Impossível esperar do Facebook responsabilidade com verdade ou cidadania, diz professor do Georgia Institute of Technology Reprodução

Impossível esperar do Facebook responsabilidade com verdade ou cidadania, diz professor do Georgia Institute of Technology

O Facebook deixou claro, ao formalizar nesta semana a decisão de não remover um vídeo político comprovadamente falso, que não tem como objetivo combater a desinformação. Expôs também o seu gigantesco poder para manter ou retirar postagens como melhor entender, sem se importar com a verdade como faz o jornalismo. A análise é de Ian Bogost, escritor e professor de computação interativa no Georgia Institute of Technology.

“O propósito do conteúdo [no Facebook] não é ser verdadeiro ou falso, errado ou correto, bom ou mau, feio ou belo. O propósito do conteúdo é existir e, ao fazê-lo, inspirar ‘conversas’, ou seja, cada vez mais conteúdo. Esta é a verdade, e talvez a única, da internet em geral e do Facebook em particular”, disse Bogost em texto no site da revista The Atlantic. Enquanto isso, continuou, o debate público “bate a cabeça contra a parede” tentando convencer o Facebook de que "não pode fazer o que faz impunemente".

Na última sexta-feira (24), o Facebook informou em nota ao jornal The Washington Post sua recusa em bloquear um vídeo falso sobre a presidente da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos, a democrata Nancy Pelosi. O som e a velocidade do vídeo foram manipulados para fazer com que discurso da parlamentar parecesse hesitante e confuso, lembrando uma pessoa sob efeito de álcool. “Não temos uma política que estipule que a informação que você publica no Facebook tem de ser verdadeira", disse a empresa no comunicado.

O Facebook, assinalou Bogost, não quer apenas fugir do enquadramento das responsabilidades legais e morais que têm as empresas que produzem jornalismo. “Não se importa com o jornalismo da maneira que os jornalistas (e esperamos que os cidadãos) fazem, e não realiza suas atividades com os mesmos objetivos em mente”, disse o professor ao comentar uma entrevista da vice-presidente de política de produtos e contraterrorismo da empresa, Monika Bickert, à CNN. “Seria muito mais simples e produtivo aceitar a palavra da empresa, já que transformá-la em um ator responsável preocupado primeiro com sua responsabilidade para com a verdade ou com a cidadania é provavelmente impossível”, afirmou Bogost.

Na CNN, o jornalista Anderson Cooper questionou Monika sobre como o Facebook pode garantir seu comprometido em combater desinformação enquanto hospeda e amplifica um vídeo adulterado. A executiva esclareceu, segundo Bogost, que o Facebook não tem uma política contra a desinformação como tal. “Verificadores de fatos externos revisam material polêmico como este”, explicou a executiva, “e então nós reduzimos drasticamente a distribuição desse conteúdo”. Cooper insistiu. “Por que continuar assim quando você sabe que é falso?”, perguntou o jornalista. "Achamos importante que as pessoas façam sua própria escolha informativa sobre o que acreditar", respondeu Monika.

A rede social, por outro lado, lembrou Bogost, removeu mais de 3 bilhões de contas falsas do Facebook de outubro de 2018 a março de 2019. Cooper perguntou à Monika como a empresa se sente diante de óbvia contradição. Em resposta, ela citou a regra do Facebook de que contas devem corresponder a uma única identidade real. Também disse que contas falsas são mais propensas a distribuir desinformação. "Temos um site onde as pessoas podem vir e compartilhar o que pensam – o que é importante para elas".

No jornalismo, disse Bogost, o vídeo manipulado é interpretado como “falso” porque descreve uma situação que não ocorreu. “Mas a maioria das mídias não aspira à verdade. Nesses casos, chamar algo de “falso” faz pouco sentido. É aí que o Facebook parece estar”,

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