Morre Ernestina Herrera de Noble, dona do Grupo Clarín, da Argentina

A argentina Ernestina Herrera de Noble, uma das mais importantes líderes da imprensa sul-americana, morreu nesta quarta-feira (14) aos 92 anos. Proprietária do Grupo Clarín, a maior empresa de comunicação da Argentina, Ernestina foi a primeira mulher a comandar um diário de grande circulação na América do Sul. Durante os quase 50 anos em que dirigiu o jornal Clarín, o mais lido pelos argentinos, ela esteve à frente da estratégia que fez do diário o mais vendido de língua espanhola e o oitavo do mundo. A executiva, que herdou e assumiu o diário em 1969, após a morte de seu marido e fundador do Clarín, Roberto Noble, também começou o processo de diversificação a outras tecnologias da comunicação, como rádio, televisão, cabo e internet, que posteriormente formaram o Grupo Clarín. Ernestina também se destacou pelo compromisso com a liberdade de expressão e a independência editorial e econômica dos meios de comunicação, bem como por sua defesa do jornalismo profissional.

“Os protagonistas não somos nós, devem ser a notícia”, costumava dizer Ernestina. “A função do Clarín implica exercer um poder, que é o de servir as pessoas, informando com objetividade e independência. Nos momentos difíceis, quando existem pressões desde qualquer setor, sempre recordo que primeiro estão os leitores”, afirmou ela em determinada ocasião. Foi dessa forma que o jornal retratou os violentos anos de 1970, defendendo o pleno exercício do Estado de Direito, apoiando o respeito às liberdades individuais e o sistema democrático. O mesmo ocorreu naquele que talvez tenha sido o período de maiores dificuldades à operação do jornal: parte do governo de Néstor Kirchner (2003 a 2007) e e todo o de Cristina Kirchner (2007 a 2015), especialmente no segundo caso, em que a presidente manteve confronto aberto e pressão sistemática ao Grupo Clarín.
Foi em meio à campanha kirchnerista contra o jornal, que sua proprietária sofreu, por uma década, com um ataque específico da Casa Rosada, que defendia a tese que Ernestina havia usado de suas influências políticas para apropriar-se de bebês nascidos em centros clandestinos de tortura. Segundo informações extra-oficiais, relatou o jornal O Globo, o verdadeiro objetivo do governo era ver a dona do grupo Clarín presa pelo suposto roubo de bebês durante a última ditadura (1976-1983).

Os filhos da dona do Clarín, Marcela e Felipe, chegaram a ser perseguidos pela polícia até sua residência, onde tiveram de ceder às pressões e tirar as roupas para que os policiais pudessem levar objetos pessoais solicitados pela Justiça para realizar coleta de DNA. Após quatro exames, os perfis de ambos foram comparados com os de mais de 50 famílias que entregaram mostras de sangue ao Banco Nacional de Dados Genéticos e em todos os casos o resultado foi negativo, impondo uma derrota à então presidente Cristina Kirchner. O caso, entretanto, é apenas o mais ruidoso da perseguição kirchnerista ao Grupo Clarín, que inclui mais de 1.200 ações diretas entre 2008 e 2015.
A longo de sua carreira, Ernestina recebeu diversas condecorações. Integrou o Instituto de Imprensa Internacional e o Conselho do Museu Internacional de Televisão e Rádio. Foi a primeira editora latino-americana a integrar o Comitê Consultivo da UNESCO para a Liberdade de Imprensa. Ao mesmo tempo, durante o período em que dirigiu o Clarín, o diário recebeu mais de 300 distinções internacionais, entre elas seis prêmios Rei da Espanha, 2 Prêmios Dom Quixote e 4 prêmios Maria Moors Cabot.
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