Mariana Caetano, organizadora do livro “Pós-verdade e fake news — Reflexões sobre a guerra de narrativas” Mariana Caetano, organizadora do livro “Pós-verdade e fake news — Reflexões sobre a guerra de narrativas” / Reprodução / O Globo

O maior perigo da desinformação não é a farsa, mas o interesse em reforçar convicções, alerta jornalista

O que imprime mais perigo à desinformação digital não é a farsa exposta no conteúdo (que pode ser boato, mentira ou distorção etc.), mas o fato de as pessoas compartilharem a fraude porque dessa forma reforçam suas visões e as das bolhas ideológicas em que vivem nas redes sociais. A opinião é da jornalista Mariana Barbosa, organizadora do livro “Pós-verdade e fake news — Reflexões sobre a guerra de narrativas” (Ed. Cobogó), que reúne oito textos e duas entrevistas.


Mariana, que atuou em algumas das principais organizações de notícias do país, como Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo, afirma em entrevista ao jornal O Globo que o mau uso da tecnologia contribui para propagar a desinformação. Mesmo assim, o que torna viral uma mentira é a intenção das pessoas de fazer com que suas versões sejam aceitas como verdadeiras.

É caso dos vídeos e outros conteúdos manipulados com aprendizado de máquina, em técnica conhecida como deepfake. Para Mariana, esse tipo de desinformação vai infestar ainda mais a internet, uma vez que a tecnologia é acessível e barata.

A jornalista destaca que a desinformação é sempre construída de forma a apelar para a emoção. “O desmentido jamais vai ter esse alcance por ser frio. Por isso, as agências de checagem precisam existir, e as plataformas digitais devem ajudar na disseminação de seu conteúdo”, adverte.

Campanha para desacreditar o jornalismo

Mariana chama a atenção para outra faceta da desinformação, que vai além da difusão de imprecisões e informações falsas. Trata-se, segundo ela, do ataque direto à imprensa por parte daqueles que mais propagam a desinformação – inclusive muitos governos –, com o objetivo de desacreditar a informação verídica e construir uma narrativa sem crítica, sem pluralismo.

“A disseminação de mentiras tem colocado à prova a própria noção de verdade e revela uma inquietante perda de confiança em instituições que outrora eram portadoras da verdade: a imprensa, a ciência e as elites intelectuais em geral”, escreve Mariana, no texto de apresentação do livro.

A jornalista, entretanto, é otimista em relação ao combate à desinformação. “É preciso entender a regra do jogo – e não ficar em estado de negação. Entender como funciona um viral não significa que você tenha de ser um teórico da conspiração ou um terrível mentiroso. O melhor contra-ataque é dominar as ferramentas e fazer a verdade viralizar”, diz ela em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo.

Ainda na apresentação do livro, Mariana diz que o objetivo da obra é ajudar a compreender o fenômeno da pós-verdade “em suas dimensões política, tecnológica, filosófica, jurídica e jornalística é a proposta deste livro”. Os textos “são um convite a uma reflexão mais detida e, também, uma tentativa de apontar caminhos para uma atuação mais consciente nas redes”.

O artigo que abre a coletânea, A ponta de um iceberg de desconfiança, é assinado por Fernanda Bruno, doutora em Comunicação pela UFRJ, e Tatiana Roque, filósofa e matemática. Francisco Brito Cruz, doutor em Sociologia do Direito pela USP e diretor do InternetLab, assina o ensaio Fake news definem uma eleição?, no qual analisa a campanha do agora presidente Jair Bolsonaro sob a ótica da intermediação de conteúdo, que, em tese, seria transformada com uma “dieta de mídia cada vez mais digital”.

 O jornalista Eugênio Bucci deixa explícito já no título do artigo seu objeto de análise: News não são fake – e fake news não são news. O autor discorre sobre o uso das fake news, que imitam a forma do jornalismo e, ironicamente, são usadas por governantes mundo afora – de Donald Trump e Viktor Orbán a Jair Bolsonaro – como ferramenta para manchar a credibilidade do próprio jornalismo.

A dimensão tecnológica das fake news é o cerne do artigo de Dora Kaufman, A inteligência artificial mediando a comunicação. A economista e escritora lista tecnologias usadas por meios de comunicação para dissecar o fenômeno da automação da comunicação e, também, discorre sobre a história e o avanço dos algoritmos e da inteligência artificial no âmbito da comunicação.

No artigo Desconstruindo as fake news: o trabalho das agências de fact checking, o jornalista Gilberto Scofield Jr. mira no trabalho de seus pares que travam uma batalha para desmentir as fake news.  Sob a perspectiva de educador, Alexandre Sayad trata da importância de formar usuários de internet que naveguem de forma consciente. Em Idade Mídia: uma Idade Média às avessas, ele apresenta exemplos de educação midiática que entende como “parte intrínseca do pensamento crítico e um elemento fundamental na atualização do currículo escolar para fazer frente aos desafios do zeitgeist e da aprendizagem dos alunos”.

Como procurador do Ministério Público de São Paulo, Ronaldo Porto Macedo Jr. assina Liberdade de expressão ou dever de falar a verdade?, texto voltado para a dimensão jurídica da era da pós-verdade e das fake news. O economista e filósofo Joel Pinheiro assina Fake news e o futuro da nossa civilização. Depois de traçar um breve arco histórico da era da informação – que, para ele, “pode com igual justiça ser chamada de era das fake news” –, ele se dedica a apontar caminhos futuros.

O livro apresenta, por fim, duas entrevistas exclusivas, conduzidas pela organizadora Mariana Barbosa: a primeira, com o americano Peter Warren Singer, especialista em Defesa; a segunda, com a jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo.

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https://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,pessoas-repassam-fake-news-nao-pela-veracidade-mas-porque-reforcam-suas-conviccoes,70003084333

https://oglobo.globo.com/ela/gente/o-que-fake-news-livro-reune-entrevistas-artigos-sobre-assunto-24108361