Marcelo Rech: “A saída para os jornais é o melhor jornalismo”

Marcelo Rech: “A saída para os jornais é o melhor jornalismo”

O Diretor Executivo de Jornalismo do Grupo RBS e seu diretor em Brasília é, desde maio, presidente do Fórum Mundial de Editores (WEF) e membro dos boards Latino-americano da Associação Mundial de Jornais e da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP). Jornalista formado em 1981 pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, foi bolsista do Media Management Center, ligado à Kellogg School of Management, e fez o curso de Estratégia de Mídia da Harvard Business School. Nesta entrevista, faz uma avaliação do Congresso Mundial de Jornais, realizado em Washington no início de junho, e dos desafios da indústria jornalística mundial, e constata que o que a experiência dos jornais afiliados à ANJ é considerada único e referencial”.

Carlos Müller

Marcelo, você acaba de ser eleito presidente do Fórum Mundial de Editores. O que é o Fórum e quais as atribuições de seu presidente?

O fórum é uma entidade de editores ligado à Associação Mundial de Jornais (WAN-IFRA). Nossa missão principal é auxiliar os editores dos cinco continentes a buscar a evolução do jornalismo e das redações, além da defesa da liberdade de expressão e da integridade dos jornalistas. Isto é feito por meio de publicações periódicas, como Tendências em Redações, blogs, seminários, viagens de estudo, etc. Temos um board que reúne 22 chefes de redação de todo o mundo, do USA Today ao Konsomolskaya Pravda, passando por La Nación, La Stampa e outros da África, Europa e Ásia. Na minha gestão, pelos próximos dois anos, conforme decidimos na última reunião do board, em Washington, estamos engajados em procurar estimular as redações a alcançar um novo patamar de jornalismo, que diferencie claramente para o público o trabalho profissional daquela que é produção caseira, muitas vezes adulterada e sem certificado de origem.

A reunião do Fórum na qual você foi eleito foi paralela ao Congresso Mundial de Jornais, realizado em Washington no início deste mês de junho. Qual a sua avaliação do Congresso?

Muito positiva. Os painéis, tanto do Congresso quando o do Fórum de editores, foram muito focados em soluções, caminhos e novidades, como o jornalismo imersivo, a relação com as redes sociais, novos processos em redações. Entre os cerca de 900 participantes, tivemos uma excelente representação latino-americana, com mais de 120 presentes. Nossa delegação do Brasil foi expressiva e liderada pelo presidente da ANJ, Carlos Lindenbergh Neto.

Em termos globais, há alguma diferença entre a situação da indústria jornalística hoje e a de Congressos anteriores dos quais você tenha participado?

Já não se ouvem lamúrias e nem se vislumbram cenários devastadores. A indústria está focada em aproveitar a extraordinária relação dos jornais com seu público, algo que não se encontra em nenhuma outra mídia, para construir novas receitas e novas formas de levar conteúdo de qualidade às comunidades. No âmbito global, há um quadro mais realista e otimista do que há cinco anos. No Brasil, estamos sofrendo mais do que a média mundial porque vivenciamos ao mesmo tempo a onda de transformação da indústria e os problemas econômicos do país.

Os dados relativos aos congressos imediatamente anteriores indicavam uma retração acentuada, tanto em termos de circulação quanto de publicidade, nos chamados mercados maduros (América do Norte e Europa), um crescimento acelerado na Ásia (China e Índia em especial) e um crescimento moderado nos demais países. Isso se mantém?

Em geral, as tendências se mantêm, embora tanto as curvas de queda quanto as localizadas de aumento da circulação venham se atenuando. No caso do papel, nos mercados que estavam em queda livre há agora uma tendência à estabilidade, depois de uma rentabilização da circulação via reduções de custos de logística e de aumentos de preços de assinaturas ou exemplares avulsos.

Em 2014, a principal constatação da World Press Trends (a pesquisa anual da WAN-IFRA) divulgada anualmente nos Congressos era de que nunca se havia lido tanto jornal, considerando as edições impressas e digitais. Neste ano, o fato destacado nas análises foi que, em termos globais, as receitas de circulação superaram as de publicidade. Como você interpreta essas duas situações?

Agora está claramente evidenciado que o leitor deverá cada vez mais ser o responsável pela sustentação dos jornais, mas para isso precisamos entregar um produto com qualidade, atratividade e relevância crescentes em todos os seus formatos. A saída para os jornais não é menos jornalismo: é melhor jornalismo. Isso se faz com redações que não sejam apenas reativas às notícias, mas que sejam proativas, levantando assuntos exclusivos, confrontando versões e certificando o que é verdade ou não sobre o que já está circulando por aí, seja nas redes ou em outros meios mais reativos.

Quanto às demais palestras e debates do Congresso, o que você destacaria?

Tive a oportunidade de moderar um  painel que considero essencial para o nosso futuro: nossa relação com as redes, o Facebook em especial. Estamos transferindo a decisão editorial e a distribuição de informação para um algoritmo. Isso pode ter um lado positivo ao levar nossos conteúdos e marcas a novos públicos, mas também podemos estar terceirizando nossa atividade. Esta encruzilhada é decisiva para a indústria da comunicação e, em última análise, para as sociedades, uma vez que a discussão de fundo é quem vai divulgar as notícias: um editor preocupado com ética e questões sociais ou um algoritmo preocupado em capturar dados do público e entregar publicidade personalizada?

Em particular, o que você recomendaria a um publisher brasileiro que não foi ao Congresso, especialmente a um de um jornal de pequeno porte?

Para jornais pequenos, o fundamental é ter consciência, e valorizar isso junto ao mercado, de que ninguém conhece e se relaciona melhor com seu público do que um diário local. O Google e o Facebook podem invadir nossas praias, mas são os jornais que interpretam e refletem quais os anseios, as emoções, as necessidades e as angústias de cada comunidade. São os jornais que retratam e levantam a história cotidiana, o que é insubstituível. Com esta convicção em mente, precisamos todos dar agora um salto tecnológico, no rumo de mais investimentos e criatividade no relacionamento e conteúdos digitais, vídeo em particular.

Inversamente, há algo que estejamos fazendo no Brasil que desperte interesse entre os publishers e editores de outros países ou que eles poderiam reproduzir?

O que os publishers brasileiros e suas equipes reunidos na ANJ têm feito é único e referencial. A iniciativa conjunta que esvaziou o Google News no Brasil, por exemplo, ainda desperta curiosidade e admiração em todo o mundo. Neste momento, o Digital Premium e o Market Place já começam a chamar a atenção de outros países. O fato de os jornais brasileiros se unirem em busca de soluções é apontado como exemplo da necessidade de reforçar as entidades de classe mundo afora.

No que diz respeito à produção jornalística propriamente dita, às redações, houve algo que tenha chamado sua atenção? Há alguma tendência clara no sentido de configuração das redações, por exemplo?

Integradas ou desintegradas, há um claro discernimento de que as redações precisam trabalhar em duas ou mais velocidades: a do fast journalism, o jornalismo reativo, que é basicamente digital, e a do proativo, que cria pautas, vai muito além da notícia, aprofunda e analisa. Há também clara tendência de valorizar conteúdos exclusivos e também do chamado slow journalism, grandes especiais multimídias que podem e devem ser consumidos aos poucos e que têm vida bem mais longa do que o costumeiro ciclo de 24 horas.

E quanto ao conteúdo? Há pelo menos duas tendências – de uso crescente de vídeo e de aumento acelerado do consumo de conteúdo jornalístico em smartphones – não é? Você apontaria alguma outra?

Além destas duas mencionadas, há uma preocupação crescente com design e experiência do usuário. O design fala e se expressa, e precisa ser o DNA reconhecido de uma marca em todos os seus formatos físicos e digitais. No caso da chamada user experience, de nada adianta investir pesadamente em conteúdos digitais se um aplicativo trava ou leva longos segundos para carregar em um smartphone. O Google mostrou que a experiência do usuário é o início de tudo. Também deveria ser o nosso ponto de partida, mas ainda temos dificuldades em lidar com design e experiência, porque nosso negócio sempre foi o recheio, e não a embalagem.

 Adaptar-se a um novo cenário, como esse, muitas vezes exige investimentos. Como fazer isso se “o cobertor é curto”?

Um editor é um hierarquizador de temas. Alguns são mais relevantes que outros, alguns são mais atraentes para o público e outros têm baixa ou nenhuma relevância, atratividade ou impacto. Um veículo de comunicação deve fazer o mesmo: avaliar a relevância e o impacto de cada atividade e se focar naquelas que fazem ou podem fazer de fato diferença concreta e real. Nem todas as notícias têm o mesmo tratamento, nem todas as atividades podem ter pesos parecidos.

Esse processo de transformação tem inúmeras implicações também no campo das boas práticas jornalísticas e da ética, não é? Coisas como a “separação Igreja/Estado”, o direito de resposta e a correção/atualização de informações que, embora verdadeiras num determinado momento, foram superadas, etc. O que você destacaria a esse respeito?

Uma nova preocupação é que as redes estão corroendo a noção de decisões éticas editoriais. Assuntos que ainda estão sendo melhor investigados nas redações ou que devem ser revestidos de cuidados para proteger possíveis inocentes são vazados, inventados ou distorcidos nas redes para atender a interesses setoriais, partidários ou particulares. Com isso, os veículos profissionais são questionados pelas redes sobre suas atitudes. A solução é sermos cada vez mais transparentes sobre nossas decisões e avaliações éticas, mesmo destoando da fúria coletiva das redes. Outro problema é que a tomada de decisão, antes em horas, agora é feita em minutos ou menos. Naturalmente, este ritmo, que impede debates mais profundos, exige conceitos muito fortes e constantemente reforçados, a fim de se reduzir as margens de falhas no processo informativo dentro das redações.