Guerra à desinformação: fornecer informação dos leitores ao Facebook faz da imprensa cúmplice do Facebook, diz jornalista da Universidade Columbia Reprodução

Guerra à desinformação: fornecer informação dos leitores ao Facebook faz da imprensa cúmplice do Facebook, diz jornalista da Universidade Columbia

Há vários argumentos do ponto de vista dos negócios para que empresas jornalísticas permaneçam no Facebook, a começar pelas dificuldades impostas à imprensa pelo próprio domínio da rede social norte-americana, ao lado do Google, no mercado digital. A ética, entretanto, é o suficiente para o jornalismo manter distância da empresa de Mark Zuckerberg, defende o jornalista Mathew Ingram, editor-chefe da área digital do site Columbia Journalism Review (CJR), da Escola de Jornalismo da Universidade Columbia. “As questões éticas surgem não por causa do domínio do Facebook, mas por causa do que ele teve que fazer para se colocar nessa posição. Jornalistas que usam o Facebook tacitamente deixam a plataforma livre, endossando sua escala como um benefício separado do dano que causa”.

Ingram sustenta a ideia reforçando, por exemplo, a recorrente violação de privacidade do Facebook a informações de milhões de seus usuários, muitas vezes vendidas como matéria prima-para para perfis psicográficos criados para direcionar propaganda digital ou, como no caso da Cambridge Analytica, na tentativa de influenciar grandes decisões sociais em democracias ou insuflar interesses de determinados grupos e promover governos autoritários. A violação foi tão significativa, afirma o jornalista em texto na página da CJR na web em cobertura especial intitulada "Guerra à Informação", que a Comissão Federal de Comércio (FTC , em inglês) dos Estados Unidos chegou à conclusão de que violou os termos do chamado "decreto de consentimento" assinado pelo Facebook em 2011, no qual a empresa prometeu preservar a privacidade do usuário.

O caso está sob investigação e tudo indica que o Facebook negocia pagar uma multa de até US$ 5 bilhões, valor muito superior (US$ 125 milhões) ao que a Exxon teve de se submeter como responsável pelo derramamento de óleo do petroleiro Valdez, em 1989, no Alasca, compara Ingram. O decreto de consentimento, diz o jornalista, foi exigido pela FTC porque a comissão descobriu que a rede social "enganou os consumidores dizendo que eles poderiam manter suas informações no Facebook privadas e, depois, repetidamente permitiu que elas fossem compartilhadas e tornadas públicas”; e isso continua a ocorrer.  

“O Facebook se assemelha a um conglomerado industrial da era Valdez, vazando continuamente materiais perigosos nos rios e lagos e abastecimentos municipais de água, mas toda vez que é capturado, promete fazer melhor. Por que alguém faria parceria com essa empresa?”, questiona Ingram “Ao fornecer conteúdo e informações sobre seus leitores e assinantes, as empresas de mídia são cúmplices dessas práticas de coleta de dados”, assinala. Além disso, continua, “há o óbvio papel do Facebook como distribuidor de desinformação”, incluindo o discurso de ódio e propaganda que contribuíram colocar em risco a vida das pessoas.  Em Mianmar, ressalta Ingram, essa prática motivou o genocídio de muçulmanos da etnia rohingya, segundo classificação da Organização das Nações Unidas (ONU), do qual o Facebook foi parcialmente culpado.

“Em dezenas de outros países, o Facebook ajudou a inflamar as guerras culturais e colocar as pessoas em risco, em parte porque não gastou tempo para entender o ambiente local, ou não tem ninguém no local que possa levantar uma bandeira de aviso. Isso apesar de uma força de trabalho de mais de 30 mil pessoas e um lucro no ano passado de US $ 6,8 bilhões”, critica Ingram. Por esse motivo, alguns dos primeiros financiadores da empresa a repudiaram. É o caso de Roger McNamee, para quem agora o Facebook é "uma ameaça à democracia", e Zuckerberg e seus colegas sabiam que havia potenciais efeitos negativos da gigantesca rede que eles queriam construir, “mas seguiram em frente de qualquer maneira”.

O editor de digital da CJR destaca também o “infame” memorando interno de junho de 2016, escrito pelo executivo Andrew Bosworth, no qual afirma: "Talvez alguém morra em um ataque terrorista coordenado com nossas ferramentas. A verdade nua e crua é que acreditamos em conectar as pessoas tão profundamente que qualquer coisa que nos permita conectar mais pessoas com mais frequência é de fato bom”. Depois que o memorando se tornou público, no ano passado, Bosworth argumentou que essa era uma posição teórica. “Mas é um bom resumo de como o Facebook abordou seu crescimento – implacavelmente, e sem preocupação com seus efeitos”, assinala Ingram.

Um ex-executivo do Facebook, Chamath Palihapitiya, está convencido de que a rede social é uma força potencialmente negativa na sociedade, porque usa truques psicológicos para obrigar os usuários – em particular os jovens – a permanecerem por mais tempo na rede, erodindo “os principais fundamentos sobre como as pessoas se comportam e agem entre elas”. Tristan Harris, da organização norte-americana Center for Humane Technology, defende a mesma ideia, enquanto o ex-desenvolvedor da Mozilla Aza Raskin chamou os truques usados pelas redes sociais como “cocaína comportamental”.

O argumento a favor de a imprensa permanecer no Facebook é óbvio, diz Ingram: imenso alcance que proporciona aos publishers o potencial de aumentar seus leitores, além de bilhões de dólares para serem espalhados, seja por meio de compartilhamento de receita com publicidade, seja financiando iniciativas de jornalismo, com as quais recentemente comprometeu um total de US$ 300 milhões nos próximos três anos. “Juntos, o Facebook, o Twitter e o Google se tornaram os maiores financiadores de jornalismo do mundo, uma triste ironia, dados seus efeitos nos negócios”, lamenta Ingram.

O jornalista ressalta ainda que o tráfego do Facebook tem diminuído para muitos produtores de notícias, já que a rede social ajustou seu algoritmo para se concentrar mais no compartilhamento pessoal. Mesmo assim, o Facebook continua a gerar muita receita. “Muitos meios de comunicação fizeram as contas e decidiram que não tinham outra opção a não ser jogar bola – ainda que isso significasse jogar bola com uma empresa que não apenas tem a bola, mas também o estádio, todos os uniformes e os direitos de transmissão dos jogos”, diz Ingram.

Apesar disso, em seu artigo, o jornalista faz um apelo aos publishers: “[Estar no Facebook] não custa nada e há a chance de que você receba algum tipo de aumento de receita. Mas também há algumas razões bastante poderosas para você querer repensar seu relacionamento com o Facebook. Quanto do que você está fazendo atende aos interesses da rede social, e não aos seus, ou aos interesses do jornalismo ou da sociedade em geral?”.

Leia aqui o texto de Mathew Ingram na íntegra, assim como demais artigos da cobertura Guerra à Desinformação, do CJR.