“Existe lado certo ou errado”, diz colunista de mídia do The Washington Post sobre cobertura de massacres Reprodução

“Existe lado certo ou errado”, diz colunista de mídia do The Washington Post sobre cobertura de massacres

Os massacres ocorridos neste fim de semana nos Estados Unidos reaqueceram o debate sobre a cobertura jornalística em relação a atos de extrema violência que, na era digital, muitas vezes estão associados a atividades nas redes sociais. Para a colunista de mídia do jornal norte-americano The Washington Post, Margaret Sullivan, é chegada a hora de os profissionais de comunicação tomarem um partido nos casos como as chacinas em El Paso e Dayton: o das vítimas.

Em texto publicado no domingo (4), a jornalista observou que a cobertura da mídia sobre tiroteios em massa tornou-se cruelmente mecânica e, para melhorá-la, é necessário reconhecer que não há problema algum tomar o partido de interesse do público. "Assim como houve nos anos 50 e 60 cobrindo os direitos civis, ou hoje cobrindo a crise climática, na verdade existe um lado certo ou errado na questão do controle da violência desenfreada", escreveu Margaret.

"Às vezes, os jornalistas não apenas informam as notícias: eles podem ajudar uma comunidade ou um país a definir uma agenda", disse Bill Grueskin, ex-editor do Wall Street Journal e professor da Columbia Journalism School, à jornalista do The Washington Post. Para Grueskin e outros profissionais, isso significa uma abordagem coordenada entre grandes e pequenas organizações de notícias e uma responsabilidade muito maior dos agentes políticos que estão em condições de resolver a crise, mas também está ligado a tomar partido.

Essa é a mesma mudança que o editor chefe da revista Wired, Nicholas Thompson, apontou em postagem no Twitter, segundo análise de Margaret. “Os cidadãos deveriam exigir que os políticos da América, à direita e à esquerda, apresentem plano específico para combater a epidemia de tiroteios em massa no país”, escreveu Thompson. Parcela disso é, de acordo com Margaret, dar menos atenção às reações repetidas e a declaratórios políticos, procurando trazendo um olhar cético para os pedidos agora republicanos, em grande parte convencionais, de melhores cuidados de saúde mental.

Margaret , porém, ressaltou que fazer diferente não significa abandonar a responsabilidade com a verdade. A jornalista fez referência a um alerta de Tom Rosenstiel. "Muitas vezes queremos saltar rapidamente para o significado, para alguma verdade maior sobre os acontecimentos, muito antes de sermos capazes disso”, disse diretor executivo do American Press Institute.

“Cabe à imprensa se concentrar nas vítimas”, escreveu Jon Allsop, do Columbia Journalism Review.  O jornalista, entretanto, sustentou que isso não é motivo para deixar de investigar os motivos ou as consequências de atos terroristas. “Há aqueles que usam essa lógica para evitar as duras perguntas que as tragédias representam, e a mídia não deve ajudá-los a se esconder”, afirmou.

“Além da decência básica, concentrar-se nas vítimas é importante porque ilustra, para os leitores, ouvintes e telespectadores que há um custo humano inacreditável para a inação. Isso é político: não no sentido (cada vez mais pejorativo) de que é sobre corridas de cavalos, mas no sentido de que a política, fundamentalmente, é sobre ação e inação, e seus respectivos custos”, disse Allsop. “As vítimas são centrais na política – pelo menos deveriam ser”.

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https://www.cjr.org/the_media_today/el_paso_dayton_shootings.php

https://www.washingtonpost.com/lifestyle/style/the-medias-by-the-numbers-coverage-of-gun-massacres-must-change/2019/08/04/98696038-b6d2-11e9-b3b4-2bb69e8c4e39_story.html?noredirect=on&utm_term=.96441dea7ac9