Com mais violência e repressão nos países democráticos, liberdade de imprensa nunca esteve tão ameaçada, diz RSF

A liberdade de imprensa e o direito à informação pública nunca estiveram tão ameaçados, não mais apenas nos regimes autoritários e ditaduras, mas também em países democráticos. Este é o principal alerta do Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa 2017, elaborado pela organização Repórteres sem Fronteiras (RSF). O documento revela que, em cinco anos, o índice de referência utilizado pela RSF sofreu 14% de degradação. Este ano, cerca de dois terços (62,2%) dos países listados registraram um agravamento de sua situação no último, destaca o relatório divulgado nesta quarta-feira (26) em coletiva de imprensa na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no Rio de Janeiro. O Brasil passou da 104ª para a 103ª posição, dentre 180 países.

Os países considerados modelos democráticos não estão excluídos da queda: o Canadá (22º país em 180) perdeu quatro posições no Ranking deste ano, os Estados Unidos (43ª posição) perderam 2, a Polônia (54ª) perdeu 7, a Nova Zelândia (13ª), 8, e a Namíbia (24ª), 7. Segundo a organização, a Europa apresentou a queda mais acentuada do índice em cinco anos (17,5%),  bem superior aos 0,9% registrados pela zona Ásia-Pacífico no mesmo período, apesar de ser o continente mais bem posicionado no ranking, relatou o jornal O Globo. Em 2017, até mesmo os países nórdicos, que costumavam ocupar o topo do Ranking da RSF, perderam posições – três a menos para os Países Baixos; e duas para a Finlândia, que perde pela primeira vez em seis anos sua posição de 1ª colocada e onde o primeiro-ministro interferiu diretamente nos programas da rádio pública Yle para que não abordasse mais um possível conflito de interesses no qual ele estaria envolvido.

Trump alimenta ataques à imprensa no restante do mundo

A RSF advertiu para o que chamou de “caça aos jornalistas” empreendida pelo presidente norte-americano, Donald Trump, e a degradação da liberdade de imprensa na América Latina. Os ataques repetidos de Trump, acusando a imprensa e jornalistas de estarem” entre os seres humanos mais desonestos do mundo” e de voluntariamente propagarem notícias falsas, afirma a RSF, não colocaram fim somente a uma longa tradição americana de luta pela liberdade de expressão, mas contribuem também para alimentar os ataques contra a imprensa ao redor do mundo, inclusive em países democráticos.

“No âmbito mundial, houve uma deterioração geral do índice global, uma espécie de banalização dos ataques à mídia e a volta da propaganda política de repressão. Declarações públicas contra a imprensa, feitas por líderes como Donald Trump e Recep Tayyip Erdogan, são muito graves”, disse ao jornal O Globo Emmanuel Colombié, diretor do Repórteres sem Fronteiras para América Latina. “Estamos muito preocupados com o governo Trump. Ele já qualificou a imprensa muitas vezes de inimiga do povo americano. Muitos jornalistas agora não podem entrar na Casa Branca. Isso é não é digno de uma democracia como nos Estados Unidos” enfatizou.

As democracias que fizeram da liberdade de imprensa um de seus fundamentos, reforçou Colombié, devem permanecer um modelo para o resto do mundo e não o contrário. “De tanto restringir a liberdade fundamental de informar sob pretexto de proteger seus cidadãos, as democracias correm o risco de perder suas almas.”

O relatório, informa o jornal O Globo, acusa os dirigentes que se consideram “antissistema” de terem como “arma preferida desacreditar a imprensa”, usando uma retórica antimídia. Assim como Trump, o ex-chefe do partido anti-imigrante britânico Ukip Nigel Farage usou dessa tática, travando embates com a imprensa, segundo o RSF. Sob pretexto de luta contra o terrorismo, o Reino Unido aprovou no ano passado leis que autorizam a vigilância em massa sem medidas para proteger jornalistas e suas fontes. E o Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia) também teria contribuído para a deterioração do quadro. “A chegada ao poder de Donald Trump, nos Estados Unidos, e a campanha pelo Brexit, no Reino Unido, serviram de trampolins para os discursos antimídia altamente tóxicos, fazendo com que o mundo entre na era da pós-verdade, da desinformação e das notícias falsas”, acrescenta o relatório.

Predadores da liberdade de imprensa

Outro caso que chama atenção é o da Polônia, que continua caindo no ranking, após uma queda de 29 posições em 2016. Segundo a organização, o governo conservador polonês instaurou uma série de reformas controversas que permitiram, sobretudo, submeter a televisão e a rádio estatais ao controle do Executivo e substituir seus dirigentes imediatamente. A Repórteres sem Fronteiras, informa O Globo, alerta ainda para a situação na Turquia, que caiu quatro posições e hoje ocupa o 155º lugar. O país vive um período de tumulto e repressão principalmente após a tentativa de golpe contra o presidente Recep Tayyip Erdogan, tornando-se “a maior prisão do mundo para os profissionais das mídias”.

Devastada por conflitos, a região África do Norte e Oriente Médio é considerada a mais difícil e perigosa para um jornalista exercer sua profissão no mundo. Na 176ª posição, a China está entre os países considerados pela ONG “predadores da liberdade de imprensa”. E a Rússia de Vladimir Putin permanece na base do ranking, no 148º lugar.

Na AL, Brasil está atrás apenas do mortífero México

A América Latina segue um caminho perigoso, salientou a RSF. Com dez jornalistas assassinados no ano passado, o México é o país mais mortífero para profissionais da área nas Américas. O Brasil é o segundo, com três jornalistas mortos em 2016. “Jornalistas [brasileiros] são alvos sistemáticos quando vão cobrir manifestações, tanto por parte de policiais como de manifestantes”, destacou Colombié. No ano passado, 72 casos de agressões a jornalistas durante manifestações foram registrados pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), dos quais a grande maioria perpetrada pela polícia. Nos últimos cinco anos, a RSF registrou 21 casos de assassinatos de jornalistas no Brasil.

Apesar desse quadro de violência, o país segue sem um mecanismo de proteção voltado para os comunicadores em situação de risco, informou a RSF. A proposta de criar um observatório público de violência contra comunicadores, apresentada em 2014, tampouco avançou. Além dos casos de violência, a RSF condenou as pressões de certas instituições e autoridades sobre a imprensa. Dezenas de processos judiciais abusivos – sobretudo por delitos ditos contra a honra (difamação, calúnia e injúria) –  passíveis de penas de prisão, foram movidos contra jornalistas e blogueiros em 2016. A organização salientou ainda que acompanha casos de investigações da justiça que atentam contra o direito ao sigilo da fonte.

Leia mais em:

http://oglobo.globo.com/mundo/liberdade-de-imprensa-nunca-esteve-tao-ameacada-alerta-reporteres-sem-fronteiras-21255529#ixzz4fMKZpGUi

https://rsf.org/pt/o-jornalismo-fragilizado-pela-erosao-da-democracia

https://rsf.org/pt/noticia/o-brasil-amarga-103a-colocacao-no-ranking-mundial-da-liberdade-de-imprensa