Crescente ameaça à imprensa no mundo tem estímulo da retórica agressiva de Trump, diz publisher do NYT Reprodução

Crescente ameaça à imprensa no mundo tem estímulo da retórica agressiva de Trump, diz publisher do NYT

Arthur G. Sulzberger, publisher do jornal norte-americano The New York Times, um dos mais influentes diários do mundo e dono de uma significativa atuação global, alertou esta semana para o que ele chamou de um ataque mundial ao jornalismo. Em artigo publicado na segunda-feira (23), ele destacou que as ameaças mais alarmantes têm sido impulsionadas pela retórica agressiva do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra a imprensa. “O governo atual recuou do papel histórico do nosso país como defensor da livre imprensa. Ao verem isso, outros países estão perseguindo jornalistas com uma percepção crescente de impunidade”, escreveu.       

O jornalista destacou que o jornal mantém repórteres atuando em 160 países, muitos deles em conflito armado. O governo norte-americano, disse, sempre atuou para garantir a proteção desses profissionais, tendo como princípio a defesa da livre expressão. “Aqueles que, como nós, estão dirigindo o Times, têm dificuldade para não se preocupar, sabendo que temos colegas em lugares onde a guerra é intensa, as doenças se propagam e as condições deterioram. Mas nos tranquilizamos ao saber que, além de toda a nossa preparação e todas as nossas salvaguardas, existe outra rede de proteção crítica: o governo dos Estados Unidos, o maior defensor do mundo da livre imprensa”, afirmou.

Sulzberger, entretanto, ressaltou que houve uma brusca mudança no governo Trump. “Em todo o globo uma campanha implacável tem tido como alvo os jornalistas por causa do papel fundamental que eles assumem para garantir uma sociedade livre e informada. Para impedir os jornalistas de expor verdades nada confortáveis e exigir que o poder preste contas dos seus atos, um número crescente de governos tem adotado medidas abertas, às vezes violentas, para desacreditar o trabalho desses jornalistas e usar da intimidação para silenciá-los”, disse ele em seu texto, “A crescente ameaça ao jornalismo em todo o mundo”.

O publisher assinalou como, segundo ele, Trump influencia este novo cenário. “O difícil trabalho do jornalismo sempre implicou riscos, especialmente em países sem proteção democrática”, disse. “Mas a diferença hoje é que essas repressões brutais vêm sendo aceitas passivamente e talvez até mesmo incentivadas tacitamente pelo presidente dos Estados Unidos”.

Trump, afirmou Sulzberger, postou mensagens no Twitter sobre “fake news” quase 600 vezes desde que assumiu o governo. “Seus alvos mais frequentes são as organizações de notícias independentes com o profundo compromisso de informar equitativa e acuradamente”, disse, para em seguida elencar números de uma espécie de efeito dominó.

“Meus colegas, e eu recentemente, pesquisamos a propagação da frase 'fase news' e o que descobrimos é profundamente alarmante: nos últimos anos, mais de 50 primeiros-ministros, presidentes e outros líderes de governo nos cinco continentes usaram o termo 'fake news' para justificar vários níveis de atividade contra a imprensa”, escreveu.

A frase foi usada, segundo Sulzberger, pelo primeiro-ministro Viktor Orbán, na Hungria, e pelo presidente Recep Tayyip Erdogan, na Turquia, que estabeleceram multas enormes para forçar as organizações de notícias independentes a serem vendidas para aquelas leais ao governo. O termo, continuou o jornalista, foi usado pelo presidente Nicolás Maduro, na Venezuela, e o presidente Rodrigo Duterte, nas Filipinas, que atacaram a imprensa à medida que conduziam repressões sangrentas. Ele citou ainda Camarões, México, Israel, Irã, Rússia e China. O termo “fake news”, frisou, também é utilizado por líderes liberais, caso do primeiro ministro da Irlanda, Leo Varadkar, e “por líderes de direita” como o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. “Ao lado do presidente Bolsonaro, no Rose Garden da Casa Branca, o presidente Trump disse: “Estou muito orgulhoso de ouvir o presidente utilizar o termo 'fake news'”, escreveu.

O publisher lembrou que, além da pressão política, o jornalismo enfrenta a dirupção do seu modelo de negócios na era digital. "O modelo baseado em publicidade que sustentava o jornalismo desmoronou. Google e Facebook se tornaram os mais poderosos distribuidores de informações na história, desencadeando acidentalmente uma enxurrada de desinformação". Para Sulzberger, à medida que se aprofundam mais na criação e distribuição do jornalismo, essas empresas também têm a responsabilidade de começar a defender a atividade jornalística.

“Empresas, comunidades acadêmicas e sem fins lucrativos, todas elas que dependem de um fluxo de notícias e informação têm a responsabilidade de promover essa campanha também. O que vale particularmente para gigantes da tecnologia como Facebook, Twitter, Google e Apple. Seu histórico de resistir a governos no exterior é irregular, no melhor dos casos; com frequência fecharam os olhos à desinformação e, às vezes, permitiram a supressão do real jornalismo”, afirmou.

Leia aqui a íntegra do artigo original do publisher do The New York Times.

O texto foi traduzido no Brasil pelos jornais O Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo e O Globo, nos links abaixo:

https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,a-crescente-ameaca-ao-jornalismo-em-todo-o-mundo,70003025034

https://oglobo.globo.com/mundo/artigo-ameaca-crescente-ao-jornalismo-ao-redor-do-mundo-23971203