“Não empregam repórteres. Não mexem nos arquivos públicos para desvendar a corrupção, nem enviam correspondentes a zonas de guerra, diz CEO da News Media Alliance, David Chavern. “Não empregam repórteres. Não mexem nos arquivos públicos para desvendar a corrupção, nem enviam correspondentes a zonas de guerra, diz CEO da News Media Alliance, David Chavern.

Mídia americana protesta contra duopólio e se une para negociar com Google e Facebook

Empresas jornalísticas dos Estados Unidos e do Canadá advertiram nesta segunda-feira (10) sobre o "duopólio" formado por Google e Facebook e pediram ao Congresso americano autorização para negociarem, juntas, com os dois gigantes da internet, que usam e distribuem o conteúdo criado pelas companhias de mídia sem qualquer contrapartida. Os publishers alertaram que, no atual modelo, Google e Facebook se beneficiam do conteúdo de qualidade produzido pelas companhias jornalísticas, sem arcar com os custos elevados envolvidos nesse processo, e ainda lucram com as receitas de publicidade, que não são repassadas às corporações de mídia.


O movimento das empresas jornalísticas foi feito por meio da News Media Alliance. A organização, que reúne quase 2 mil empresas de mídia dos Estados Unidos e Canadá, incluindo os jornais The New York Times, The Wall Street Journal e The Washington Post, foi ao Congresso americano pleitear uma espécie de isenção limitada de uma lei antitruste do país. O objetivo é unir forças para ajudar a equilibrar a disputa entre os dois campos, uma vez que, no entendimento dos publishers, “as empresas de notícias são limitadas por um poder de negociação desagregado contra um duopólio de fato”.

A News Media Alliance, antes chamada Newspaper Association of America, sustenta que esse duopólio força as empresas jornalísticas a entregarem o que produzem e a seguirem as regras de Google e Facebook sobre como a informação deve ser apresentada, e até monetizada. Segundo a organização, essas regras transformaram as notícias em commodities e originaram notícias falsas, que geralmente não podem ser diferenciadas das notícias reais. A News Media Alliance argumenta que as leis antitruste visam a limitar os danos causados por empresas com posição de monopólio, mas que, no caso das empresas de comunicação, as leis existentes têm a consequência não intencional de evitar que essas corporações trabalhem juntas para obter melhores acordos.

Valor econômico distorcido

O presidente da News Media Alliance, David Chavern, disse que as plataformas digitais "distorcem o valor econômico obtido fazendo bom jornalismo". O executivo afirmou que Google e Facebook ficam com mais de 70% dos US$ 73 bilhões gastos anualmente em publicidade na web. "Mas os dois gigantes digitais não empregam repórteres. Não mexem nos arquivos públicos para desvendar a corrupção, nem enviam correspondentes a zonas de guerra, nem aos jogos à noite", disse. "Eles esperam que a economicamente penosa indústria de notícias faça esse trabalho por eles", acrescentou.

Uma legislação que permita as empresas de comunicação negociarem coletivamente, reforçou Chavern, vai tratar de questões disseminadas que hoje reduzem a saúde e a qualidade gerais da indústria de notícias. “Jornalismo de qualidade é fundamental para sustentar a democracia e é central para a sociedade. Para garantir que tal jornalismo tenha futuro, as empresas de comunicação que o fundam devem ser capazes de negociar coletivamente com as plataformas digitais que efetivamente controlam a distribuição e o acesso do público na era digital”, acrescentou.

Google e Facebook podem "não consertar o que quebraram”

É fácil ver o porquê publishers querem se unir e negociar como só fossem apenas um, analisa o jornalista e escritor Alexis Madrigal, editor no jornal The Atlantic e autor do livro Powering the Dream: The History and Promise of Green Technology. “O Facebook e o Google continuam obter o que querem dos meios de comunicação – conteúdo para agitar a News Feed e garantir resultados de pesquisas cada vez atualizados – enquanto absorvem todos os lucros publicitários disponíveis. Este é um jogo em que o distribuidor [Google e Facebook] fica com todo o bolo, e as organizações de notícias podem apenas sobreviver dos restos que podem cair no chão”, compara.

Em texto publicado nesta segunda-feira (10), Madrigal detalha o como funcionam as distorções de um ecossistema favorável ao duopólio e que podem ser tão prejudiciais às sociedades. Neste ambiente, afirma, a imprensa nunca foi tão necessária nem tão ameaçada. “Os jornais provavelmente não receberão a ajuda de que precisam do Congresso. E, mesmo que o consigam, estão em uma posição fraca em relação aos dois guardiões de informação mais poderosos que o mundo já conheceu”, lamenta.

Além disso, Madrigal levanta dúvidas sobre a possibilidade de modificar o modelo de negócio estabelecido na web, tão favorável ao duopólio formado pelas duas empresas norte-americanas. “A boa notícia é que o Facebook e o Google (...) podem, finalmente, querer ajudar o negócio do jornalismo. A má notícia é que, neste momento, essas duas empresas podem não consertar o que elas quebraram”.

Na União Europeia

Em uma tentativa de compensar um pouco a diferença de forças entre os dois lados dessa relação, o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, apresentou, em setembro de 2016, propostas para reformar o mercado digital da União Europeia. Uma delas envolve a divisão de receitas entre empresas de internet e quem detém o copyright do conteúdo. O projeto ainda precisa ser discutido pelo Parlamento Europeu.

Leia mais em:

https://oglobo.globo.com/economia/midia-americana-se-une-para-negociar-com-google-facebook-21575390

https://www.wsj.com/article_email/how-antitrust-undermines-press-freedom-1499638532-lMyQjAxMTE3MzAzOTkwNjk1Wj/

https://www.theatlantic.com/author/alexis-madrigal/

https://economia.uol.com.br/noticias/efe/2017/07/10/imprensa-dos-eua-quer-negociar-coletivamente-com-google-e-facebook.htm

https://www.theguardian.com/media/2017/jul/10/news-media-alliance-targets-facebook-and-google-in-fight-against-fake-news