Ortega reprime a imprensa da Nicarágua e perde o controle que tinha sobre veículos de comunicação Reprodução/AP

Ortega reprime a imprensa da Nicarágua e perde o controle que tinha sobre veículos de comunicação

Os últimos quatro meses de repressão do governo de Daniel Ortega à população violou os direitos humanos, provocou mais de 300 mortes e resultou em violência contra veículos de comunicação e jornalistas. No entanto, enquanto ataca a imprensa, o presidente vê reduzir o controle que tinha sobre as notícias no país, relata do Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ).

Até pouco tempo, segundo analistas entrevistados pelo CPJ, a maioria das organizações noticiosas nicaraguenses apoiava Ortega ou fazia cobertura pouco crítica ao regime cada vez mais autoritário da Nicarágua. Agora, muitos veículos produzem contundentes reportagens sobre os abusos do governo. Alguns pediram a renúncia de Ortega.

"O monopólio do governo sobre a informação entrou em colapso", disse ao CPJ Carlos Fernando Chamorro, diretor do site de notícias independente Confidencial. "Os meios independentes estão se fortalecendo". Durante grande parte da última década, as principais fontes de notícias independentes foram o Confidencial, o diário La Prensa, de Manágua, e a Radio Corporación, também com sede na capital. Agora, estão ganhando aliados.

Entre eles está Canal 10, de propriedade de Remigio Angel Gonzalez, um empresário de mídia que possui dezenas de canais de TV e estações de rádio na América Latina e é conhecido por evitar conflitos com os governos da região. Inicialmente, a emissora ignorou os protestos. Após um apagão de um dia nas ruas, o Canal 10 recebeu uma série de críticas e os jornalistas da emissora começaram a reclamar. A partir de então, o canal passou a cobrir os protestos e se concentrou na crise.

O El Nuevo Diario, jornal que já foi defensor da revolução sandinista e depois se voltou contra Ortega, mudou novamente de lado, adotando uma linha editorial governista, desde que foi adquirido por um grupo bancário nicaraguense. Com a forte repressão aos jornalistas para não cobrirem os protestos, porém, o El Nuevo Diario mais uma vez passou a fazer jornalismo, disse um repórter do veículo ao CPJ em anonimato. Hoje em dia, a primeira página está repleta de notícias sobre presos políticos, violações de direitos humanos e opiniões sobre o tempo que durará o governo de Ortega.

Algo semelhante ocorreu com o canal privado 100% Noticias, cuja equipe tem sofrido represálias nas ruas por parte das forças policiais, incluindo o roubo de equipamentos. Agora o veículo é um dos mais críticos a Ortega. Entretanto, anteriormente, a emissora – com programação 24 horas a cabo e internet – criticava o presidente em raras ocasiões e oferecia com frequência espaço para integrantes do governo.

Desde o início dos protestos, em abril, a emissora cobre a crise, inclusive os ataques de policiais e paramilitares simpatizantes de Ortega contra civis desarmados. Em represália, a estatal reguladora de telecomunicações, Telcor, ordenou a suspensão das transmissões do canal durante seis dias, ainda em abril. "Telcor nos pediu que não transmitíssemos notícias sobre as manifestações, mas nós dissemos 'não'", afirmou Lucía Pineda, diretora de notícias da emissora.

Mas há organizações de notícias que procuram evitar a cobertura dos protestos e, também, não fazem críticas ao governo, conta o CPJ. Muitos jornalistas desses veículos têm pedido demissão em protesto. Entre os mais conhecidos está o caso de Dino Andino, âncora do Canal 2, pró-governo.

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https://cpj.org/es/2018/08/en-nicaragua-el-control-que-ortega-ejerce-sobre-lo.php