O senador republicano Mitch McConnell passou a assinar como coautor um projeto tramitando no Senado dos EUA O senador republicano Mitch McConnell passou a assinar como coautor um projeto tramitando no Senado dos EUA / Reprodução-Axios

Legisladores e governos dão sinais de que estão mais propensos a defender o jornalismo independente

Legisladores e governantes de diferentes países começam, aos poucos, a mostrar maior preocupação em contribuir na tarefa de impedir que o jornalismo independente desapareça diante da disrupção digital da última década. Neste começo de 2020, a notícia de maior peso nesse sentido vem dos Estados Unidos: o líder republicano, senador Mitch McConnell, passou a assinar como coautor um projeto tramitando no Senado, onde o partido do presidente Donald Trump tem maioria, que garante uma espécie de “porto seguro” temporário aos publishers. O texto prevê isenção antimonopólio de quatro anos aos produtores de conteúdo enquanto negociam de forma coletiva com empresas digitais sobre como repartir a monetização do jornalismo distribuído por elas e, ainda, as receitas com publicidade digital – hoje, cerca de 60% desses investimentos nos Estados Unidos ficam nos cofres de Google e Facebook.

O movimento do parlamentar consolida a lógica bipartidária da proposta legislativa, formalmente chamado de Lei de Competição e Preservação de Jornalismo, que foi apresentada pela primeira vez na Câmara norte-americana pelo deputado democrata David N. Cicilline em 2018. Na época, o projeto dava sequência a um pedido da News Media Alliance (NMA), que representa mais de 2 mil de organizações de notícias nos Estados Unidos e do Canadá, encaminhado ao Congresso em 2017. O projeto foi reintroduzido em abril de 2019, depois que os democratas retomaram a maioria na Câmara e, desde então, recebe mais apoio.

"Os integrantes do Congresso estão percebendo a urgência e a importância dessa questão, especialmente para os editores de notícias locais", disse David Chavern, presidente e CEO da News Media Alliance, em comunicado sobre o apoio de McConnell. A jornalista especializada em mídia Sara Fischer, do site Axios, destaca que a movimentação dos parlamentares está associada à pressão que enfrentam em suas bases, onde organizações de mídia local estão morrendo de forma muito rápida. Para ela, entretanto, é improvável que o poder de negociação coletiva faça muito para ajudar as empresas de notícias em dificuldades a serem pagas adequadamente por seu trabalho na internet, “pois as empresas de tecnologia têm uma longa história de luta contra esse tipo de esforço de negociação”.

A decisão de McConnell, diz a jornalista do Axios, faz parte de uma tendência maior dentro de um governo controlado pelos republicanos em Washington de desregular as indústrias como a do jornalismo para que possam competir melhor com as empresas de tecnologia, em vez de adicionar regulação a Google e Facebook, entre outros. “O que a aprovação desta lei realmente faria é enviar uma mensagem aos gigantes da internet de que os formuladores de políticas estão procurando maneiras de igualar o campo de atuação entre as companhias digitais e as de notícias”.

Portugal

Outra notícia vem da Europa. Segundo Catarina Carvalho, editora-chefe do jornal Diário de Notícias, o governo de Portugal mostrou de forma clara, no fim de 2019, que está preocupado e empenhado em ajudar os publishers. Em uma conferência de mídia realizada em Cascais, o secretário da Cultura do governo socialista, Nuno Artur Silva, disse que está considerando o apoio estatal ao jornalismo. No encontro, relata Catarina, ele concluiu que, se nada bom acontece no jornalismo português, a liberdade de escolha e o acesso à informação podem estar em risco.

A indústria noticiosa de Portugal está em crise e são necessárias ações urgentes, destaca a jornalista do Diário de Notícias. “Os grupos de mídia podem viver com alguns resultados anuais aparentemente bons, mas os lucros ocultam enormes dívidas e a redução nas vendas de impresso e de público (inclusive a TV)”, diz. Além disso, continua Catarina, o nível relativamente baixo de alfabetização da população de 10 milhões de habitantes explica a pouca vontade da maioria em assinar qualquer tipo de serviço de notícias.

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https://www.axios.com/mcconnell-congress-local-news-bill-7c64a684-16b1-4074-aa69-40534104b673.html

https://blog.wan-ifra.org/2020/01/09/future-of-news-2020-portugal-time-to-act-is-now