Mudanças no algoritmo do Facebook reprimem o jornalismo e interferem nas democracias, diz especialista em mídia digital Reprodução/National Interest

Mudanças no algoritmo do Facebook reprimem o jornalismo e interferem nas democracias, diz especialista em mídia digital

A interferência russa em eleições de outros países por meio de manipulações tecnológicas e uso de redes sociais para a disseminação de desinformação com o objetivo de desmoralizar democracias é um tema recorrente. Nos Estados Unidos a preocupação é ainda maior, e os russos muitas vezes são acusados de serem responsáveis por problemas criados por outros. Com a aproximação das eleições norte-americanas de 2020, a Rússia está novamente na sala de reconhecimento dos criminosos cibernéticos. Mas os Estados Unidos não têm dado a devida atenção, segundo a professora Jennifer Grygiel, da Syracuse University, ao papel decisivo do algoritmo do Facebook nesse tipo de interferência ao reprimir o conteúdo jornalístico, objeto de amplo estudo da professora.

“Agentes políticos sabem que o Facebook serve como um guardião das dietas informativas de mais de 200 milhões de norte-americanos e 2 bilhões de usuários em todo o mundo. Ações e abuso de outras pessoas nas plataformas geraram muita preocupação e discussão pública, inclusive sobre quanta desinformação e propaganda os norte-americanos viram antes da eleição. O que não foi falado o suficiente é o efeito que as mudanças algorítmicas do Facebook tiveram no acesso a notícias e democracia”, escreve Jennifer, especializada jornalismo digital, no site The Conversation.

A professora lembra que o algoritmo do feed de notícias do Facebook determina o que os usuários veem em sua plataforma – de memes engraçados a comentários de amigos. Esse algoritmo é atualizado regularmente pela empresa do Vale do Silício, o que pode mudar drasticamente as informações que as pessoas consomem. “Um contraponto chave para a campanha de desinformação russa [em 2016] foi o jornalismo factual de fontes respeitáveis. Como pesquisadora e educadora de mídias sociais, vejo evidências de que mudanças no algoritmo do feed de notícias do Facebook impediram o acesso dos usuários ao jornalismo confiável no período que antecedeu a eleição de [Donald] Trump”, diz.

Em meados de 2015, destaca Jennifer, o Facebook introduziu uma grande mudança de algoritmo que desviou os leitores do jornalismo e das notícias para fornecer mais atualizações de seus amigos e familiares. A mudança foi feita em linguagem amigável, sugerindo que o Facebook estava tentando garantir que os usuários não perdessem histórias de amigos. Na prática, um dos efeitos da mudança foi reduzir o número de interações que os usuários do Facebook tinham com fontes de jornalismo.

Poucos meses antes da eleição de 2016, nova mudança de algoritmo causou um segundo impacto no tráfego da editora. Na época, vários publishers descobriram que seu conteúdo passou a ser significativamente menos visível para os usuários do Facebook. “Dados da CrowdTangle, empresa de monitoramento de mídia social, mostram que o tráfego do Facebook caiu notavelmente na CNN, ABC, NBC, CBS, Fox News, The New York Times e The Washington Post depois que a empresa atualizou seus algoritmos para favorecer amigos e familiares em junho de 2016”, afirma a professora.

Jennifer elenca ainda outro dano perturbador causado pelas alterações do Fecebook em seu algoritmo. Em 2016, diz, o interesse dos eleitores nas eleições presidenciais foi maior do que nas duas décadas anteriores, mas em contrapartida a desinformação foi excessiva. “As mudanças no Facebook fizeram com que as principais organizações de notícias de todo o espectro político tivessem mais dificuldade em divulgar notícias e relatórios eleitorais confiáveis”.

A professora lembra ainda de outra informação alarmante: o Facebook estava ciente das preocupações sobre seu algoritmo mesmo antes da eleição de 2016. “Um dos engenheiros do Facebook sinalizou em julho de 2015 sobre os efeitos potenciais das mudanças no algoritmo. Três meses depois, o mentor de [Mark] Zuckerberg, Roger McNamee, também tentou alertar os executivos do Facebook que a plataforma estava sendo usada para manipular informações sobre a eleição”.

Agora, pesquisa mais recente do Centro Shorenstein de Harvard mostra que o tráfego do Facebook continuou a diminuir significativamente para os publishers após nova mudança do algoritmo do Facebook em janeiro de 2018. Ao mesmo tempo, pesquisa sobre a tecnologia de recomendação da rede social são muito limitadas, uma vez que a empresa não fornece informações suficientes. “Acredito que é importante entender por que [as mudanças] aconteceram e considerar as decisões de negócios do Facebook mais diretamente, bem como elas afetam a democracia”, afirma Jennifer.

Não há provas de que as mudanças do Facebook tenham intenções políticas, afirma a professora. “Mas não é difícil imaginar que a empresa possa ajustar seus algoritmos no futuro, se quiser”, completa. Por isso, Jennifer defende medidas para impedir alterações no algoritmo nos períodos prévios antes das eleições. “No setor financeiro, por exemplo, ‘períodos de silêncio’ antes de grandes anúncios corporativos buscam evitar que os esforços de marketing e relações públicas influenciem artificialmente os preços das ações”, pondera a professora.

Proteções semelhantes a essa barreira à manipulação corporativa, defende Jennifer, poderiam ajudar impedir que agentes políticos ou qualquer empresa com controle significativo sobre o acesso dos usuários à informação usem algoritmos e sistemas de plataformas digitais para moldar a opinião pública ou o comportamento de voto.

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