Medida do Facebook contra deepfakes é inócua no combate a vídeos falsos que prometem tumultuar eleições em 2020, dizem especialistas Reprodução

Medida do Facebook contra deepfakes é inócua no combate a vídeos falsos que prometem tumultuar eleições em 2020, dizem especialistas

Anunciada nesta semana, a nova política do Facebook para vídeos falsos produzidos com ajuda de inteligência artificial é um passo importante para o combate à desinformação on-line, mas não tem eficácia em relação ao problema dos conteúdos inverídicos que são esperados para as eleições de 2020 nos países democráticos, entre eles os Estados Unidos e o Brasil. Essa é a conclusão de especialistas consultados pela revista Wired.  

"A proibição de deepfakes impulsionados pela IA é um passo na direção certa, mas é decepcionante que a nova política do Facebook aparentemente não resulte na remoção de vídeos comprovadamente falsos e manipulados com meios menos avançados", sintetizou Paul Barrett, vice-diretor do Centro de Negócios e Direitos Humanos da New York University e especialista em desinformação política.

O exemplo mais gritante, afirmou Barret, é o do vídeo montado para desqualificar a presidente da Câmara dos Estados Unidos, a democrata Nancy Pelosi, propagado e visto por milhões de pessoas nas redes sociais antes de ser marcado como falso. Segundo o Facebook, conteúdos com o mesmo tipo de manipulação vista no vídeo da parlamentar democrata estão sujeitos ao programa de verificação de fatos de terceiros e que, quando um vídeo é sinalizado como falso ou enganoso, os usuários devem clicar em um aviso de destaque antes de visualizá-lo ou compartilhá-lo. Mas o Facebook não derrubará a postagem.

Monika Bickert, vice-presidente de gerenciamento de políticas globais do Facebook, anunciou que os deepfakes se juntarão à nudez, ao discurso de ódio e à violência gráfica na lista de categorias de conteúdo proibido da rede social. “É notável que o Facebook esteja assumindo uma posição forte em deepfakes antes que a tecnologia se torne sofisticada o suficiente para criar vídeos falsos verdadeiramente convincentes de pessoas reais – um cenário potencialmente apocalíptico para a capacidade da humanidade de dizer a verdade da falsidade”, escreve o jornalista Gilad Edelman, da Wired. “Mas há outra maneira de analisar a nova política, que é o fato de não fazer muito para abordar os tipos de vídeos enganosos que já são muito mais comuns na plataforma”, completa.

Edelman destaca que, para ser barrado pelo Facebook, um deepfake precisa atender a dois critérios: manipulado de forma não aparente para uma pessoa comum e ser produto da inteligência artificial ou do aprendizado de máquina. “O que isso deixa de fora, é claro, são os chamados falsos vídeos 'superficiais' ou 'baratos', tipo de conteúdo seletivamente editado ou fora do contexto que os humanos já são hábeis em criar e espalhar”, diz o jornalista. A nova política, continua Edelman, isenta paródia e sátira, “o que parece exigir precisamente o tipo de julgamento interpretativo que a empresa abjura a ponto de terceirizar a verificação de fatos a terceiros”.

Além da conveniência, existe certa lógica em banir os deepfakes e, ao mesmo tempo, deixar os conteúdos mais amadores para a verificação de fatos. Há lógica nesse procedimento, diz Renée DiResta, pesquisadora de desinformação, mas ele não ataca o problema de os conteúdos enganosos ou falsos se tornarem virais muito antes de serem desmascarados. "Uma das principais reclamações é essa lentidão; a maioria das pessoas não vê a verificação de fatos”, afirma. Para ela, nos períodos eleitorais, há um agravante: em ambiente polarizado, as organizações de verificação de fatos serão acusadas de serem partidárias.

"Acho que é uma boa política", disse Sam Gregory, diretor da organização sem fins lucrativos WITNESS que palestrou no Brasil em 2019 a convite da Associação Nacional de Jornais (ANJ).  “É realmente importante que as plataformas declarem claramente como vão lidar com os deepfakes antes que se tornem um problema generalizado”, afirmou. Ele, porém, enfatizou que a iniciativa não se aplica à maioria da desinformação visual existente.  Lidar com esse tipo de desinformação, afirmou Gregory, é mais complicado e exigirá políticas e ferramentas melhores, como pesquisas reversas em vídeo, para ajudar usuários e jornalistas a desmascarar fraudes mais rapidamente.

Receio de favorecimento a Trump

Em relação às eleições dos Estados Unidos, o Facebook também é motivo de preocupação por se recusar veementemente a checar a veracidade dos conteúdos de anúncios políticos, enquanto seu CEO, Mark Zuckerberg, organiza jantares a conservadores, lembra a revista Vanity Fair. Essa prática, diz a publicação, alimenta o receio de que o Facebook possa ser usado para favorecer a candidatura do presidente Donald Trump à reeleição.

Esse temor ganhou novas proporções na terça-feira (07) desta semana, quando o jornal The New York Times revelou um memorando assinado pelo executivo Andrew Bosworth, que circulou internamente no ano passado entre os funcionários do Facebook. No texto, ele avalia que as regras do Facebook teriam contribuído para a eleição do presidente em 2016, e isso poderia ocorrer novamente em 2020, já que a empresa mantém a política de não fiscalizar anúncios políticos na plataforma.

“Sim, provavelmente ajudamos a eleger Trump em 2016. E não faremos nada para impedir que ele seja eleito novamente”, afirma Bosworth, responsável pelos esforços de publicidade durante as eleições de 2016 e agora chefe da divisão de realidade aumentada da rede social. O atual presidente norte-americano, sustenta o executivo, "não foi eleito graças à Rússia, à desinformação ou à Cambridge Analytica", mas sim "porque teve a melhor campanha de publicidade digital até então já vista".

Leia mais:

https://www.wired.com/story/facebook-deepfake-ban-disinformation/

https://www.vanityfair.com/news/2020/01/facebook-memo-trump-2020-andrew-bosworth?utm_source=nl&utm_brand=vf&utm_mailing=VF_Hive_010820&utm_medium=email&bxid=5c491dc824c17c4434828b5b&cndid=54459106&hasha=00dd845cfa2ee8cb8c94d2533735cacf&hashb=eff866713058104244439145a100fb8e36a66d5e&hashc=ef0c80fa8b5dbbd2c29280bb1385273ecc9c3b693fc3131edc9f5ee976a6de74&esrc=signUpModal&utm_campaign=VF_Hive_010820&utm_term=VYF_Hive