Cresce o risco de algoritmos garantirem excesso de poder a empresas e governos, alertam estudiosos

A lista das cinco maiores empresas do mundo por valor de mercado mudou radicalmente nos últimos dez anos. Exxon Mobil, General Electric, Citigroup e Shell Oil deixaram a listagem e em seu lugar estão gigantes de tecnologia digital, como Apple, Alphabet (a empresa-mãe do Google), Amazon, Facebook e Microsoft. Essas empresas, escrevem os professores Virgilio Almeida e Danilo Doneda, em artigo no jornal Valor Econômico desta sexta-feira (12), alcançaram domínio global em seus campos originais – e movem-se para outros mercados – em meio a uma mudança nas várias formas de poder no mundo contemporâneo, conectado e digital, no qual há cada vez mais automatização. Nessa grande transformação, alertam Almeida e Doneda, há a preocupação de que “os algoritmos acabem por colocar um controle excessivo nas mãos de governos, corporações ou quem quer que os controle, com consequências indesejadas para a sociedade”.

Os mecanismos de busca, as redes sociais e os “sites” de varejo, escrevem os dois professores, melhoram à medida que suas bases de usuários crescem e geram mais dados para alimentar seus sofisticados algoritmos. A escala, o alcance e o poder econômico dessas empresas globais, por sua vez, ressaltam Almeida e Doneda, levantam preocupações derivadas das peculiaridades da tecnologia digital e propõem novas questões no cenário internacional. De que forma o poder que exercem é diferente do poder corporativo das empresas tradicionais? Como mapear o poder que emana do domínio da tecnologia? Como organizar as relações dos estados-nações com essas novas entidades globais?

Nas respostas a essas indagações, as tentativas de demarcação de relações de poder, enfatizam Almeida e Doneda, têm de levar em conta os efeitos da transferência do processo de decisão para os mecanismos robóticos, cada vez mais usados no ambiente digital, sem esquecer de quem os controla. “Apesar dos algoritmos realizarem tarefas de forma automatizada e eficiente, não é próprio afirmar que as realizem de forma autônoma – isto é, a sua ação foi concebida e está balizada pelo interesse de quem os colocou em ação e que pode vir obter alguma forma de vantagem – e de poder – sobre seu funcionamento”, advertem. Assim, no entendimento dos dois professores, é essencial não alimentar a “presunção sobre a neutralidade” dos algoritmos, “dado que não operam em um vácuo de poder, porém em espaços nos quais atendem a uma determinada forma de interesse – e talvez a tarefa mais urgente hoje seja retirar a opacidade das estruturas de poder que se utilizam e agem através de algoritmos.”

Almeida é professor associado ao Berkman Klein Center, na Universidade de Harvard, e foi secretário de política de informática no Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação de 2011-2015. Doneda é professor da Escola de Direito da UERJ, doutor em Direito Civil e especialista em privacidade e proteção de dados.

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http://www.valor.com.br/opiniao/4966208/novas-faces-do-poder-no-mundo-digital#