Defesa de Zuckerberg à livre expressão é apenas estratégia de negócios, criticam analistas de mídia Reprodução/The New York Times

Defesa de Zuckerberg à livre expressão é apenas estratégia de negócios, criticam analistas de mídia

As afirmações do CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, em defesa da liberdade de expressão, na quinta-feira (17), receberam críticas de vários analistas de mídia. Segundo os especialistas, o bilionário apenas repete a tática de usar valores da democracia para não apenas justificar as aberrações promovidas por sua rede social, entre elas a desinformação e o discurso de ódio que muitas vezes resultam em real e extremada violência e, de forma contraditória, na censura por parte de muitos governos, mas também criar um ambiente de ideias que fortalecem a lógica do modelo de negócios do Facebook – sustentado pela propagada dirigida a bilhões de usuários, incluindo os dos aplicativos Instagram e WhatsApp, dos quais a equipe de Zuckerberg coleta os dados necessários para a eficácia publicitária e direciona conteúdo com o objetivo de manter em constante ascendência o engajamento da audiência.   

Zuckerberg, que tem sido criticado nos últimos dias por ter tomado a decisão de não banir de suas plataformas anúncios políticos com desinformação e todos os tipos de falsidade, escolheu falar sobe liberdade de expressão em discurso na Universidade de Georgetown, em Washington D.C.. Fez o mesmo ao conceder entrevista ao jornal The Washington Post. “Não acho que as pessoas querem viver num mundo onde você só podem dizer coisas que as empresas de tecnologia determinam que são 100% verdadeiras”, disse. “Acho que essas são tensões com as quais temos que conviver, afirmou o bilionário, para quem suas plataformas garantem “voz” às pessoas. "Dar voz a mais pessoas dá poder aos mais fracos e pressiona a sociedade a melhorar com o tempo".

Siva Vaidhyanathan, professor de estudos de mídia na Universidade da Virgínia, escreveu em sua coluna no jornal The Guardian que Zuckerberg seria mais justo se reconhecesse sua incapacidade de julgar se são verdadeiras ou falsas as alegações de anúncios políticos. “Considerando apenas a publicidade política nos Estados Unidos, o Facebook teria que patrulhar centenas de milhares de anúncios para eleições em todos os níveis do governo. Não pode fazer isso. Ninguém poderia”.

Vaidhyanatha, autor do livro “Antisocial Media: How Facebook Disconnects Us and Undermines Democracy” (Rede Antissocial: Como o Facebook nos desconecta e afeta a democracia), disse ainda que as alegações de Zuckerberg ocultam que o Facebook “é excepcionalmente poderoso – estruturando o mundo social e de conhecimento de quase 2,5 bilhões de pessoas – e “espetacularmente inconsistente (se não incompetente) em aplicar suas próprias políticas”.

Zuckerberg, destacou Vaidhyanathan, omite os atributos tóxicos de sua empresa, enquanto se vangloria dos efeitos esclarecedores da disseminação de conhecimento e informação, que são característica da internet livre, e não do Facebook, como o bilionário procura mostrar.

A escala de 2,4 bilhões de pessoas carregando conteúdo em mais de 150 idiomas torna muito difícil filtrar o que é publicado no Facebook. “Seu design algorítmico que amplia o conteúdo para atrair atenção e interação (cliques, compartilhamentos, curtidas, comentários) favorece o extremismo e emoções poderosas sobre a expressão racional e medida”, destacou Vaidhyanathan. “E o sistema de publicidade barato e eficaz é monumentalmente lucrativo e, portanto, mata outras fontes de boas informações da receita necessária”.

Manipulação e não voz

Ao sustentar como, no seu entendimento, o Facebook dá voz às pessoas, Zuckerber disse que "as pessoas que agora têm o poder de se expressar em escala são um novo tipo de força no mundo – um Quinto Estado, ao lado de outras estruturas de poder da sociedade". O bilionário afirmou, por exemplo, que o movimento Black Lives Matter. com origem na comunidade afro-americana, começou no Facebook. “Sim. Mas também quase morreu lá.(...) Como o estudioso da internet Zeynep Tufekci explicou, o sistema algorítmico do Facebook reprimiu #BlackLivesMatter e outros movimentos ativistas”, lembrou Vaidhyanathan.

As declarações de Zuckerberg foram rebatidas por ativistas e líderes de várias organizações de direitos civis dos Estados Unidos. Bernice King, filha de para Martin Luther King Jr., foi ao Twitter para criticar o bilionário. "Eu ouvi o discurso de 'liberdade de expressão' de Mark Zuckerberg, no qual ele se referiu a meu pai. Gostaria de ajudar o Facebook a entender melhor os desafios que o #MLK enfrentou nas campanhas de desinformação lançadas pelos políticos. Essas campanhas criaram uma atmosfera para o assassinato dele”, escreveu. "Os seres humanos têm vozes, estejam ou não no Facebook. O que o Facebook fez por seus 2,4 bilhões de usuários não é dar voz a eles, mas dar a eles acesso a um público – e manipular e moldar a aparência desse público por meio de algoritmos obscuros que são ajustados para maximizar os comportamentos escolhidos pelo Facebook”, criticou a jornalista Julia Carrie Wong, do The Guardian.

Na mesma linha, Jillian C. York, diretor fda International Freedom of Expression, disse que Zuckerberg poderia, ao invés de insistir no discurso vazio, ter reconsiderado o uso cada vez maior da inteligência artificial no julgamento do discurso de ódio, dado seu impacto claramente negativo nos usuários LGBTQ.  “Poderia ter escutado mais de perto as mulheres, bem como as comunidades artísticas do Facebook que protestaram contra a proibição da empresa à exposição de ‘mamilos femininos’, discriminatória e desatualizada”.

Zuckerberg também comparou sua empresa a companhia chinesa TikTok, quando mencionou medir o danos reais nas tentativas de definir discurso perigoso. “Acredito que temos duas responsabilidades: remover o conteúdo quando ele puder causar um perigo real da maneira mais eficaz possível e lutar para manter a mais ampla definição de liberdade de expressão possível (...) e não permitir a definição de o que é considerado perigoso expandir além do que é absolutamente necessário ... [é] com isso que estou comprometido”, disse “Se ele realmente acredita no que está dizendo, é hora de ouvir advogados de livre expressão e reconhecer que, até o Facebook mudar suas políticas, são apenas palavras vazias”, afirmou York.

Falta de pluralidade

Zuckerberg, de acordo com Vaidhyanathan, quer que as pessoas acreditem que é preciso ser a favor ou contra a liberdade de expressão sem nuances, complexidade ou especificidade cultural, apesar de administrar uma empresa afogada em complexidade. “Ele quer que nossas discussões sejam abstratas e idealistas. Ele quer que não olhemos de perto para o próprio Facebook”.

O fato é que uma democracia próspera precisa mais do que motivação, capacidade de encontrar e organizar pessoas com ideias semelhantes, disse Vaidhyanathan. “As democracias também precisam de deliberação. Deixamos decair as instituições que fomentam a discussão entre pessoas bem informadas e com ideias diferentes. Em breve, tudo o que resta será o Facebook. Veja Mianmar para ver como isso funciona”, alertou Vaidhyanathan.

Leia mais em:

https://techcrunch.com/2019/10/17/zuckerberg-speech/

https://www.vice.com/en_us/article/xwk9zd/how-facebook-content-moderation-works 

https://www.theguardian.com/global/2019/oct/17/zuckerberg-mlk-frederick-douglass-facebook

https://www.washingtonpost.com/technology/2019/10/17/facebook-ceo-mark-zuckerberg-says-interview-he-fears-erosion-truth-defends-allowing-politicians-lie-ads/

https://www.theguardian.com/commentisfree/2019/oct/18/mark-zuckerberg-free-speech-21st-century