Jornais bem-sucedidos cultivam virtudes em comum Reprodução

Jornais bem-sucedidos cultivam virtudes em comum

Os jornais que têm colecionado bons resultados no complexo mercado digital colocam em prática uma série de estratégias diferenciadas de produção, distribuição e engajamento adaptadas aos segmentos ou regiões nas quais atuam e, ainda, às características de suas audiências. Esse veículos, entretanto, têm em comum o cultivo das virtudes típicas de muitos dos vencedores em qualquer mercado, relata o site da especializado Editor&Publisher: missão convincente; forte liderança, arrojo inovador; resiliência e planejamento estratégico.  

Penelope Muse Abernathy, da Universidade da Carolina do Norte e autora do estudo “Rise of New Media Baron and the Emerging Threat of News Deserts”, diz que antes de qualquer iniciativa comercial os jornais devem ter uma razão convincente para existir. A pesquisa de Penelope mostra como as notícias locais são importantes em todas as comunidades, e essa importância sempre começa com a missão. Também revela que, quando a missão está toda voltada para os lucros, os investidores estão mais propensos a reduzir operações e, em última análise, contribuem para a criação de desertos de notícias.

O estudo registra que há, no momento, uma grande quantidade de organizações noticiosas nas mãos de fundos de investimentos que, infelizmente, têm justamente como missão principal a geração de lucro. “Esses novos proprietários são muito diferentes dos editores de jornais que os precederam. Em sua maioria, eles não têm experiência em jornalismo ou o senso de missão cívica tradicionalmente adotado pelos publishers”, escreve Penelope em seus relatório.

Não é por acaso que duas das missões de maior destaque na atualidade são de dois diários de resultados invejáveis em suas estratégias de assinaturas digitais: The New York Times e The Washington Post. Nos dois casos, os diários conseguem ainda comunicar suas missões ao público com extrema eficiência.

O The New York Times, próximo de 3 milhões de assinantes online e cuja declaração de missão é “buscamos a verdade e ajudamos as pessoas a entender o mundo”, publicou recentemente dois comerciais com base nessa mensagem. O The Washington Post chegou em 2017 ao cativante slogan "Democracy Dies in Darkness" (A democracia morre na escuridão) a partir de sua missão. O slogan é conciso e inteligente para consolidar a marca. No início deste ano, o jornal lançou seu primeiro comercial no Super Bowl que enfatizava o lema.

Liderança e inovação

A liderança eficiente, assinala o site Editor&Publisher, influencia a felicidade e a produtividade dos recursos humanos de qualquer organização, e isso muitas vezes resulta em negócios mais bem-sucedidos. Para um jornal, um líder qualificado pode fazer toda a diferença em uma indústria enfraquecida. É o caso do Malheur Enterprise, do estado de Oregon, nos Estados Unidos. Depois de anos em dificuldades financeiras, o jornal ingressou em uma fase de prosperidade sob a liderança de Les Zaitz, repórter investigativo de sucesso. O jornalista adquiriu a publicação em 2015 e, desde então, estabeleceu uma cultura de capacitação da redação. A publicação passou a produzir reportagens de alta qualidade e ganhou vários prêmios.

A inovação e a disposição de enfrentar riscos, por sua vez, têm sido decisivas muito antes dos hábitos digitais estarem incorporados ao cotidiano dos leitores. Mesmo agora essas características podem fazer uso da tecnologia para revigorar o meio impresso. O jornal local Ledger Dispatch, da Califórnia, tem esse espírito. Disponibilizou uma experiência diferenciada por meio do aplicativo de realidade aumentada Interactive News. Usando seus celulares, os leitores têm uma experiência interativa segurando a tela sobre uma imagem ou texto impresso. Jack Mitchell, editor do jornal, afirma que o recurso ajudou no incremento das receitas, de 30% no ano passado, e no resgate de anunciantes que haviam abandonado as edições impressas.  

Coragem diante das adversidades 

A resiliência, que ganhou mais destaque nos últimos anos como uma qualidade a ser incentivada nas organizações públicas e privadas, manteve em atividade jornais que, sem essa virtude, provavelmente teriam encerrado suas operações. Um deles, o Philadelphia Inquirer, passou por sete proprietários entre 2006 e 2015 até que o filantropo H.F. “Gerry” Lenfest adquiriu a organização.

A perseverança em meio a dificuldades deve ser cultiva no dia a dia das redações. Quando incêndios florestais eclodiram no norte da Califórnia, conta o Editor&Publisher, as redações dos jornais Paradise Post, Chico Enterprise-Record e Oroville Mercury Register fizeram uma aliança para distribuir jornais de forma a alcançar as famílias atingidas. A redação do Capital Gazette em Annapolis, de Maryland, não parou de trabalhar mesmo depois que um atirador matou cinco funcionários na redação em junho de 2018. O jornal recebeu um Prêmio Pulitzer por sua resposta corajosa ao trágico evento.

Algumas das experiências bem-sucedidas, afirma o Editor&Publisher, mantêm um planejamento estratégico voltado a fortalecer a confiança do público e diversificar a receita de forma a não depender apenas da publicidade e das assinaturas, em especial as digitais. Outra característica comum entre os jornais de bons resultados é o cuidado para dar a jornalistas e a demais colaboradores habilidades com as quais estarão aptos a desempenhar diferentes funções, como produção de textos, áudios e vídeos; análise de dados; e relacionamento e acompanhamento de métricas em mídia social. Por fim, a colaboração entre jornais concorrentes na tentativa de fechar lacunas de coberturas, diz o Editor&Publisher, não pode ser descartada.

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https://www.editorandpublisher.com/feature/formula-for-success-what-do-profitable-newspapers-have-in-common/