National Geographic reconhece ter sido racista ao longo de décadas

National Geographic reconhece ter sido racista ao longo de décadas

A influente e centenária revista National Geographic reconheceu nesta segunda-feira (12), em editorial, que ao longo de décadas muitos dos artigos publicados em suas edições observavam o mundo sob uma perspectiva racista. A conclusão foi tirada de uma revisão da publicação – que atualmente vende mais de 6 milhões de exemplares ao mês – desde a sua criação, em 1888. “Tínhamos que reconhecer a nossa própria história para superá-la”, disse a editora-chefe da revista, Susan Goldberg, em entrevista à Associated Press sobre a edição de abril, que será sobre raça.

A análise dos arquivos foi feita pelo historiador John Edwin Mason, da Universidade da Virgínia. O especialista identificou que até a década de 1970 a publicação ignorou pessoas negras que viviam nos Estados Unidos. Até 1940, negros eram proibidos até mesmo de se tornarem membros da National Geographic Society. Quando apareciam em artigos, eram retratados apenas como empregados domésticos e trabalhadores braçais. Diferentemente de outras revistas americanas, concluiu Mason, a National Geographic pouco fez para tirar dos seus leitores os estereótipos impregnados na cultura branca americana.

Algumas das narrativas encontradas por Mason são inacreditáveis vistas hoje. Em 1916, por exemplo, uma reportagem sobre a Austrália trazia a foto de dois aborígenes, caracterizados na legenda como os “selvagens no mais baixo ranking de inteligência entre todos os seres humanos”. O especialista pontua não apenas o que foi publicado, mas também o que ficou de fora. Em 1962, a revista publicou uma matéria produzida sobre a África do Sul, dois anos após o massacre de 69 jovens negros pela polícia em Sharpeville. O fato chocou o mundo pela brutalidade, mas, para o artigo, parece não ter acontecido. “A matéria da National Geographic quase não menciona qualquer problema”, avaliou o especialista.

Susan, que se identifica como a primeira mulher e primeira pessoa judaica a ocupar o cargo de editora-chefe da revista, diz ser “dolorido” apontar o dedo para artigos escritos no passado, mas assumir os próprios erros é essencial para construir, com credibilidade uma narrativa sobre raça. A editora ressalta que a raça não é uma questão biológica, mas uma “social que pode ter efeitos devastadores”. No passado, por exemplo, a colonização e o imperialismo eram justificáveis, já que os nativos de outras nações não seriam civilizados.

“Como nós apresentamos a raça importa”, afirmou Susan, em editorial. “Nossos exploradores, cientistas, fotógrafos e repórteres levaram as pessoas a lugares que nunca tinham imaginado. É uma tradição que ainda impulsiona a nossa cobertura e da qual temos orgulho. E isso significa que temos um dever, em cada história, de apresentar representações precisas e autênticas. Um dever aumentado quando cobrimos questões como a raça”.

Leia mais em:

https://oglobo.globo.com/sociedade/national-geographic-reconhece-ter-sido-racista-por-decadas-22484073#ixzz59ethre4s

https://www.nationalgeographic.com/magazine/2018/04/from-the-editor-race-racism-history/

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2018/03/national-geographic-diz-ter-coberto-questoes-raciais-com-preconceito-por-decadas.shtml

https://www.theguardian.com/media/shortcuts/2018/mar/13/how-national-geographic-acknowledged-its-racist-past

https://qz.com/1227677/national-geographic-notes-its-racist-coverage-of-black-people-of-color/