Site do jornal Aftenposten, do grupo de mídia Schibsted, que atinge 80% dos consumidores na Noruega e na Suécia Site do jornal Aftenposten, do grupo de mídia Schibsted, que atinge 80% dos consumidores na Noruega e na Suécia Reprodução

Distribuição direta de conteúdo garante mais credibilidade aos publishers, diz Frederic Filloux

A desinformação nas redes sociais contamina o ambiente online e induz a quebra de confiança em toda a mídia, até mesmo em relação aos veículos jornalísticos, segundo as principais pesquisas em comunicação digital. Mas nos países em que as empresas de jornalismo não dependem das plataformas de companhias como Facebook e Google e privilegiam a distribuição direta de conteúdo a seus leitores, que com maior frequência pagam por notícias, a credibilidade está fortalecida, diz o editor do site Monday Note, Frederic Filloux, ao analisar os dados do Digital News Report 2019, produzido pelo Instituto Reuters para o Estudo de Jornalismo. “A correlação entre acesso direto e confiança deve fazer com que os publishers repensem suas estratégias de distribuição, a necessidade de se distanciar das mídias sociais e os danos que resultam do conceito ilusório de conteúdo distribuído”, alerta Filloux.

Nos últimos quatro anos, segundo o jornalista, o nível médio de confiança em 12 países caiu quatro pontos percentuais, de 48% para 44%. As maiores quedas, destaca Filloux, estão ligadas a eventos com características que “tendem a fraturar as democracias”, marcados por forte apelo desinformativo nas redes sociais. Segundo o jornalista, é o caso do Brasil – cuja campanha eleitoral foi marcada por notícias falsas distribuídas de forma massiva via WhatsApp, do Facebook – (queda de 11 pontos em um ano); na França, com o movimento dos coletes amarelos (recuo de 11 pontos em um ano e uma queda de 14 pontos desde 2015); Alemanha, atormentada por uma intensa debate sobre a imigração (13 pontos negativos em quatro anos); e Reino Unido (queda de 11 pontos em quatro anos, na esteira do Brexit).

Os países que, ao contrário, conseguiram fortalecer, o acesso direto de seus leitores a seus conteúdos jornalísticos detêm alta credibilidade. É o caso das organizações dos países nórdicos, afirma Filloux. O grupo de mídia Schibsted (dono do jornal AftenpostenAftenposten), por exemplo, atinge 80% dos consumidores na Noruega e na Suécia.

“Nesses mercados, uma combinação de reestruturação decisiva e forte dependência de tecnologias e de marketing – tudo isso apoiado por um sólido jornalismo – favoreceu o acesso direto a marcas de notícias confiáveis”, analisa Filloux. A relação direta com o consumidor passa por uma distribuição de conteúdo que não depende das mídias interativas, marcada por estratégia de engajamento que inclui a valorização da qualidade jornalística, modelos de financiamento nos quais o leitor é chave (paywalls ou associação, por exemplo) e permanente contato com as audiências, entre outras características.

O editor do Monday Note compara o mercado dos países nórdicos com o da França, onde, de acordo com ele, a mídia está perdendo terreno, sofrendo de uma resistência arraigada à mudança, bem como leis trabalhistas que tornam qualquer reestruturação ruinosa. “O protesto dos coletes amarelos acentuou a tendência e levou a uma desconfiança geral nos meios de comunicação franceses, apoiando ou não o movimento”, diz Filloux.

A Coréia do Sul, cuja mídia tem a menor taxa de credibilidade (22%) entre todos os países pesquisados pelo Instituto Reuters (38 ao todo), o jornalismo tem revelado fraquezas, em especial na cobertura de escândalos comerciais. Isso resultou, conforme Filloux, em uma forte dependência das mídias sociais, principalmente do YouTube e seu algoritmo de recomendação que, de acordo com reportagens, continua a impulsionar desinformação, teorias conspiratórias, discurso de ódio e outros conteúdos inadequados.

Filloux lembra ainda que os consumidores que pagam por notícias confiam mais em suas mídias, enquanto essa credibilidade é menor nos países em que há mais resistência a modelos de pagamento por informação.

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