Senadora democrata Elizabeth Warren, pré-candidata à presidência do país Senadora democrata Elizabeth Warren, pré-candidata à presidência do país / Reprodução

Debate viciado pelas bolhas ideológicas das redes sociais ameaça a atividade jornalística nos EUA

O grau de radicalização política nos Estados Unidos ganhou níveis nunca vistos antes a partir da influência das redes sociais, de forma evidente desde a campanha à Casa Branca, em 2016. O debate viciado pelas bolhas ideológicas, impulsionadas por algoritmos que incentivam as pessoas a se cercarem apenas por aqueles que compartilham a mesma visão, se repete no cotidiano dos norte-americanos, e a imprensa não está livre do contágio. Há algum tempo eleitores republicanos e democratas fazem distinção ao buscarem informações nos veículos jornalísticos. Mas a distância entre os dois polos cresce, e há receio de que o discurso marcado por sectarismo embaralhe também a prática do jornalismo.

A discussão no partido Democrata sobre a participação dos pré-candidatos à presidência e outros integrantes da legenda na programação do canal de televisão conservador Fox News expõe bem o problema, segundo relato de Jon Allsop, do site Columbia Journalist Review (CJR). Em março, depois de a revista New Yorker publicar reportagem da jornalista Jane Mayer sobre as relações próximas emissora com a Casa Branca, o Comitê Nacional Democrata (DNC, na sigla em inglês) anunciou que não apoiaria a ida de integrantes da sigla em debates promovidos pela emissora antes do período eleitoral. A Fox é “insuficientemente justa e neutra", disse Tom Perez, presidente do DNC.

Vários democratas disseram que a decisão de Perez foi um erro, argumentando que os candidatos devem procurar se envolver com a Fox e seus espectadores. Em abril, Bernie Sanders – apontado com um líder de esquerda dentro do partido Democrata – foi o primeiro dos pré-candidatos da sigla a participar de uma entrevista na Fox. Ele recebeu algumas críticas por fazer isso, contou Allsop, mas deu início a uma onda: Amy Klobuchar já esteve na emissora, e Pete Buttigieg e Kirsten Gillibrand estão com suas entrevistas agendadas.

A senadora Elizabeth Warren, entretanto, rejeitou publicamente o convite da Fox News, elevando o tom. “A Fox News é uma fraude odiosa que dá um megafone a racistas e conspiradores. É projetada para nos colocar uns contra os outros, arriscando as consequências da vida e da morte, para dar cobertura à corrupção que está apodrecendo nosso governo e esvaziando a política”, disse a parlamentar, que também é uma das vozes mais críticas ao oligopólio do Facebook e defensora do desmembramento da rede social de Mark Zuckerberg.

Alguns candidatos e estrategistas do partido Democrata afirmam que aparecer na Fox News é uma oportunidade para falar diretamente com um determinado público e, com isso, ocupar mais espaço político. A entrevista de Sanders, por exemplo, foi vista por 2,5 milhões de pessoas. Por outro lado, os céticos afirmam que os espectadores da Fox são uma causa perdida para os democratas.

O certo, diz o jornalista do site CJR, é que, se os integrantes do partido optarem por participar da programação da emissora, é preciso incentivá-los a enfatizar um ponto essencial, que passa pelos conceitos do jornalismo profissional. "A Fox tem uma relação anormal e corrosiva com a democracia", afirma Allsop, em análise indicativa de que a atuação independente da emissora está em xeque.

Para validarem suas versões dos fatos, os grupos extremados nas redes sociais atacam a imprensa. Desde a posse de Trump, a direita norte-americana tem no presidente o principal porta-voz de uma violenta retórica que tem por objetivo desacreditar o jornalismo e, com isso, evitar críticas ao governo. Nesta fúria, a rede de televisão CNN e o jornais The New York Times e The Washington Post estão entre os principais alvos de Trump e seus aliados. Curiosamente, esses são alguns dos veículos apontados como hiperpartidários.

Nos Estados Unidos, segundo o estudo “Network Propaganda: Manipulation, Disinformation, and Radicalization in American Politics” (propaganda em rede: manipulação, desinformação e radicalização na política americana, publicado em livro pela editora da Universidade de Oxford), as empresas noticiosas hiperpartidárias têm a preferência de usuários de redes sociais mais à esquerda no leque ideológico. A informação é do professor do curso de gestão de políticas públicas da USP e doutor em filosofia Pablo Ortellado, em sua coluna no jornal Folha de S.Paulo,

A pesquisa, liderada de Yochai Benkler, professor de Estudos Jurídicos Empresariais na Harvard Law School, detalha por meio de uma análise de redes, em que verifica o padrão de interação de milhões de usuários com páginas e contas de veículos jornalísticos, mostra um curioso padrão, segundo Ortellado. Usuários de esquerda interagem simultaneamente com veículos hiperpartidários, como a página “Occupy Democrats” e com veículos tradicionais da grande imprensa, enquanto os de direita somente interagem com veículos engajados, como o site Breitbart News, e com a Fox News. 

Valorização da pluralidade

Não há no Brasil uma emissora como o canal norte-americano, mas a polarização política é muito semelhante a dos Estados Unidos. De qualquer forma, jornalistas e empresas de comunicação brasileiros estão atentos ao fenômeno, certos de que o jornalismo é o principal algoz das bolhas das redes sociais e possível influência delas na atividade jornalística – como nos casos dos ataques virtuais a profissionais de imprensa, cada vez mais frequentes no país.

"O jornalismo sempre conviveu com o sectarismo. Inúmeros veículos ao longo da história escolheram se dirigir a um público específico e a divulgar apenas um conjunto restrito de ideias”, diz Uirá Machado, secretário-assistente de Redação da Folha de S.Paulo e coordenador da versão mais recente do Manual da Redação do jornal paulista.

O fenômeno das bolhas nas redes sociais, por sua vez, afirma Machado, segue outra lógica, pois decorre de algoritmos criados para elevar índices de audiência. “É difícil imaginar que esse mesmo tipo de bolha possa se reproduzir no jornalismo profissional, mas é fácil supor que sua lógica possa exercer uma influência nefasta”.

O risco, portanto, segundo o jornalista da Folha de S.Paulo, “não é tanto o de as bolhas se estenderem ao jornalismo, e sim o de jornalistas ou veículos de comunicação se prostituírem na tentativa de sobreviver em meio à cacofonia digital”. Machado observa que essa não é uma possibilidade desprezível, mas tem prazo de validade.

“No curto prazo, esse caminho pode parecer profícuo. Com o passar do tempo, porém, quero crer que as pessoas entenderão a necessidade de recorrer a fontes confiáveis de informação”, afirma Machado. “Essas fontes serão aqueles veículos que assinaram um compromisso com a busca da objetividade, do pluralismo e do contraditório. Ou seja, veículos capazes de fazer um contraponto à intolerância que cresce nas redes sociais. Se eu estiver certo, quando se trata de jornalismo, as bolhas das redes sociais não passam de um canto da sereia”.

O presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Marcelo Rech, destaca que a formação de bolhas de opinião é um dos efeitos colaterais mais perversos da vida em rede na internet. É, segundo ele, um problema tão crítico quanto à desinformação, que leva a radicalismos e sectarismos crescentes. “A melhor forma de combater as bolhas é a valorização da pluralidade, representada pelos meios de comunicação profissionais preocupados em trazer múltipla opiniões e visões sobre um mesmo fato”, avalia Rech.

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