Entidades de jornalismo repudiam ataque de delegados do PT contra a jornalista Míriam Leitão

Associações de jornalismo repudiaram nesta terça-feira (13) o ataque verbal sofrido pela jornalista Míriam Leitão, colunista do jornal O Globo e da Globonews, por parte de delegados do PT durante um voo, de Brasília para o Rio de Janeiro, da companhia Avianca. Segundo a jornalista, ela foi ameaçada, xingada e chamada de “terrorista” durante a viagem por cerca de 20 pessoas. Em nota conjunta, a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT), a Associação Nacional de Editores de Revistas (ANER) e a Associação Nacional de Jornais (ANJ) destacaram que atitudes como essas refletem autoritarismo, intolerância e desconhecimento do papel da imprensa – o de informar a sociedade sobre assuntos de interesse público. “A ABERT, a ANER e a ANJ esperam que episódios como este sejam sempre apurados e evitados, para que prevaleçam os princípios da convivência democrática”, salientaram as entidades por meio do comunicado.

Em entrevista ao jornal o Estado de S.Paulo, o diretor executivo da ANJ, Ricardo Pedreira, reforçou a preocupação com esse tipo de manifestação de intolerância em relação à atividade jornalística. “Revela autoritarismo, obscurantismo e um lamentável comportamento violento. A ANJ se solidariza com a Míriam, na certeza de que ela continuará fazendo o jornalismo de grande qualidade que sempre fez”, frisou.

Associação Brasileira de Jornalista Investigativo (Abraji) também divulgou nota condenando o comportamento dos passageiros que “de maneira covarde e intolerante, atacaram a colunista Míriam Leitão”. A entidade disse, no comunicado, que não há nada que justifique assédio violento a qualquer cidadão por suas posições ou seus atos. “Infelizmente o acirramento de posições políticas tem levado à proliferação de situações como essa, seja em aviões, restaurantes e mesmo hospitais”, afirma a Abraji. “O dissenso é saudável para uma democracia, e o embate civilizado de ideias é o melhor caminho para a construção de uma sociedade mais justa. A violência, a intolerância e a incompreensão do papel da liberdade de expressão, ao contrário, podem ferir de morte o regime democrático”, continua a nota.

O episódio ocorreu no dia 3 de junho, último dia do Congresso do PT em Brasília. A jornalista contou nesta terça-feira (13), em sua coluna no jornal O Globo – com o título O ódio a bordo –, que foi hostilizada por “homens e mulheres representantes partidários”, “alguns já em seus cinquenta anos”, durante todo o percurso, de duas horas. Míriam afirmou ter sido chamada de “terrorista” e lembrou, em seu texto, que um coronel, durante a ditadura militar, usou o mesmo termo para se referir a ela. O piloto de avião, afirmou Míriam, não fez nada para restabelecer a ordem a bordo, nem a tripulação, que, segundo ela, permaneceu “inerte” diante de “gritos, slogans e cantorias”.

A jornalista estava na poltrona 15C, segundo relatou o jornal O Estado de S.Paulo, próxima de algumas das pessoas que a hostilizaram. Míriam contou que uma comissária, a pedido do comandante, a convidou a sentar na frente. Ela, porém, recusou-se a trocar de lugar. Quando a aeronave ainda estava em solo, a aeromoça afirmou que a Polícia Federal (PF) estava mandando a jornalista trocar de lugar; do contrário, o avião não sairia. A jornalista, que disse não ter visto ninguém da PF, recusou novamente o pedido, lembrando que já enfrentou a ditadura.

Míriam termina a coluna afirmando que “não acha que o PT é isso”, mas repetindo que “os protagonistas desse ataque de ódio eram profissionais do partido”. A jornalista diz que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva citou, mais de uma vez, seu nome em comícios e reuniões do partido. “Como fez nesse último fim de semana. É um erro. Não devo ser alvo do partido, nem do seu líder”, escreveu. No Twitter, o termo “Míriam Leitão” está no topo dos assuntos mais comentados nesta terça-feira.

A senadora Gleise Hoffmann, presidente do PT, informou por nota que lamenta o constrangimento sofrido por Míriam Leitão. Ela afirmou que o partido orienta a militância “a não realizar manifestações políticas em locais impróprios e a não agredir qualquer pessoa por suas posições políticas, ideológicas ou por qualquer outro motivo, como confundi-las com empresas para as quais trabalhem”.

Ainda de acordo com a senadora, o partido entende que “esse comportamento não agrega nada ao debate democrático” e afirma que muitos integrantes do PT, inclusive a Gleise, “já foram vítimas de semelhante agressão dentro de aviões, aeroportos e em outros locais públicos”. Ainda na nota, a senadora criticou a Rede Globo e disse que a emissora é “em grande medida, responsável pelo clima de radicalização e até de ódio por que passa o Brasil e em nada tem contribuído para amenizar esse clima do qual é partícipe”. “O PT não fará com a Globo o que a Globo faz com o PT”, finaliza a nota.

A Avianca disse, por meio de nota, que repudia “qualquer ação que viole os direitos dos cidadãos”. Afirmou, ainda, que a presença da Polícia Federal foi solicitada na aeronave que fazia o voo 6327 “após a tripulação detectar um tumulto a bordo que poderia atentar à segurança operacional e à integridade dos passageiros”. De acordo com a companhia, o procedimento seguido pelo comandante “seguiu a praxe do setor para esses casos”. Procurado, o Instituto Lula disse que não ia se posicionar sobre a citação de Míriam ao ex-presidente.

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