Presidente da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos, a democrata Nancy Pelosi Presidente da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos, a democrata Nancy Pelosi / Reprodução / Reuters / Folha de S.Paulo

Facebook mantém no ar vídeo manipulado para interferir no debate político dos Estados Unidos

A recusa do Facebook em tirar do ar um vídeo comprovadamente falso sobre a presidente da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos, a democrata Nancy Pelosi, expõe mais uma vez o interesse da gigante digital em manter uma aberração que a ajuda a faturar bilhões de dólares: publicar e distribuir conteúdo sem, ao contrário dos publishers, qualquer responsabilidade editorial. O som e a velocidade do vídeo foram manipulados para fazer com que discurso da parlamentar parecesse hesitante e confuso, lembrando uma pessoa sob efeito de álcool. O conteúdo foi compartilhado aos milhões nas redes sociais por apoiadores do presidente dos Estados Unidos, o republicano Donald Trump, em tentativa de influenciar o debate político pré-eleitoral no país, que vai às urnas em 2020.

Horas depois de ser alertado sobre o vídeo pelo jornal The Washington Post, o Facebook formalizou, na última sexta-feira (24), a recusa em bloqueá-lo, ignorando também o parecer de grupos independentes de checagem da rede social Lead Stories e PolitiFact, que classificaram o conteúdo como falso. Em sua defesa, a empresa argumentou estar preocupada com a liberdade de expressão. "Há uma tensão aqui: nós trabalhamos duro para encontrar o equilíbrio certo entre incentivar a livre expressão e promover uma comunidade segura e autêntica, e acreditamos que reduzir a distribuição de conteúdo inverídico atinge esse equilíbrio", informou o Facebook em comunicado. “Não temos uma política que estipule que a informação que você publica no Facebook tem de ser verdadeira".

Nas 24 horas depois que o The Washington Post avisou o Facebook sobre o vídeo, seus acessos em uma única página da rede social tinham quase dobrado, para mais de 2,5 milhões de visitas, revela o jornal em reportagem publicada no Brasil pela Folha de S.Paulo. O conteúdo foi republicado em outras páginas do Facebook, elevando sua audiência. Além disso, o presidente Trump tuitou na quinta-feira (23) à noite outro vídeo, da Fox Business Network. O clipe tem 30 segundos e enfatiza pausas e gaguejos de Pelosi em um pronunciamento oficial naquele mesmo dia.

Jason Kint, executivo-chefe do grupo setorial Digital Content Next, representante dos publishers online, disse que o Facebook e outras gigantes digitas, como o Google, deveriam assumir um papel mais ativo no policiamento e redução da disseminação de desinformação. As mídias interativas, afirmou ele ao The Washington Post, relutam em dar muito poder aos verificadores de fatos ou moderadores de conteúdo, e muitas peças de conteúdo podem cair em “áreas cinzentas”, em que a percepção do material pelas pessoas depende de sua política pessoal.

"Quando eles a colocam na linha do tempo das pessoas e lhe dão uma velocidade e um alcance que não merece, estão ajudando a disseminá-la", disse Kint. "A desinformação pode se espalhar mais depressa que a informação verdadeira", acrescentou. "E essas redes têm atores maus – que, de maneira assustadora neste caso, envolvem pessoas em cargos muito importantes – que podem movimentar a desinformação rapidamente. Não acho que as pessoas encarregadas de revelar a verdade sejam capazes de mobilizar essas redes da mesma maneira."

Empresas como o Facebook e Google, destaca editorial do jornal britânico The Guardian, têm sido relutantes em agir contra desinformação online promovendo causas que não são em si mesmas criminosas, por mais desprezíveis que sejam. Trata-se, segundo o diário, de uma prática perigosa, uma vez que falsificações muito superficiais, como as evidenciadas no vídeo de Nancy Pelosi, são tão ou mais perigosas do que conteúdos alterados de forma sofisticada.

“[O Facebook] colocou uma barra lateral no vídeo, sugerindo como ‘visualização adicional’ várias notícias que apontam que uma mentira. Isso, naturalmente, não terá efeito sobre aqueles que querem acreditar [no conteúdo]. Parece uma decisão empresarial deliberada do Facebook se posicionar como o canal preferido para políticas sujas na busca do poder sem responsabilidade”, diz o editorial do The Guardian, sob o título Poder sem Responsabilidade. “É por isso que é tarefa dos políticos democráticos compelir a empresa a assumir a responsabilidade por seu aumento do debate político.

Falta de interesse 

Ao contrário do Facebook, o YouTube (do Google), segundo o The Washington Post, informou ter removido os vídeos porque violavam "políticas claras que definem que conteúdo não é aceitável publicar". O Twitter não quis comentar, mas a política da rede social permite "declarações imprecisas sobre uma autoridade eleita", desde que não inclua tentativas de manipulação eleitoral ou supressão de eleitores, diz o The Washington Post.

O deputado democrata David Cicilline, foi ao Twitter para exigir que o Facebook "arrume isso já!". O senador democrata Brian Schartz, por sua vez, disse que o Facebook é muito atencioso no debate sobre leis federais e, de repente, “fica mudo quando lhes pedimos” para lidar com um vídeo fraudulento". "Não é que eles não possam resolver isso; é que eles se recusam a fazer o que é necessário."

As reações conflitantes das três empresas, segundo o The Washington Post, revelam uma grande vulnerabilidade em como as gigantes da internet se protegem de mentiras virais e falsidades evidentes. “As companhias operam as mais importantes e destacadas fontes de informação dos Estados Unidos, inclusive para se compreender as campanhas políticas nos meses que antecedem a eleição presidencial de 2020. Mas elas demonstraram pouca capacidade – e interesse, no caso do Facebook – em limitar a disseminação de mentiras.

Viral

Os vídeos alimentaram o que os defensores de Nancy Pelosi chamaram de retratos sexistas e conspiratórios sobre a saúde da mulher eleita no cargo mais elevado da Câmara dos Estados Unidos. Eles também se parecem com vídeos políticos que colocaram questões semelhantes sobre a capacidade física de Hillary Clinton durante a campanha de 2016.

Entre as pessoas que promoveram o vídeo distorcido antes que o Facebook respondesse estava o advogado pessoal do presidente Trump, Rudolph Giuliani. Ele tuitou um link para a página do Facebook na noite de quinta-feira – "O que há de errado com Nancy Pelosi? Seu padrão de discurso está bizarro" – e minutos depois o apagou. Mais tarde ele se referiu a isso como "uma caricatura exagerando seu estilo de discurso já entrecortado".

Nancy Pelosi tuitou na quinta-feira à noite que Trump estava "desviando a atenção das grandes realizações dos deputados democratas para o povo, de suas ocultações e sua impopularidade".

Leia mais em:

https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2019/05/facebook-reconhece-que-video-de-democrata-e-falso-mas-se-recusa-a-tira-lo-do-ar.shtml

https://www.theguardian.com/commentisfree/2019/may/27/the-guardian-view-on-facebook-power-without-responsibility