Com apenas duas perguntas, pesquisa do Facebook para classificar confiança da mídia é tendenciosa, dizem analistas

Com apenas duas perguntas, pesquisa do Facebook para classificar confiança da mídia é tendenciosa, dizem analistas

O Facebook decidiu limitar a visibilidade orgânica (não paga) das postagens das organizações produtoras de conteúdo no feed de notícias e entregou a decisão de quem vai aparecer mais aos seus usuários, que na prática são aqueles que compartilham notícias falsas e postagens de ódio. A medida foi mal recebida pelos publishers. A desconfiança passou a níveis de grande preocupação na última terça-feira, logo depois de o repórter Alex Kantrowitz, do BuzzFeed, revelar como é o questionário que a empresa de Mark Zuckerberg está aplicando às pessoas para embasar o ranking de credibilidade. Com apenas duas perguntas, a pesquisa é simples demais e tem tudo para se revelar tendenciosa, dizem jornalistas e analistas.

Kantrowitz mostrou que as duas questões da enquete oferecem opções de respostas objetivas: “Você reconhece os seguintes sites? (Sim ou Não)” e “Quanto você confia em cada um desses domínios? (Totalmente, Muito, Pouco, Muito pouco, Nem um pouco)”. Não faltaram crítica diante de tanta simplicidade. As pessoas poderiam utilizar a pesquisa como um jogo qualquer, ironizou Hannah Kuchler, do Financial Times. "Eu preenchi pesquisas mais robustas em restaurantes de fast-food", afirmou Rani Molla, do Recode. Isso é como uma pesquisa de "recall" de marca, postou Sarah Frier, da Bloomberg, no Twitter.

As críticas, relatou Casey Newton, do site The Verge, estão associadas ao fato de que os resultados de uma pesquisa como essa têm tudo para ser imprecisos, levando a uma classificação errada de publishers, favorecendo sites mais partidários e agravando os efeitos negativos do Facebook à imprensa e à democracia.

Os jornalistas Scott Clement and Callum Borchers, do The Washington Post, lembraram que o Facebook não deu detalhes de como priorizará as publicações, a partir do ranking produzido pelas respostas às questões e da análise dos dados que possui de cada produtor de conteúdo. Mas destacaram a lógica referida por Zuckerberg na semana passada para justificar o novo modelo: algumas organizações de notícias são confiáveis apenas para seus leitores, enquanto outras são amplamente confiáveis na sociedade.

Orientação política

Seguindo esse conceito, além de contar com a opinião de quem reconhece enfrentar enorme dificuldade para diferenciar a verdade da mentira (leia aqui o que diz recente pesquisa da Edelman Intelligence), é provável que o Facebook acabe diante de resultados contaminados pelos interesses políticos dos usuários. “Os julgamentos de confiabilidade dos norte-americanos parecem se basear não apenas em saber se as organizações de notícias informam com precisão e justiça, mas também se os relatos se alinham com as opiniões políticas da audiência”, escreveram Clement e Borchers.

Os jornalistas corroboraram essa percepção citando estudo do Pew Research Center de 2014 que perguntou a 2.901 norte-americanos se eles tinham ouvido falar de 36 organizações de notícias e, em caso afirmativo, dissessem o quanto confiavam ou desconfiavam de cada um deles. Apenas o The Wall Street Journal apareceu como mais confiável em um espectro político de cinco grupos, de “consistentemente liberal" a "consistentemente conservador".

Ao analisar o questionário do Facebook. Adam Rogers, da Wired, reforça a preocupação com a orientação política das pessoas na escolha de suas fontes de notícias. Outro estudo do Pew Research Center, de maio de 2017, disse o jornalista, revelou que 89% das pessoas que se identificaram com os democratas disseram que o papel de vigilância dos meios de comunicação impede que políticos cometam irregularidades. Entre os republicanos, o índice foi de 42%. “Nós escolhemos uma fonte de notícias porque reforça nossas crenças pré-existentes", afirmou Mike Kearney, professor de jornalismo que liderou estudo semelhante ao do Pew Research Center, citado pelo jornalista da Wired.

"O que é confiança ou confiabilidade de uma fonte?”, perguntou Kearney. “Não temos uma definição universal, embora entendamos o conceito subjacente. Mas para a maioria de nós é expresso de uma forma que reafirma nossa visão de mundo”, responde ele. Rogers, da Wired, diz que esse é um problema fundamental na avaliação do trabalho jornalístico. “Ao contrário das instituições mais confiáveis, o jornalismo não deve reafirmar as visões do mundo. Pelo contrário, na verdade. Os jornalistas devem se comportar de acordo com padrões éticos específicos, mas esses padrões podem parecer incompatíveis com as normas sociais -- dizer os segredos de outras pessoas, por exemplo, ou parecer impertinentes para pessoas poderosas”, ressalta.

Rogers diz ainda que as pessoas tendem a confiar mais nas coisas que são familiares a elas. Eles desconfiarão de um especialista, mas acreditarão em um amigo ou amado. "Muitas pessoas têm uma visão muito local do que confiam", afirma Roderick Kramer, professor de comportamento organizacional em Stanford. "Sua igreja local, instituições locais, jornal local, seus amigos."

Incertezas

Casey Newton, do site The Verge, reforçou o fato de que, até o momento, ninguém sabe a importância do ranking a partir da pesquisa na escolha final do Facebook de como vai distribuir conteúdo. O jornalista reproduziu o que o chefe do feed de notícias do Facebook, Adam Mosseri, disse na semana passada sobre a metodologia da empresa: "Examinamos uma amostra diversificada e representativa de pessoas que usam o Facebook em todo os EUA para avaliar sua familiaridade e confiança em várias fontes diferentes de notícias. Estes dados ajudarão a informar o ranking no News Feed."

Mosseri, conforme Newton, mencionou dois outros sinais que a empresa planeja "priorizar": se o conteúdo é considerado "informativo" e se o conteúdo é relevante localmente. Na terça-feira (23), o executivo fez a seguinte postagem no Twitter, sobre o peso dos dados que a empresa detém para a definição de quais informações terão mais destaque: "A forma como incorporamos os dados da pesquisa é tão importante quanto as questões específicas que pedimos". Newton perguntou a ele se poderia dizer mais. "A confiança é um entre muitos sinais", respondeu Mosseri, "mas apenas se aplica a publishers sobre os quais temos dados suficientes, por isso não afeta a maioria dos editores".

Newton disse que essa cobertura deve se expandir ao longo do tempo, mas ressaltou que o índice de confiança é claramente um de muitos sinais sobre os quais o Facebook guarda segredo. O jornalista afirmou acreditar que, como resultado, haverá alguns poucos vencedores, com a maioria repetindo o que se viu desde outubro 2017: a queda no tráfego de leitores vindos da rede social norte-americana.

Viés da audiência

Em uma resposta a outro usuário no Twitter, Adam Mosseri defendeu a pesquisa, relatou Ren Laforme, do site Poynter. "Eu entendo que algumas pessoas possam relutar diante do quanto é simples a pesquisa, mas pesquisas complicadas podem ser confusas”, disse o executivo, acrescentando que essas complexidades podem resultar em padrões de parcialidade. Steven S. Smith, professor de ciência política e diretor do Weidenbaum Center da Washington University, em St. Louis, disse que a estratégia do Facebook não é tão ruim e segue um padrão verificado em várias pesquisas, mas nem por isso será eficaz.

Longos conjuntos de perguntas, destacou Smith, ganham menos respostas. Executar pesquisas mais curtas em áreas mais amplas de pessoas diversas é uma maneira válida de ganhar mais respostas. “Supondo que os usuários vejam uma seleção aleatória de organizações de notícias, é uma ótima maneira de fazer as coisas”, afirmou.

Smith, entretanto, alertou que, mesmo com métodos sólidos, a pesquisa pode ser falha, a começar pela polarização política do público. Além disso, assinalou o professor, permitir que a audiência determine a credibilidade sem exercer qualquer julgamento "é um padrão questionável". Na prática exemplificou, é como passar aos usuários o trabalho de uma organização de fact-checking. Ao contrário dos verificadores profissionais, a audiência agirá de acordo com o seus preconceitos.

“Essencialmente, o público vai estar familiarizado com fontes de notícias que já usa", afirmou Smith. Se não estiver familiarizado com uma fonte, salientou o professor, não a avaliará. Se estiver familiarizado com uma que não combina com sua crença, provavelmente avaliará como algo não confiável, assinalou "As respostas vão representar o viés da audiência mais do que qualquer padrão razoável de confiabilidade", avaliou Smith.

Leia mais em:

https://www.theverge.com/2018/1/23/16925898/facebook-trust-survey-news-feed-media

https://www.washingtonpost.com/news/the-fix/wp/2018/01/24/facebook-plans-to-crowdsource-media-credibility-this-chart-shows-why-that-will-be-so-difficult/?utm_campaign=Newsletters&utm_medium=email&utm_source=sendgrid&utm_term=.d87c9dfa29a8

HTTPS://WWW.WIRED.COM/STORY/YOU-CANT-TRUST-FACEBOOKS-SEARCH-FOR-TRUSTED-NEWS/

http://www.niemanlab.org/2018/01/facebooks-trust-survey-which-will-help-determine-news-feed-ranking-is-two-questions-but-its-not-as-simple-as-it-sounds/

HTTPS://WWW.POYNTER.ORG/NEWS/FACEBOOKS-TWO-QUESTION-TRUSTWORTHINESS-SURVEY-SOUND-RESULTS-WILL-STILL-BE-BIASED?UTM_SOURCE=PEW+RESEARCH+CENTER&UTM_CAMPAIGN=120221AA9D-EMAIL_CAMPAIGN_2018_01_26&UTM_MEDIUM=EMAIL&UTM_TERM=0_3E953B9B70-120221AA9D-399348769

Pandemia e trabalho recomendações do MPT