um dia, foram anunciadas três investigações em diferentes países.

“O Facebook há muito tempo mostrou que não tem respeito por seus usuários ou por normas sociais convencionais quando se trata de coisas como privacidade”, disse Wolverton ao comentar o caso envolvendo a Apple, no qual a rede social de Zuckerberg manteve desde 2016 um programa capaz de acessar mensagens privadas, conversas trocadas por aplicativos e, ainda, buscas, localização e atividades de navegação no iOS, do iPhone. Em troca da informação, os participantes ganhavam pagamentos mensais de até US$ 20.

Wolverton, um dos mais experientes jornalistas de tecnologia dos Estados Unidos, destacou que há anos o Facebook tem mostrado estar disposto ultrapassar os limites legais e desafiar os reguladores. “Mas o fato de estar disposta a arriscar até mesmo a ira da Apple mostra o quão descarada a empresa se tornou. Seu apetite por dados sobre seus usuários e concorrentes é tão voraz que está disposto a cruzar aparentemente toda e qualquer linha para obtê-la, não importa qual seja o risco potencial”, disse.

Investigações

Algumas autoridades mostram estar no mesmo caminho da recomendação de Wolverton. Na quinta-feira (25), Irlanda, Canadá e Estados Unidos fecharam um pouco mais o cerco à empresa de Zuckerberg. Os irlandeses investigam a quebra de milhões de senhas de usuários do Facebook e Instagram armazenadas em seus servidores. Neste caso, a companhia norte-americana está submetida à lei europeia de proteção de dados (GDPR) e levar a multas de até 4% de sua receita anual global.

Em outro processo, no Canadá, os reguladores confirmaram que o Facebook as leis de privacidade do país ao divulgar os resultados de investigação aberta há um ano, sobre o vazamento de dados via Cambridge Analytica – 600 mil perfis no país foram atingidos. O comissário de privacidade canadense, Daniel Therrien, disse que levará a rede social à justiça para que corrija suas "graves violações descobertas vieram após o escândalo Cambridge Analytica, que atingiu mais de 600.000 perfis de cidadãos locais.

Therrien afirmou que o Facebook se recusou a se submeter voluntariamente a auditorias de suas políticas e práticas de privacidade nos próximos cinco anos. "A grande contradição entre as promessas públicas do Facebook de melhorar sua privacidade e sua recusa em resolver os sérios problemas que identificamos – ou mesmo reconhecer que infringiu a lei – é extremamente preocupante", acrescentou.

Nos Estados Unidos, a procuradora-geral de Nova York, Letitia James anunciou uma investigação sobre a “coleta não autorizada” de 1,5 milhão de endereços de e-mail de usuários que o Facebook usou para a verificação de perfis, mas que inadvertidamente também extraiu suas listas de contatos, informou o site TechCrunch. Recentemente, o Facebook afirmou ao site Business Insider que a coleta ocorreu de forma "involuntária" entre maio de 2016 e abril de 2019, através de seu processo de verificação de senha de e-mail para novos usuários, e se comprometeu a apagar as informações coletadas.

O procedimento requeria a certos usuários a introdução da senha de sua conta de e-mail pessoal. Segundo a procuradoria, o Facebook depois entrava nessas contas de e-mail para acessar os contatos dos usuários e os colocava em sua rede para usá-los em publicidade direcionada. "É hora do Facebook enfrentar sua responsabilidade pelo modo como administra as informações pessoais dos usuários", disse Letitia James em um comunicado. "O Facebook demonstrou repetidamente uma falta de respeito com a informação dos consumidores, ao mesmo tempo em que se aproveita desses dados".

Piada de mau gosto

Mesmo sob pressão, a maior rede social do mundo dá sinais de estar preparada para enfrentar sanções e, ao mesmo tempo, manter e ampliar seus negócios, incluindo ajustes que parecem elaborados para evitar danos de uma regulação mais rigorosa. Na quarta-feira (24), ao informar os resultados do primeiro trimestre de 2019 (crescimento de receita de 26% na comparação com o mesmo período do ano passado), o Facebook revelou ter reservado cerca de US$ 3 bilhões para o pagamento de uma possível multa da Comissão Federal do Comércio dos Estados Unidos (FTC, na sigla em inglês), em um caso ainda em andamento.

A reserva dez lucro da empresa cair 51% na comparação com o mesmo período do ano passado, para US$ 2,5 bilhões. “Parece uma piada de mau gosto, mas é verdade. E você quase pode ouvir Mark Zuckerberg gargalhando daqui”, avaliou Wolverton, do Business Insider. A FTC ainda não atualizou sua investigação, disse o jornalista, e a porta-voz da agência, Juliana Gruenwald, recusou uma solicitação de comentários do Business Insider. O Facebook, entretanto, reconheceu em nota que ainda não chegou a um acordo com a agência e não sabe exatamente quando isso acontecerá.

“Mas você pode apostar que a empresa não teria anunciado deixar de lado essa quantia de dinheiro se não acreditasse que um acordo está encaminhado e se não tivesse uma boa ideia do tamanho da multa [que pode chegar a US$ 5 bilhões]”, disse Wolverton, para quem o valor representa pouco o Facebook. “A empresa pode facilmente ignorar isso como um custo de fazer negócios e continuar fazendo o que está fazendo”, afirmou.

Planos

E planos não faltam para Zuckerberg. Também na quarta-feira (24) ele disse que, além da publicidade, pretende explorar o comércio eletrônico no Instagram, no Facebook e no Marketplace do Facebook, incluindo ferramentas que permitem que as pessoas comprem produtos diretamente por meio dessas plataformas. O CEO confirmou ainda que pensa em criar uma plataforma pagamentos digitais, via Messenger ou WhatsApp.

As ambições de Zuckerberg remetem ao alerta feito por Wolverton no começo de fevereiro, ao comentar o caso relacionado à Apple. “Isso é algo que a FTC, o Congresso, a União Europeia e outros reguladores devem ter em mente enquanto tentam descobrir como responder ao domínio do Facebook no mercado, suas práticas de privacidade e dados e sua infinita série de erros”, afirmou. Um simples “tapa no pulso”, seja na forma de uma multa ou uma promessa assinada de seguir a lei, continuou o jornalista, não é o suficiente para uma empresa como o Facebook. Será preciso, segundo Wolverton, algo muito mais forte, como dividir a empresa ou interromper a maneira como ela faz negócios.

Leia mais em:

https://www.washingtonpost.com/technology/2019/04/25/canada-accuses-facebook-breaking-local-privacy-law-threatening-take-company-court/

https://www.businessinsider.com/5-billion-ftc-fine-wont-change-facebook-practices-2019-4?r=US&IR=T

https://www.businessinsider.com/mark-zuckerberg-5-years-facebook-split-business-2019-4?nr_email_referer=1&utm_source=Sailthru&utm_medium=email&utm_content=Tech_select

https://www.businessinsider.com/facebook-bets-on-shopping-and-payments-to-make-money-in-the-future-2019-4?nr_email_referer=1&utm_source=Sailthru&utm_medium=email&utm_content=Tech_select

https://edri.org/what-the-youtube-and-facebook-statistics-arent-telling-us/

https://edri.org/facebook-custom-audience-illegal-without-explicit-user-consent/

https://www.businessinsider.com/why-facebook-paying-3-billion-ftc-fine-2019-4?nr_email_referer=1&utm_source=Sailthru&utm_medium=email&utm_content=Tech_select

https://www.theguardian.com/world/2019/apr/25/facebook-takes-down-far-right-groups-days-before-spanish-election?utm_source=Pew+Research+Center&utm_campaign=8f43ce3388-EMAIL_CAMPAIGN_2019_04_25_01_47&utm_medium=email&utm_term=0_3e953b9b70-8f43ce3388-399348773

https://pressgazette.co.uk/mp-tells-facebook-youtube-and-twitter-bosses-you-are-not-doing-your-jobs-over-extremist-content/?utm_source=Pew+Research+Center&utm_campaign=d79fc3ff17-EMAIL_CAMPAIGN_2019_04_26_01_31&utm_medium=email&utm_term=0_3e953b9b70-d79fc3ff17-399348773

https://techcrunch.com/2019/04/25/facebook-privacy-investigations/?utm_medium=TCnewsletter&tpcc=TCdailynewsletter

https://www.businessinsider.com/facebook-research-apple-onavo-dispute-regulators-antitrust-monopoly-privacy-2019-2