Bolsonaro exclui Folha de S.Paulo de licitação e diz que boicota anunciantes do jornal; entidades criticam decisão

Bolsonaro exclui Folha de S.Paulo de licitação e diz que boicota anunciantes do jornal; entidades criticam decisão

O presidente Jair Bolsonaro excluiu o jornal Folha de S.Paulo de edital publicado na quinta-feira (28) para renovar as assinaturas de jornais e revistas da administração federal, depois de ter ameaçado cortar a assinatura do diário paulista no fim do mês passado. Entidades de defesa ao jornalismo e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) condenaram a decisão ainda ontem. Nesta sexta-feira (29) de manhã, o presidente disse que boicota produtos de empresas que anunciam no jornal e recomendou que a população deixe de comprar a Folha de S.Paulo.   

"Qualquer anúncio que faz na Folha de S.Paulo eu não compro aquele produto e ponto final. Eu quero imprensa livre, independente, mas, acima de tudo, que fale a verdade. Estou pedindo muito?", disse, em entrevista na porta do Palácio do Alvorada, informou o repórter Gustavo Uribe, do jornal paulista.

"Eu não quero ler a Folha mais. E ponto final. E nenhum ministro meu. Recomendo a todo Brasil aqui que não compre o jornal Folha de S.Paulo. Até eles aprenderem que tem uma passagem bíblica, a João 8:32. A imprensa tem a obrigação de publicar a verdade. Só isso. E os anunciantes que anunciam na Folha também", afirmou  o presidente.

Ainda na quinta-feira, o presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Marcelo Rech, criticou a decisão de Bolsonaro. “É muito preocupante que o presidente da República deixe de lado a impessoalidade exigida para o cargo para retaliar um veículo de comunicação. As compras e licitações da Presidência da República deveriam se caracterizar pelo distanciamento de gostos pessoais ou particulares. Em última análise, quem perde é serviço federal e os cidadãos”, disse Rech.

O edital publicado na quinta-feira no Diário Oficial da União prevê um gasto de R$ 194.393,64 para acesso on-line de jornais e revistas em contratação de um ano, prorrogável por mais cinco, de uma empresa especializada em oferecer a assinatura dos veículos à Presidência. A lista cita 24 jornais e 10 revistas. Entre os periódicos  nacionais e regionais estão os jornais O GLOBO, "Valor Econômico", "O Estado de S. Paulo" e os internacionais "The New York Times" e "The Wall Street Journal", além das revistas Época, "Veja", "Time" e "The Economist".  O pregão eletrônico, marcado para 10 de dezembro, tem um valor total estimado de R$ 194 mil: R$ 131 mil para jornais e R$ 63 mil para revistas.

“Vingança com dinheiro público”

Daniel Bramatti, presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), viu no ato um ataque à imprensa inteira. "O presidente está usando a máquina do governo para retaliar um órgão de imprensa por publicar algo que o incomodou", disse. "É uma vingança pessoal feita com o dinheiro dos contribuintes. Essa atitude não se enquadra na normalidade democrática, e deve ser denunciada como um ataque ao jornalismo."

"A cada dia Bolsonaro dá novas demonstrações de que não convive com liberdade de expressão. Este foi apenas mais um episódio", afirmou Cid Benjamin, vice-presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). "A atitude é arbitrária, é uma atitude de censura, que se opõe à liberdade de imprensa. Infelizmente, é uma atitude autoritária como as muitas que caracterizam o atual o governo", disse o vice-presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, Paulo Zocch

“A exclusão de um veículo da importância da Folha mostra o incômodo com a divergência, com a crítica e com o exercício da liberdade de expressão. É um passo perigoso em direção a um cerceamento maior. A sociedade civil não pode tratar com naturalidade o flerte com a censura e com o autoritarismo”, destacou Pierpaolo Cruz Bottini, coordenador do Observatório de Liberdade de Imprensa da OAB.

Advogada da Folha de S.Paulo, Taís Gasparian afirmou que a decisão do presidente agride toda a imprensa brasileira. "O governo federal age contra os princípios da moralidade e impessoalidade que devem nortear a administração pública”, disse.

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https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/11/bolsonaro-cumpre-ameaca-e-exclui-folha-de-licitacao-da-presidencia-para-assinatura-de-jornais.shtml

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/11/bolsonaro-amplia-ameaca-a-folha-e-diz-que-boicota-produtos-de-anunciantes-do-jornal.shtml

https://oglobo.globo.com/brasil/bolsonaro-exclui-folha-de-paulo-de-licitacao-de-periodicos-para-governo-federal-24107237

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/11/entidades-criticam-exclusao-da-folha-de-licitacao-da-presidencia-para-assinatura-de-jornais.shtml