Cresce a confiança dos alemães na imprensa, em contrapartida a discursos de ódio e notícias falsas

O atual estágio da imprensa da Alemanha e sua relação com as audiências é hoje um dos mais significativos exemplos de como, aos poucos, as pessoas começam a perceber os perigos das notícias falsas e da propagação de discursos e práticas de ódio, bem como o papel de mediador exercido somente pelo jornalismo para estabelecer a verdade e o debate pluralista. Esse movimento ganha ainda mais importância em um ano de eleições no país, em que há grande temor da repetição dos fenômenos das mentiras propagadas nas redes sociais verificadas no Brexit e na disputa eleitoral dos Estados Unidos, no ano passado.

De um lado, os jornalistas alemães enfrentam ódio sem precedentes de grupos de direita agressivos que, muitas vezes, resultam em ataques verbais e físicos aos comunicadores que fazem as coberturas de protestos. Um quarto dos alemães concorda, segundo levantamento recente, com a expressão Lügenpresse (palavra nazista que significa algo como imprensa mentirosa) para descrever a mídia. Em contrapartida, a confiança dos alemães na imprensa nunca foi tão alta.

De acordo com estudo da Universidade de Würzburg elaborado em 2016, 55,7% dos alemães afirmaram confiar na imprensa. Os pesquisadores sugerem, inclusive, que a atmosfera controversa e, às vezes, perigosa que os jornalistas enfrentam ao cobrir protestos de uma direita agressiva podem ter catalisado o crescimento das taxas de confiança no jornalismo.

Estudos anteriores chegaram a uma conclusão semelhante, disse Martin Hoffmann, pesquisador sênior do European Center for Press and Media Freedom. Os levantamentos indicam que as pessoas desiludidas com os meios de comunicação têm opiniões cada vez mais hostis em relação aos jornalistas, mas um número sem precedentes de alemães discorda abertamente dessas opiniões.

Ceticismo em relação à imprensa recua também na direita

Os pesquisadores da Würzburg encontraram ainda indícios de que a ligação entre partidos demagógicos de direita, como o Alternative für Deutschland (AfD), e o ceticismo em relação aos meios de comunicação dá sinais de enfraquecimento. O número de entrevistados na pesquisa que se consideraram direitistas e disseram que confiam na imprensa passou de 33%, em 2015, para 51% em 2016.

Os resultados das pesquisas parecem sustentar a medida do governo alemão que, na semana passada, aprovou a lei que impõe multas de até 50 milhões de euros (mais de R$ 165 milhões) para quem publicar ou propagar conteúdos falsos na internet. A legislação também tipifica como crime outros tipos de postagens online, como discurso de ódio em redes sociais, propaganda terrorista e pornografia infantil.

A proposta ainda precisa passar pelo parlamento alemão antes de ter efeito imediato no país. A cobrança das multas deve recair, principalmente, sobre redes sociais como o Facebook e o Twitter. “Provedores de redes sociais são responsáveis quando suas plataformas são mal utilizadas com o intuito de propagar crimes de ódio e notícias falsas”, disse o ministro da Justiça alemão, Heiko Maas, em comunicado enviado à Bloomberg.

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https://olhardigital.uol.com.br/noticia/alemanha-aprova-multa-de-ate-50-milhoes-de-euros-sobre-noticias-falsas-na-web/67297

https://www.washingtonpost.com/news/worldviews/wp/2017/04/07/germanys-right-wing-attacked-the-media-now-germans-trust-the-press-more-than-ever/?utm_term=.a7598f948fa7