Redação do jornal britânico The Guardian Redação do jornal britânico The Guardian / Reprodução

Guerra à desinformação: “Os códigos editoriais e treinamento do jornalismo estão ficando para trás da realidade”, alerta diretora do Centro Tow

Há quase três anos, em 2016, a campanha eleitorial à presidência dos Estados Unidos evidenciou ao mundo que o modelo de negócios das mídias interativas – uma espécie de trem de alta velocidade puxado pela poderosa locomotiva chamada Facebook – tem um gigantesco potencial para ser armado com o objetivo de espalhar a desinformação como jamais visto antes, arruinar reputações, estabelecer vigilância, incentivar o ódio e desequilibrar a competitividade de vários mercados, ameaçando as democracias. É, como diz Emily Bell, diretora do Centro Tow para o Jornalismo Digital, da Universidade Columbia, uma “guerra de informação” na qual o jornalismo é o principal algoz do inimigo e, por isso, também se transformou em alvo preferencial. Mas para exercer seu papel com eficácia, diz a jornalista, as redações precisam aperfeiçoar e adaptar suas práticas ao meio online. “Os códigos editoriais e treinamento do jornalismo estão ficando para trás da realidade”, alerta.

“As redações éticas treinam os repórteres a manterem suas fontes seguras em ambientes fisicamente hostis. O novo desafio para as redações é estender essas práticas ao ciberespaço, já que tanto os jornalistas quanto suas fontes arriscam as consequências online e offline que fluem de seu trabalho”, diz Emily em artigo publicado em hotsite especial da Columbia Journalism Review (CJR), da Escola de Jornalismo da Universidade Columbia. O portal reúne textos produzidos para uma cobertura especial chamada Guerra à Informação. Dentro dessa iniciativa, a CJR promoveu uma conferência na última quarta-feira (9) em parceria com o Instituto Poynter, o Centro Tow de Jornalismo Digital e os Centros Newmark para a Ética e Segurança do Jornalismo e para a Ética e Liderança.

Em seu texto, Emily diz que é preciso entender as ameaças à credibilidade, ao acesso e à segurança dos jornalistas e do registro público. Mas isso, afirmou, é apenas o começo. “Implantar práticas de segurança e ética que tornem o jornalismo mais do que uma trincheira ineficaz nas próximas guerras de informação será o desafio de uma geração”, assinala. Nessas batalhas, de um lado, repórteres que investigam o extremismo são assediados, enquanto governos autoritários atacam a imprensa crítica. De outro, adverte Emily, o que acontece online está se movendo cada vez mais para o mundo real, como nos recentes tiroteios em massa nos Estados Unidos e na Nova Zelândia. “A interação entre as mensagens online e as ações offline criam um novo campo de perigo e dificuldade para os repórteres”, assinala a diretora do Centro Tow para o Jornalismo Digital.

A raiz do problema, enfatiza Emily, é bem conhecida, mas as soluções são insuficientes. “Empresas como o Facebook e o Google ganharam bilhões de dólares com projetos de plataformas que facilitam a publicação, mas dificultam a detecção de desinformação”, afirma a jornalista, para quem a inteligência artificial (IA) pode piorar ainda mais a situação. Nesse cenário, afirma, cada parte do processo de notícias é afetada de alguma forma pelas externalidades de um ambiente digital, desde os modelos de financiamento e processos de reportagens até as práticas de contratação e a diversidade de participação.

Poucas redações possuem práticas sistemáticas de verificação, segundo Emily, e a maioria não possui uma política de ética para o uso da inteligência artificial. Além disso, uma pesquisa recente do Centro Tow, conta a jornalista, revela que, das 48 redações entrevistadas, apenas uma delas pensou em como arquivar material digital distribuído.

Leia aqui o texto de Emily Bell na íntegra, assim como demais artigos da cobertura Guerra à Desinformação, do CJR.