Onda por regulação do Facebook está atrasada, é ineficaz e representa perigoso potencial de efeitos colaterais, dizem pesquisadores Reprodução

Onda por regulação do Facebook está atrasada, é ineficaz e representa perigoso potencial de efeitos colaterais, dizem pesquisadores

Na semana passada, o Facebook anunciou estimar que deverá ter de pagar uma multa de US$ 3 bilhões a US$ 5 bilhões a ser aplicada pela Comissão Federal do Comércio dos Estados Unidos (FTC, na sigla em inglês). Analistas afirmam que o Facebook vem negociando esta sanção, e o valor final a ser pago não pesaria nos cofres da empresa, mas afastaria a principal preocupação jurídica no momento do dono da empresa, Mark Zuckerberg, e abriria espaço para menos pressão regulatória. Ocorre que a companhia responde a vários outros processos em diferentes países, o que coloca fermento no discurso global por limites ao Facebook e demais gigantes de tecnologia. Mas essa não será uma tarefa fácil para nenhuma autoridade, dizem especialistas.

No momento, o Facebook, particularmente, enfrenta duras investigações nos Estados Unidos e na União Europeia (UE), enquanto legisladores na Austrália e do Reino Unido apresentaram propostas de leis para regular as empresas que têm seus principais negócios em mídias interativas, buscas e comércio digital. Na quinta-feira (25) da semana passada, o Canadá também acusou o Facebook de ter violado suas leis de proteção à privacidade.

"Nos próximos dois anos, a maioria dos problemas regulatórios que o Facebook enfrentará será na UE, mas ainda poderá enfrentar problemas antitruste significativos nos Estados Unidos dependendo do resultado da eleição de 2020", diz Sam McGowan, analista de pesquisa da Beacon Policy Advisors, com sede em Washington, em entrevista ao Los Angeles Times.

A senadora democrata Elizabeth Warren, pré-candidata à Presidência, por exemplo, já disse que ela pretende dividir as unidades de negócios do Facebook se eleita, com o objetivo e atacar o que considera monopólio.

Na semana passada, a parlamentar criticou a potencial multa de US$ 3 bilhões a US$ 5 bilhões à rede social – em um caso ainda em andamento por parte da FTC, a partir da investigação de falta de privacidade na rede social, que ganhou notoriedade mundial no escândalo Cambridge Analytic, em março de 2018 – como um "tapa no pulso". "O Facebook é um infrator reincidente [e] multas como essa não os impedirão de violar a lei [e] violar nossa privacidade novamente", disse ela em um tweet. "É preciso uma grande mudança estrutural."

Christine Schmidt, do site Nieman lab, da Universidade Harvard, reforça que a quase certa multa da FTC – uma vez que é praticamente certo que o Facebook entrou em acordo com o órgão – não prejudica financeiramente a rede social, mas causa alguns estragos, uma vez que empresa nunca foi punida oficialmente de alguma forma significativa. Além disso, mostra que o governo dos Estados Unidos, mesmo que seja contra a sua preferência, não pode mais ignorar que os norte-americanos estão cada vez mais indignados com as práticas do Facebook.

Medidas insuficientes

Mas regular o Facebook e outras empresas de tecnologia com eficácia, dizem os analistas, não será nada fácil. “Considere todas as maneiras que os governos estão propondo para controlar o Facebook. A gama vai de multas regulamentares a ameaças de desmantelar o gigante. Algumas dessas medidas são contraproducentes. Algumas são mal pensadas. Algumas são necessárias. Todos são insuficientes”, avalia Siva Vaidhyanathan, professora de estudos de mídia na Universidade da Virgínia e autora do livro Anti-social Media: How Facebook Disconnects Us and Undermines Democracy (Oxford University Press, 2018).

Os reguladores, diz a estudiosa, procuram caminhos para regrar o Facebook como se a rede social fosse como as outras empresas que passaram pelo escrutínio deles. “Mas o Facebook apresenta desafios radicalmente novos. É diferente de qualquer outra coisa na história da humanidade – com a possível exceção do Google”, adverte.

Ninguém, ao que parece, continua a professora em artigo no jornal The Guardian, está preparado para considerar o Facebook (e seus outros serviços globais, WhatsApp e Instagram) em sua totalidade. “É como se os governos ao redor do mundo estivessem lidando com os sistemas climáticos individuais enquanto atingem e causam danos. Mas ninguém está considerando os perigos da mudança climática”.

Siva, a exemplo de tantos outros analistas, sintetiza a base do negócio do Facebook, para mostrar como a rede social é nociva às sociedade: coleta registros de nossas atividades, tendências, localizações e associações; usa esses dados para posicionar anúncios que se mostraram mais eficazes ainda que mais baratos do que em qualquer outro meio; e usa esses dados para escolher para nós o que veremos, leremos e com quem devemos interagir por meio de seu sistema. “Seus algoritmos estruturam nossas vidas sociais de maneira tão sutil que dificilmente notamos. Influencia o que consideramos verdadeiro, importante e valioso, que só agora estamos começando a perceber”.

Para muitos os impactos são extremamente graves. Maryanne Wolf, autora do recente estudo “Reader Come Home: The Reading Brain In A Digital World” sobre a evolução do cérebro dos leitores no mundo digital, adverte que as novas gerações podem ter seus processos cerebrais ligadas à leitura atrofiados pela lógica propostas pelas redes sociais: alterando pensamento crítico, empatia, reflexão. Isso inevitavelmente produz um efeito adverso nas sociedades democráticas, defende Maryanne. Regras retóricas em redes, diz, acumularam uma tendência preocupante, na qual o desenvolvimento de argumentos é substituído por frases condensadas muitas vezes engenhosos, mas quase sempre vazias ou triviais. “A maioria dos tweets [por exemplo, são explosões públicas veementes e muitas vezes anônimas. É o que William Shakespeare chamou de ‘a história de um tolo, cheio de som e fúria, mas sem significado’.

As retóricas espalhadas nas redes sociais, entretanto, como se sabe, são muitas altamente violentas, com mensagens de ódio, extremismo e preconceito. Pesquisa da Netino By Webhelp mostra que os comentários agressivos no Facebook subiram 14,3% desde o início de 2019. "O aumento da violência escrita é significativo", diz Jeremie Mani, CEO da empresa especializada em moderar conteúdo na internet.

Iscas para continuar faturando com dados

Em contrapartida, o Facebook promete soluções para esses e outros problemas, mas sem resultados que satisfaçam. Na mais recente medida, a rede social anunciou nesta segunda-feira (29) que passará a impedir que aplicativos de testes do “quiz” e outras brincadeiras interajam com os usuários a partir do login no Facebook. Atualmente, quando fazem isso, esses apps armazenem dados indevidos dos usuários. Na prática, desenvolvedores de testes de personalidade tinham acesso a grandes quantidades de informações pessoais de contas do Facebook por meio de APIs, o que desencadeou o escândalo Cambridge Analytica e o roubo de dados de cerca de 87 milhões de pessoas no ano passado.

A própria rede social do Vale do Silício tem, na verdade, uma série de recursos para arrancar informações ou engajar ao máximo seus usuários, catapultando seus lucros. Um deles é sistema de Memórias, que mostra fotos e postagens passadas, motivando as pessoas a voltar a compartilhar bons momentos vividos. “Por anos fiz isso. Agora, porém, acho que o recurso é o elemento mais cínico da plataforma. É um truque barato para nos manter criando novos posts, mantendo-nos interessados, em um momento em que nosso interesse está começando a se afastar”, diz a jornalista Molly Wood, editora Marketplace Tech, uma rádio nacional que cobre o negócio da tecnologia, na WIRED.  “Se em algum momento, quando pararmos de postar algo novo, o Facebook inevitavelmente atingirá a Peak Memory, e o News Feed do site entrará em colapso, com um monte de conteúdo republicado do ano anterior, os dois anos antes, os quatro anos anteriores”, projeta.

Em outro texto da WIRED, o jornalista Red Vogelstein é mais um que enfatiza o do fato de Zuckerberg ter feito grandes promessas antes e jamais as entregou. “Na verdade, ele construiu a empresa dessa maneira”, avança o jornalista. Há 15 ano, Zuckerberg mudou o hábito mais reservado das pessoas, diz, acreditando que elas estavam menos preocupadas com a privacidade do que diziam e queriam compartilhar mais online do que sabiam. “Minerar essa lacuna foi um golpe de gênio real. Mas esses dias acabaram. O Facebook precisa de uma nova estrela guia. Será necessário encontrar uma maneira de permanecer tão rentável. Mas o mais importante, será necessário recuperar a confiança do usuário.”

Mas o Facebook, destaca Siva Siva Vaidhyanathan, é apenas um nó (embora o maior e mais poderoso) de um segmento que explora os dados e, mais importante, é uma matriz de sistemas de vigilância cobrindo todos os aspectos de nossas vidas. “Em grande parte do mundo, os principais sistemas de vigilância são baseados no estado. No resto do mundo, eles são comerciais. Mas os dados fluem facilmente entre estados e empresas comerciais”, alerta.

Negligência que deve custar caro

Outro pesquisador, Michael Jay Boskin, da Universidade de Stanford, também em texto no The Guardian, diz que, há dois anos atrás, parecia claro que uma combinação de fatores levaria a um aumento de reivindicações para regulamentar empresas de tecnologia, especialmente as grandes gigantes da tecnologia, Amazon, Apple, Facebook e Google. “Na época, argumentei que a política regulatória teria que encontrar um equilíbrio razoável entre a mitigação dos efeitos mais danosos da tecnologia e permitir que as empresas de tecnologia continuassem melhorando a vida das pessoas”.

Agora, lamenta Boskin, esse dia chegou e alcançar tal equilíbrio será difícil. “Tendo negligenciado essas empresas benignamente durante anos, os governos democráticos estão produzindo uma série estonteante de políticas para regulá-las. O risco é que a enxurrada de formulação de políticas seja exagerada e faça mais mal do que bem, não apenas subestimando involuntariamente a inovação e a concorrência”, diz.

Boskin lembra que, de forma básica, há pelo menos quatro complexas questões de política regulatória separadas que precisam ser abordadas pelas sociedades: privacidade; poder de mercado; liberdade de expressão e censura (incluindo conteúdo inadequado); e segurança nacional e aplicação da lei. “As políticas do setor de tecnologia devem, portanto, ser estritamente direcionadas e cuidadosamente elaboradas para minimizar o risco de resultados contraproducentes”.

Leia mais em:

https://www.theguardian.com/commentisfree/2019/apr/28/regulating-facebook-will-be-one-of-the-greatest-challenges-in-human-history?utm_source=Pew+Research+Center&utm_campaign=fd79d2da46-EMAIL_CAMPAIGN_2019_04_29_01_20&utm_medium=email&utm_term=0_3e953b9b70-fd79d2da46-399348773

https://www.theguardian.com/business/2019/apr/29/big-tech-regulation-facebook-google-amazon?utm_term=RWRpdG9yaWFsX01lZGlhQnJpZWZpbmctMTkwNDI5&utm_source=esp&utm_medium=Email&utm_campaign=MediaBriefing&CMP=media_email

https://www.latimes.com/business/la-fi-facebook-zuckerberg-20190425-story.html?utm_campaign=Newsletters&utm_source=sendgrid&utm_medium=email

https://www.nytimes.com/es/2019/04/28/redes-sociales-democracia/?action=click&rref=collection%2Fsectioncollection%2Fnyt-es&contentCollection=inicio&region=rank&module=package&version=masinformacion&contentPlacement=5&pgtype=Homepage

https://www.nouvelobs.com/societe/20190428.OBS12212/sur-facebook-un-commentaire-sur-sept-est-haineux-ou-agressif.html#xtor=EPR-2-[ObsActu17h]-20190428

https://www.theverge.com/2019/4/25/18516608/facebook-personality-quiz-ban-cambridge-analytica

https://www.wired.com/story/facebook-will-finally-pay-billions-privacy-missteps/?CNDID=899600&CNDID=899600&bxid=MjM5NjgxOTI5NzAxS0&hasha=59409b55feb2de61b03520e5af04b62e&hashb=ca654a2d90d225445d8a41213da50e6c802dce99&mbid=nl_042519_daily_list1_p2&source=DAILY_NEWSLETTER&utm_brand=wired&utm_mailing=WIRED%20NL%20042519%20(1)&utm_medium=email&utm_source=nl

https://www.wired.com/story/facebooks-sloppy-data-sharing-deals-might-be-criminal/?CNDID=899600&CNDID=899600&bxid=MjM5NjgxOTI5NzAxS0&hasha=59409b55feb2de61b03520e5af04b62e&hashb=ca654a2d90d225445d8a41213da50e6c802dce99&mbid=nl_031719_daily_list3_p2&source=DAILY_NEWSLETTER&utm_brand=wired&utm_mailing=WIRED%20NL%20031719%20(1)&utm_medium=email&utm_source=nl

https://www.niemanlab.org/author/cschmidt/

https://retina.elpais.com/retina/2019/04/26/innovacion/1556276605_697790.html

https://gizmodo.uol.com.br/menos-testes-personalidade-facebook/