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Secretário de Comunicação Social da Presidência prega boicote econômico à imprensa e entidades reagem Reprodução/O Globo

Secretário de Comunicação Social da Presidência prega boicote econômico à imprensa e entidades reagem

O governo do presidente Jair Bolsonaro protagonizou, no último fim de semana, mais um duro ataque à imprensa independente. Após a publicação de reportagem do jornal Folha de S.Paulo sobre possível caixa dois abastecido com dinheiro de candidaturas laranjas no PSL, o secretário de Comunicação Social da presidência, Fabio Wajngarten, sugeriu boicote econômico a organizações de notícias. Bolsonaro também fez críticas logo depois.

A reportagem da Folha de S.Paulo informou que um depoimento dado à Polícia Federal e uma planilha apreendida em uma gráfica seriam indícios de que dinheiro do esquema de candidatas-laranja do PSL em Minas Gerais teria sido desviado para abastecer as campanhas do presidente Jair Bolsonaro e do ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio.

Haissander Souza de Paula, ex-assessor parlamentar de Álvaro Antônio, disse à PF, segundo o jornal paulista, que “acha que parte dos valores depositados para as campanhas femininas, na verdade, foi usada para pagar material de campanha de Marcelo Álvaro Antônio e de Jair Bolsonaro”.

A reportagem informa que, em uma planilha apreendida numa gráfica, haveria referência ao fornecimento de material eleitoral para a campanha de Bolsonaro com a expressão “out”, o que significaria, na avaliação de investigadores ouvidos pelo jornal, pagamento “por fora”.

Em suas redes sociais, Fabio Wajngarten afirmou que “parte da mídia ecoa fake news, ecoa manchetes escandalosas, perdeu o respeito, a credibilidade, a ética jornalística”. Ele sugeriu que empresas repensem em quais veículos anunciam suas marcas. “(...) Que os anunciantes que fazem a mídia técnica tenham consciência de analisar cada um dos veículos de comunicação para não se associarem a eles preservando suas marcas”, escreveu o secretário de Comunicação Social do governo federal.

O presidente Jair Bolsonaro também fez críticas públicas à imprensa em suas redes sociais, dizendo que a Folha “avançou a todos os limites, transformou-se num panfleto ordinário às causas dos canalhas”. Ele fez referência às empresas que são anunciantes do jornal: “O que mais me surpreende são os patrocinadores que anunciam nesse jornaleco”, disse.

Entidades repudiam ataques

A Associação Nacional de Editores de Revistas (ANER) e a Associação Nacional de Jornais (ANJ) condenaram as declarações do secretário de Comunicação. Em nota, as entidades repudiaram a conclamação feita pelo secretário para que “anunciantes que fazem mídia técnica tenham consciência de analisar cada veículo de comunicação para não se associarem a eles”. 

A ANJ e a ANER lamentaram a “visão distorcida” do secretário. “O que é preocupante vindo de quem tem a responsabilidade de gerir recursos públicos de publicidade.”

Também em nota, o presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), Daniel Bramatti, disse que "a gravíssima manifestação do funcionário do governo Bolsonaro se insere em um contexto de sistemáticos ataques ao jornalismo vindos do presidente e de seus aliados". Segundo o jornalista, eles "procuram suprimir ou desacreditar qualquer voz que se contraponha ou concorra com as narrativas oficialistas".

"Em uma democracia, é inaceitável que um representante do governo convoque anunciantes a boicotar veículos por insatisfação com o que publicam. Essa demonstração de descaso em relação aos princípios da impessoalidade e da liberdade de expressão (consagrados em nossa Constituição, por sinal) é típica de quem opta por seguir o roteiro da promoção do autoritarismo em vez do respeito à democracia", acrescentou Bramatti.

Leia mais em:

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/10/chefe-da-secom-sugere-boicote-publicitario-apos-reportagem-da-folha.shtml

https://oglobo.globo.com/brasil/entidades-condenam-ataque-de-secretario-midia-24000940