Entidades repudiam pressão da polícia para que repórteres do jornal O Tempo revelem fonte de reportagem Reprodução

Entidades repudiam pressão da polícia para que repórteres do jornal O Tempo revelem fonte de reportagem

Entidades ligadas à liberdade de imprensa repudiaram ação da Polícia Civil de Minas Gerais, que intimou duas repórteres do jornal mineiro O Tempo a prestar depoimento como testemunhas em um inquérito aberto após requerimento da Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (Codemig) empresa estatal responsável pela exploração de nióbio.

A estatal acusa um ex-funcionário de ter vazado documentos para reportagens do diário que tratam da venda de ações e da contratação de empréstimos por meio da Codemig para sanar as dívidas do estado. No âmbito da investigação, a polícia intimou as jornalistas Angélica Diniz e Ludmila Pizarro para que elas reconhecessem esse ex-servidor ou indicassem quem teria fornecido as informações. Ao buscar a polícia, a Codemig anexou uma troca de mensagens entre Diniz e o presidente da estatal em que ela pede seu posicionamento diante dos fatos que seriam publicados pelo jornal e diz a ele ter os documentos sobre o caso.

O diretor executivo da Associação Nacional dos Jornais (ANJ), Ricardo Pedreira, disse que a ação policial no caso é uma ameaça à liberdade de imprensa. “O sigilo da fonte é um direito dos jornalistas previsto na Constituição. É inadmissível que se busque afrontar esse direito. Trata-se de uma ameaça à liberdade de imprensa e, por consequência, ao direito da sociedade de ser livremente informada”, disse Pedreira ao jornal O Tempo.

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) também condenou, em nota, a atitude. “A Abraji considera a intimação das jornalistas como testemunhas no caso um risco ao sigilo da fonte, ao pretender confirmar as acusações da Codemig de que o ex-servidor teria repassado as informações à imprensa. Colocar em risco este instrumento fundamental para o ofício, garantido pela Constituição Federal, é uma ameaça à liberdade de expressão e, como tal, é digna de repúdio”. 

A presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais, Alessandra Mello, repudiou a atitude da Polícia Civil. "É uma coisa absurda, intimar repórter é coisa que acontecia só na ditadura. É lamentável ver isso acontecendo de novo. O sindicato se solidariza com as jornalistas e está sempre comprometido em defender os nossos direitos", apontou.

A Constituição assegura aos jornalistas o direito de não revelar de onde obtiveram informações para uma reportagem. As jornalistas, informou a Folha de S.Pauolo, foram intimadas na última quarta-feira (13) a comparecer ao Departamento de Investigações de Crimes contra o Patrimônio no dia seguinte. Na segunda-feira (11), a estatal havia requerido o inquérito. Na quinta-feira (14), as jornalistas prestaram depoimento à polícia e se recusaram a revelar suas fontes.

Em nota, o jornal O Tempo informou lamentar o que classifica como ação de intimidação e afirmou que "não recuará diante de ameaças à democracia".

"O jornal O Tempo lamenta e repudia a tentativa do poder público de ferir um direito básico para o exercício do jornalismo. O direito de preservar o sigilo da fonte é garantido pela Constituição Federal. Fica evidenciada a ação para intimidar as repórteres Angélica Diniz e Ludmila Pizarro justamente quando essas por meio da prática do bom jornalismo traziam fatos relevantes sobre as negociações envolvendo Codemig", afirma o texto.

Também por meio de nota, a estatal afirma que, no dia 11, realizou um protocolo de notícia-crime contra um ex-agente público no Departamento de Fraudes da Polícia Civil. "Foi solicitada a instauração de inquérito para apuração de indícios de conduta criminosa perpetrada contra a companhia."

Leia mais em:

https://www.otempo.com.br/capa/pol%C3%ADtica/pol%C3%ADcia-intima-jornalistas-de-o-tempo-para-revelar-fonte-de-reportagens-1.1857018

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/06/policia-intima-reporteres-de-jornal-mineiro-a-revelar-fonte-de-reportagem.shtml