Manipulação dos jornalistas é parte da estratégia de multiplicação da desinformação on-line, alerta estudo Reprodução

Manipulação dos jornalistas é parte da estratégia de multiplicação da desinformação on-line, alerta estudo

As artimanhas das pessoas e grupos que espalham a desinformação nas redes sociais não se limitam a bombardear com falsidades as plataformas das grandes empresas de tecnologia e a enganar os usuários dessas mídias. Os autores das fraudes também desenvolveram uma sofisticada estratégia para ludibriar e manipular até mesmo os jornalistas, cujo trabalho é justamente o combate à desinformação. Recente estudo do think tank digital Data & Society revela que, quando bem sucedidas, essas arapucas potencializam a capacidade de propagação das mentiras on-line.

O estudo, liderado por Joan Donovan, diretora do Projeto de Pesquisa em Tecnologia e Mudança Social da Kennedy School da Harvard University, e o pesquisador sênior Brian Friedberg, detalha um tipo de manipulação digital chamada de "hackers de origem". Trata-se, segundo o jornalista Mathew Ingram, editor-chefe da área digital do site Columbia Journalism Review (CJR), de um conjunto de técnicas divididas pelos pesquisadores em quatro categorias:

1) Sloganeering viral (slogan viral): Consiste em reembalar pontos de discussão reacionários para mídias sociais e amplificação da imprensa.

2) Leak forgery (falsificação de vazamento): Compartilhamento de documentos falsificados com o objetivo de chamar atenção de mídia;

3) Evidence Collages (colagens de evidências): Documentos (geralmente imagens) compostas de informações ou desinformação de várias fontes, para torná-las facilmente compartilháveis;

4) Keyword Squatting (domínio estratégico de palavras-chave): Uso de expressões e contas "fantoches" para deturpar o comportamento de grupos ou indivíduos específicos.

Donovan e Friedberg usam estudos de casos recentes para ilustrar cada uma dessas subcategorias. No caso dos slogans virais, por exemplo, umas das ações mais bem-sucedidas nos últimos meses, lembram os pesquisadores, foi a hashtag "Jobs Not Mobs", slogan viral de outubro de 2018 criado para denegrir a imagem de imigrantes nos Estados Unidos. A expressão surgiu nos tópicos do Reddit, onde os usuários criavam memes visuais, incluindo vídeos, associando de forma descontextualizada distúrbios nos Estados Unidos a caravanas de migrantes.

"O material audiovisual facilmente compartilhável, juntamente com a implantação de uma hashtag, criou oportunidades para um enxame de participação, e o slogan rapidamente passou do ponto de origem nos hubs on-line de extrema direita", diz o relatório. O slogan mudou-se para o Twitter e o Facebook, onde contas automatizadas ajudaram a espalhar ainda mais a desinformação, que finalmente foi usada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em um tweet.

Donovan e Friedberg apontam que os jornalistas podem piorar esse problema relatando esse tipo de campanha. O estudo destaca que cabe a jornalistas e plataformas sociais entenderem como esses slogans virais crescem e evoluem, a fim de determinar se a propagação do conteúdo é "orgânica ou operacional" – ou seja, se é uma consequência natural da atividade social ou de uma campanha planejada.

"Os jornalistas também devem entender seu papel em uma rede de amplificação e procurar exemplos em que podem involuntariamente chamar a atenção para um slogan que é popular apenas dentro de uma comunidade on-line já polarizada", diz o relatório. O estudo recomenda que os meios de comunicação façam o possível para encontrar evidências para corroborar uma história antes de compartilhá-la. Também sugere que as redações invistam mais recursos em segurança da informação, incluindo a criação de um trabalho específico que envolva a verificação de cadeias de evidências conectadas a campanhas de mídia social.

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https://www.cjr.org/the_media_today/trolls-manipulate-media.php