Propaganda política e vigilância em massa, mais dois motivos para regular Google e Facebook Reprodução/The Guardian

Propaganda política e vigilância em massa, mais dois motivos para regular Google e Facebook

Os problemas causados pelo poder desmedido das grandes empresas de tecnologia na coleta e uso de dados pessoais são mais do que suficientes para justificar a regulação na atividade dessas companhias. Mas algo mais grave exige que as sociedades livres criem regras elementares o mais rápido possível, defende Peter Lewis, autor do livro Webtopia: The Worldwide Wreck of Tech and How to Make the Net Work: o uso dessas plataformas para propagandas governistas e vigilância em massa.   

Em artigo no site do jornal The Guardian na Austrália, Lewis lembra a recente reação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aos massacres do último fim de semana ocorridos nas cidades norte- americanas de Dayton (Ohio) e El Paso (Texas) são uma clara evidência da facilidade com a qual agentes políticos podem se apropriar das informações e de recursos privilegiados das gigantes de tecnologia, já conquistados pelas facilidades que o monopólio dá a elas.

Trump, escreve Lewis, identificou de forma insidiosa a internet como a causa e, ao mesmo tempo, a solução para a disseminação do terrorismo doméstico de direita nos Estados Unidos, ignorando seus próprios feeds de mídia social cheios de ódio e da fervorosa defesa que faz das armas. Em paralelo, o presidente orientou agências de segurança pública em nível local, estadual e federal a trabalhar com a grande tecnologia “para desenvolver ferramentas que possam detectar atiradores em massa” antes que eles ataquem.

“Ao invés de restringir a venda de armas, Trump coloca sua fé na tecnologia para poder prever, identificar e, assim, prevenir a violência antes que ela aconteça. Em um mundo perigoso, será a coleta e análise de nossos dados pessoais que nos manterão a salvo”, lamenta Lewis. “Ao puxar essa rédea, Trump está entrando em um manual do governo que remonta aos ataques de 11 de setembro e, como Shoshana Zuboff argumenta em seu livro The Age of Surveillance Capital, teve um profundo efeito na forma como a internet tem funcionado e desenvolvido”.

Em nome da segurança nacional, explica Lewis, as plataformas digitais, incluindo o Facebook e o Google, não só foram autorizadas, mas ativamente encorajadas a coletar o máximo de informações sobre as pessoas. “Não é apenas um registro de nossas compras online, mas nossas visitas ao site online, o conteúdo de nossas pesquisas, e-mails, telefonemas”, ressalta.

No Reino Unido, outro fato recente alerta para o perigo do poder que passa das mãos das empresas tecnológicas para a dos políticos. No dia em que Boris Johnson assumiu como primeiro-ministro britânico, centenas de anúncios no Facebook foram espalhados aos eleitores britânicos. Depois o The Guardian informou que propaganda foi comandada pela a empresa de consultoria política CTF Partners, dirigida por um aliado de longa data de Johnson. A companhia construiu uma rede de páginas de "notícias" sem marca no Facebook. Dados e publicidade digital, lembrou o The Guardian, foram fundamentais para a campanha favorável ao Brexit, em 2016, apoiada pelo agora primeiro-ministro britânico.

Leia mais em:

https://www.theguardian.com/technology/commentisfree/2019/aug/07/its-time-for-tighter-regulation-of-how-facebook-and-google-use-our-data

https://www.theguardian.com/commentisfree/2019/aug/04/facebook-ads-new-polticial-norm-voters-in-dark-where-they-come-from