The Economist defende regulação dos gigantes da internet que monopolizam dados, o mais valioso bem mundial

A influente revista britânica especializada em negócios e finanças The Economist defendeu, em sua mais recente reportagem de capa, firme iniciativa dos sistemas mundiais antitruste para regular os ganhos de “colossos corporativos que lidam com dados, esse petróleo da era digital”. A revista, que até então tinha um entendimento diferente, ressaltou que mudou de opinião diante de uma série de importantes mudanças no uso desses dados por parte dos gigantes do setor (nas formatações de inteligência artificial e serviços “cognitivos”, por exemplo) que resultarão em ainda mais ganho a empresas que, atualmente, acumulam riqueza sem precedentes. A The Economist sugeriu até mesmo duas ideias centrais para impedir o fortalecimento da lógica monopolista.

O texto da publicação britânica, republicado no Brasil pelo jornal O Estado de S.Paulo, ressaltou que nada parece ser capaz de deter as gigantes do setor – Alphabet (holding que controla o Google), Amazon, Apple, Facebook e Microsoft. “Em valor de mercado, são as cinco maiores empresas de capital aberto do mundo. Seus lucros estão nas nuvens: juntas, embolsaram mais de US$ 25 bilhões em lucros líquidos no primeiro trimestre de 2017”. A The Economist afirmou não acreditar em medidas como a divisão das gigantes de tecnologia em companhias menores, como se fez com a petrolífera Standard Oil no início do século 20. “O problema tem de ser enfrentado com um novo paradigma”, assinalou a revista, que sugeriu dois caminhos principais para tanto.

O primeiro deles, frisou a revista, é que as autoridades antitruste precisam deixar a era industrial para trás e ingressar definitivamente no século 21. “Ao avaliar uma fusão, por exemplo, o tamanho das empresas envolvidas no negócio costumava ser o fator que determinava sua intervenção. Agora, para se determinar o impacto de um negócio é preciso levar em consideração a extensão dos ativos de dados controlados pelas empresas que pretendem se fundir”, afirmou a publicação, segundo a qual o preço de aquisição pode servir como indício de que uma empresa estabelecida está abocanhando uma ameaça nascente. “Se esses critérios estivessem em vigor, o fato de o Facebook ter se disposto a pagar valor tão elevado pelo WhatsApp, que nem receitas gerava, teria acionado o alerta vermelho”, exemplificou o texto.

Ao mesmo tempo, disse a The Economist, as frentes antitruste também devem recorrer a um sofisticado uso de dados, da mesma forma como fazem as grandes companhias. “Os caçadores de monopólios”, salientou a reportagem, “precisam analisar a dinâmica de mercado, passando a realizar, por exemplo, simulações para identificar algoritmos que contribuem para a prática de preços abusivos, ou para encontrar a melhor forma de estimular a concorrência”.

A segunda trilha defendida pela The Economist passa pela retirada de parte do controle que os provedores de serviços online têm sobre os dados que coletam e transferi-lo para os usuários que os fornecem. Com isso, haveria mais transparência e as empresas poderiam ser obrigadas a revelar aos consumidores as informações de que dispõem a seu respeito e o valor das receitas obtêm com elas.

“O surgimento de novos serviços seria incentivado se os governos ampliassem o acesso a seus bancos de dados ou passassem a gerir como infraestrutura pública certos segmentos fundamentais da economia dos dados, como faz a Índia com o Aadhaar, seu sistema de identidade digital”, disse a The Economist. As autoridades, frisou a publicação britânica, também poderiam tornar obrigatório o compartilhamento, com o consentimento do usuário, de certos tipos de dados, como a Europa faz com suas instituições bancárias.

A publicação admitiu que reformular os paradigmas das autoridades antitruste e adequá-los à era da informação não é tarefa fácil e implicará novos riscos: ampliar o compartilhamento de dados pode ameaçar a privacidade, por exemplo. “Mas, se não quiserem que a economia dos dados seja dominada por alguns poucos titãs, as autoridades governamentais precisam entrar rapidamente em ação”, advertiu a revista.

http://www.economist.com/news/leaders/21721656-data-economy-demands-new-approach-antitrust-rules-worlds-most-valuable-resource


https://www.economist.com/news/briefing/21721634-how-it-shaping-up-data-giving-rise-new-economy


http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,uma-regulacao-para-as-gigantes-da-internet,70001765621

http://www.economist.com/news/finance-and-economics/21721648-trustbusters-might-have-fight-algorithms-algorithms-price-bots-can-collude