Jornalistas e personalidades destacam talento jornalístico e sensibilidade de Jorge Bastos Moreno, falecido nesta quarta-feira (14)

O destacado trabalho do jornalista Jorge Bastos Moreno, um dos mais respeitados repórteres políticos do Brasil, e seu carisma foram lembrados ao longo desta quarta-feira (14) por colegas, jornalistas, autoridades e personalidades. Moreno, colunista do jornal O Globo, morreu à 1h desta madrugada, aos 63 anos, de edema agudo de pulmão decorrente de complicações cardiovasculares.

O presidente do Conselho Editorial do Grupo Globo, João Roberto Marinho, lembrou de Moreno como uma pessoa capaz de unir “as mais variadas tribos”. “É uma perda inestimável para todos nós que compomos a equipe de jornalismo do Grupo Globo. O Moreno era um profissional especial, uma pessoa de grande sensibilidade, que tinha uma intuição para estar perto do fato e estar ali pegando o fato. Tinha uma qualidade assim excepcional de faro jornalístico, além de ser, pessoalmente, um querido, uma pessoa que unia as mais variadas tribos e pessoas. Vai fazer muita falta para gente”.

O diretor de redação de O Globo, Ascânio Seleme, declarou que o Brasil, e o jornal em particular, perdem um dos maiores jornalistas de sua história. Ascânio e Jorge Bastos Moreno conviveram também na sucursal de Brasília de O Globo. “Moreno é um dos cinco maiores jornalistas que o Brasil já conheceu. Um jornalista bem-humorado, que pegava no pé sem ser chato. Brasília nunca terá as reuniões como as que ele promovia em sua época lá”.

Em manifestação a João Roberto Marinho e a Ascânio Seleme, o presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Marcelo Rech, ressaltou que Moreno era exemplo maior de repórter, tendo dignificado e honrado a atividade jornalística, sempre em busca da informação exclusiva e da interpretação acurada dos fatos, sobretudo na cobertura política, da qual era um mestre.

“O trabalho de repórter e observador da cena política eram enriquecidas por Moreno pela verve e humor inigualáveis. Fará imensa falta a seus leitores, ouvintes e telespectadores. Que seu trabalho exemplar frutifique de forma permanente, para que o jornalismo brasileiro prossiga cumprindo sua missão, que é a de informar com qualidade os cidadãos, acima das circunstâncias e das paixões políticas”, disse Rech, ao prestar solidariedade em nome da ANJ aos familiares, amigos e colegas de Moreno.

O diretor-geral de Jornalismo e Esporte da TV Globo, Ali Kamel, segundo relatou o jornal O Globo, descreveu características que tornavam Moreno um jornalista de destaque no Brasil: “Ele vai deixar um exemplo do que é ser jornalista. Ele sabia cativar uma fonte, ele sabia fazer amigos, ele sabia não misturar amizade com jornalismo e ele era um mestre da geração dele, assim, insubstituível. Dizem que esta coisa de ser insubstituível não existe, mas acho que o Moreno me faz pensar que vai ser muito difícil alguém ocupar o lugar que ele ocupou, pelo estilo dele, pelo modo querele tinha de se relacionar. É assim uma perda imensa, pro jornalismo e para os amigos dele, com toda certeza”.

O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), conhecia o jornalista há ainda mais tempo: desde 1973. Mantiveram conversas frequentes até a tarde de terça-feira, quando conversaram por telefone. “Convivemos muito, temos muitas histórias em comum e fomos amigos todo o tempo. A casa dele no Lago Norte (em Brasília) era um ponto de encontro. É um sentimento de perda muito grande”, disse. “É interessantíssimo. A casa dele em Brasília, e também no Rio, certamente, era esse ponto de encontro. Pessoas dos mais diversos polos políticos se encontravam. Ele era exemplar nisso. Sabia lidar com todo mundo, com aquela sensibilidade particular”.

O cantor e compositor Gilberto Gil contou que falou com Moreno há dois dias sobre os preparativos para sua festa de aniversário. “Falei com Moreno anteontem, ontem ele passou o dia falando com a Flora, estava preparando a minha festa de aniversário, seria dia 26. Era um irmão tardio, meu filho caçula o chamava de tio e era mesmo. O conheci nos últimos 10 anos, mas vivemos muito próximos, além dos jantares em sua casa, saímos muito para almoçar e jantar a sós. O sentimento, que ouvi de várias pessoas aqui, é o mesmo: quem vai nos reunir? Ficou este vazio, mas fica este círculo enorme de pessoas que ele ajudou a unir.

O jornalista e apresentador Pedro Bial citou a habilidade de Moreno em transitar por diversos campos políticos. “Ele não era apenas um observador do cenário de polarização, mas um cara que conseguia desencastelar as posições. Levou o jornalismo político à categoria de arte. À mesa do Moreno, sentavam todas as matizes ideológicas do Brasil”, afirmou. O ator Gregório Duvivier é um dos muitos artistas presentes ao velório de Jorge Bastos Moreno. Ele classificou o jornalista como uma “unanimidade do afeto”.

Moreno nasceu em Cuiabá e viveu em Brasília desde a década de 1970. Há 10 anos morava no Rio de Janeiro. Com mais de 40 anos de carreira, Moreno era dono de uma invejável agenda de fontes, que inclui os principais políticos e os grandes nomes do mundo artístico do país. Trabalhou no jornal O GLOBO por cerca de 35 anos, onde chegou a dirigir a sucursal de Brasília.

Seu primeiro grande furo de reportagem foi no “Jornal de Brasília”: a nomeação do general João Figueiredo como sucessor do general Ernesto Geisel. Foi apenas o primeiro de grandes furos, conseguidos graças à sua imensa capacidade de conquistar fontes. Sua importância era tamanha que, nos corredores do Congresso, enquanto repórteres costumavam chamar “Senador, Senador” ou “Deputado, Deputado”, em busca de uma informação, com Moreno era o contrário: ao entrar no Congresso, eram os políticos que o chamavam, “Moreno, Moreno”.

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