Guerra à desinformação: cobertura da extrema-direita na era digital é tão complexa quanto o relato do terrorismo Reprodução

Guerra à desinformação: cobertura da extrema-direita na era digital é tão complexa quanto o relato do terrorismo

A cobertura sobre extremistas sempre foi um desafio para o jornalismo, mas agora a velocidade e a facilidade com as quais essas pessoas fazem uso das redes sociais para elevar a voz de ódio exigem muito mais cuidado dos profissionais e empresas de notícias. Há um amplo debate em curso, e os grupos de extrema-direita são pauta central, uma vez que mostram enorme competência no uso armado das mídias interativas em todo o mundo. Nessa discussão, diz Sam Thielman, editor no Centro Tow para o Jornalismo Digital, da Universidade Columbia, existe um “desacordo significativo” entre os jornalistas sobre como retratar esse segmento que, a exemplo dos terroristas, busca a notoriedade. Mais complexo ainda é encontrar o tratamento adequado do relato a respeito de organizações que inspiram e incentivam os extremistas, às vezes com pretensões jornalísticas.  

As opções, afirma Thielman em artigo dentro da cobertura “Guerra à Informação” – trabalho especial do site Columbia Journalism Review (CJR), da Escola de Jornalismo da Universidade Columbia –, abrangem amplo espectro. Há quem defenda simplesmente ignorar a extrema-direita, mesmo quando cometem crimes terríveis, enquanto outros preferem caracterizá-la como uma junção de fanáticos desprezíveis cuja influência se estende apenas a pequenos grupos de pessoas crédulas.

Na CJR, a diretora do Centro Tow, Emily Bell, explica que, de qualquer forma, o desafio passa necessariamente pelo estudo do que é conhecido como “terrorismo estocástico”, praticado por extremistas, em especial os de ideário de extrema-direita. “O termo descreve um ato imprevisto de terror cometido por um indivíduo aparentemente aleatório. Onde há uma saturação de retórica inflamatória sobre ideologia ou grupos particulares. Segundo a teoria, torna-se estatisticamente provável que algum lobo solitário morda a isca”.

Dentro desse fenômeno, pelo menos nos Estados Unidos, há ainda uma espécie de ressurgimento de grupos de ódios dos anos 1960 e 1970. A Liga Anti-Difamação (ADL, sigla em inglês) aponta que, em 2017, os casos de violência cometidos por grupos de extrema-direita e supremacistas brancos representaram 59% do total de todos os ataques extremistas nos Estados Unidos. Um ano antes, eles eram responsáveis por apenas 20% dos casos. Pesquisa do Centro para Estudos Internacionais e Estratégicos (CSIS) também indica um crescimento dos casos de violência praticada pela extrema direita.

Estudioso da cobertura jornalística daquela época, Joan Donovan, pesquisador do Centro Shorenstein, da Harvard Kennedy School, diz que muitos repórteres concordavam em não cobrir os comícios da Ku Klux Klan, assim como não publicavam fotos de pessoas usando capuzes e roupas da violenta organização de supremacistas brancos, para não dar publicidade ao grupo. Ao comentar a iniciativa, Donovan ressalta que os jornalistas e as empresas produtoras de notícias são os certificadores de informações confiáveis, e por isso “são alvos para colocar campanhas de desinformação na esfera pública”.

A fotojornalista Glenna Gordon defende com veemência a mesma prática aplicada por jornalistas norte-americanos no fim do século passado, conta Thielman. Ela sustenta a abordagem em que os extremistas são classificados como patéticos e perdedores, lembrando de uma imagem que captou de um café da manhã organizado por um supremascista branco com a temática nazista. "Eles querem que você os veja como um bloco unificado de pessoas assustadoras, quando na verdade são idiotas fazendo uma suástica de pão francês em um restaurante", diz.

Nina Berman, também fotojornalista não concorda. Os extremistas, diz, em grupos pequenos e mal organizados ou não, ainda são violentos. Além disso, destaca a capacidade de comunicação desse segmento na era digital. “O alt-right está criando suas próprias plataformas e suas mídias”, afirma. Se o jornalismo não denunciar esse segmento, pode não haver motivação para que as pessoas em gera façam isso nas redes sociais e nos aplicativos de mensagens. “Então, para quem você está realmente negando essa informação?”, pergunta Nina, que considera crucial a descrição da extremidade das visões dos nacionalistas brancos. "É preciso colocar em contexto que essas pessoas acreditam na aniquilação e separação de pessoas não-brancas, não-cristãs".

Ao mesmo tempo, preocupadas com queda em suas credibilidades, empresas como Facebook e YouTube (do Google), após anos de conivência, estão derrubando páginas, grupos e publicações de líderes e organizações de extrema-direita da plataformas online. Tess Owen, da repórter da revista Vice, alerta para os efeitos colaterais da frente contra extremistas de direita nas mídias interativas. "Se reprimem os nacionalistas brancos, têm que reprimir os legisladores republicanos, porque os nacionalistas brancos estão falando como republicanos, e os legisladores republicanos estão falando como nacionalistas brancos", pondera.

Há ainda uma outra peculiaridade na mídia norte-americana, assinala Thielman: a maior proximidade do que a maioria dos jornalistas gosta de admitir entre os meios de comunicação de extrema-direita que defendem a limpeza étnica e os intelectuais políticos em importantes publicações dos Estados Unidos. Muitos defensores da supremacia branca assinam textos em veículos respeitados como The National Review e The American Conservative, entre outros. E muitos dos pensadores da extrema-direita estão próximos de colunistas conservadores, ensaístas e editores de grandes jornais, entre eles o The Wall Street Journal, do The New York Times e o The Washington Post. “É trabalho dos jornalistas chamar a atenção para essas conexões, especialmente quando elas afetam as redes profissionais nas quais operam”, defende Thielman.

Leia aqui o texto de Sam Thielman na íntegra, assim como demais artigos da cobertura Guerra à Desinformação, do CJR.