Alex Jones, do canal de teorias conspiratórias Infowars Alex Jones, do canal de teorias conspiratórias Infowars Reprodução

Facebook tropeça em desastrada e ineficaz ação de marketing no bloqueio a extremistas

O Facebook anunciou na quinta-feira (2), em novo esforço de marketing para frear a queda de sua credibilidade, o fechamento definitivo de várias páginas ligadas a personalidades de extrema-direita como Alex Jones e Milo Yiannopuolos. No entanto, descuidada, a empresa permitiu que ficasse evidente que a medida não era nada mais do uma nova ação de relações públicas. “O Facebook deu a figuras tóxicas o tempo necessário para responder e tentar mitigar os danos”, lamentou Rob Price, jornalista do site Business Insider que cobre o Vale do Silício.

A manobra foi identificada pelos jornalistas que cobrem as mídias sociais porque, ao contrário das outras vezes em que baniu extremistas, o Facebook avisou a imprensa com antecedência e, ao mesmo tempo, demorou para retirar os conteúdos do ar. Isso deu chance para que os expurgados alertassem seus seguidores, migrando em massa para outras mídias interativas. Yiannopoulos, o provocador e jornalista de extrema-direita, por exemplo, compartilhou uma captura de tela de uma manchete sobre o bloqueio de sua conta no Instagram, pertencente ao Facebook, e pediu a seus seguidores que assinassem uma lista de e-mails.

Laura Loomer, uma ativista de extrema-direita, disse a seus fãs do Instagram para se juntarem ao canal dela no aplicativo de mensagens Telegram. Jones, do canal de teorias conspiratórias Infowars, foi além. Uma hora depois do anúncio do bloqueio pela imprensa – que ainda respeitou um pedido de embargo do Facebook antes de publicar a notícias – transmitiu ao vivo pela rede social norte-americana, criticando e convocando sua audiência a acompanhá-lo em outras redes.

Além de fechar as contas extremistas, o Facebook eliminou grupos de discussão e páginas de apoio a esses celebridades. Em um comunicado, a rede social anunciou o banimento dessas páginas por considerá-las “perigosas”. “Sempre proibimos indivíduos e organizações que promovem ou executam a violência e o ódio, independentemente da sua ideologia. O processo para avaliar possíveis violações é longo e nos levou à decisão de retirar essas contas hoje”, informou a rede social.

O Facebook, conforme relatou o jornal El País, havia banido quatro páginas completas do Infowars no verão passado por difundir discurso de ódio. “Nós as retiramos porque glorificavam a violência e usavam uma linguagem desumanizadora para descrever as pessoas transgênero, muçulmanos e imigrantes”, informou a empresa na ocasião. A decisão veio em uma onda na qual Twitter, YouTube, Apple e Spotify também vetaram o apresentador, famoso por conspirações disparatadas de extrema direita, como dizer que o massacre da escola Sandy Hook foi uma montagem (o caso está nos tribunais). Jones se considerou então vítima de uma perseguição política da esquerda. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que em 2015 disse que Jones tinha uma “reputação incrível”, incentivou publicamente essa ideia de que as redes estão vetando seus apoios midiáticos.

O movimento, d fato, tem sido criticado pela direita, que se queixou de que as redes sociais estão deixando de ser empresas tecnológicas para se tornarem árbitros do debate público. Organizações de direitos civis também alertaram para o perigo de que sejam empresas como o Facebook que digam o que pode ser dito e o que não pode em um país onde a liberdade de expressão, em seu sentido mais radical, é um pilar constitucional incontestável.

Credibilidade em queda

Enquanto o Facebook tenta contornar seus problemas com a preocupação de preservar sua marca, ao invés de atacá-los para deixar de causar impacto negativos nas sociedades, a credibilidade das mídias sociais nos países mais ricos continua a despencar, informou o jornal The Guardian. Recente pesquisa feita pelo YouGov-Cambridge Globalism Project em 23 países mostra que os britânicos confiam nas plataformas de mídia social menos do que qualquer outra nação e, ainda, são favoráveis a uma regulamentação mais forte das empresas de tecnologia do Vale do Silício.

O estudo indica que quatro em cada cinco britânicos desconfiam de plataformas como Facebook e Twitter, com outras nações desenvolvidas, como França, Alemanha e Estados Unidos, não muito atrás. No Reino Unidos, 83% dos entrevistados disseram que tinham pouca ou nenhuma confiança em mídias interativas. Apenas duas fontes de informação são confiáveis para a maioria dos britânicos: canais nacionais de notícias de TV (61%) e organizações de notícias locais (54%).

Nos Estados Unidos, apenas 23% dos norte-americanos disseram que confiam nas informações obtidas nas mídias sociais, assim como somente 20% dos alemães e 28% dos canadenses. O cenário, porém, contrasta com os dos países de renda média, como o Brasil, a Índia e o México, onde a confiança nas redes sociais é maior. A maioria dos indianos (52%), sauditas (52%) e tailandeses (52%), por exemplo, confiavam nas informações das redes sociais.

Pró-regulação

O levantamento indica também que mais de 60% dos britânicos pensam que as empresas de tecnologia devem ser mais reguladas, em comparação com apenas 6% que acham que há regulamentação demais e 15% que acham que existe quantidade certa. Nos Estados Unidos, 47% dos entrevistados acreditam que o setor precisa de mais supervisão, enquanto 14% defendem menos controle e 21% dizem que não há necessidade de mudanças.

A pesquisa entrevistou mais de 25 mil pessoas em uma série de tópicos, incluindo populismo, globalismo e tecnologia. O jornal The Guardian ajudou a projetar o estudo.

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https://www.theguardian.com/world/2019/may/03/britons-less-trusting-of-social-media-than-other-major-nations-facebook-twitter?utm_term=RWRpdG9yaWFsX01lZGlhQnJpZWZpbmctMTkwNTAz&utm_source=esp&utm_medium=Email&utm_campaign=MediaBriefing&CMP=media_email

https://www.businessinsider.com/facebooks-unusual-announcement-ban-alex-jones-infowars-milo-yiannopoulous-2019-5?nr_email_referer=1&utm_source=Sailthru&utm_medium=email&utm_content=Tech_select

https://brasil.elpais.com/brasil/2019/05/02/internacional/1556821930_443458.html