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Facebook e Twitter construíram uma fortaleza que impede o acesso de seus parceiros de pesquisa à informação, diz especialista Reprodução

Facebook e Twitter construíram uma fortaleza que impede o acesso de seus parceiros de pesquisa à informação, diz especialista

Após a revelação do escândalo da Cambridge Analytica, em março de 2018, envolvendo o vazamento de dados de 90 milhões de usuários do Facebook, a maior rede social do mundo anunciou uma série de medidas de proteção às informações de seus clientes. O Twitter, que também enfrentou problemas com invasão de privacidade, fez o mesmo. Entre as iniciativas de ambas as empresas, estão projetos ambiciosos como a parceria de equipes de estudiosos para analisar o problema da desinformação. Quase dois anos depois, entretanto, relata Mathew Ingram, editor-chefe da área digital do site Columbia Journalism Review (CJR), vários pesquisadores afirmam que “o único resultado tangível desses empreendimentos foram os press releases”. Na prática, avalia o jornalista, Facebook e Twitter, construíram uma fortaleza.

Alguns participantes dos projetos de pesquisa, conta Ingram, desistiram após não conseguirem acessar as informações de que precisam. "Ainda não consigo acessar a API do arquivo de anúncios e fiz um pedido há um mês", disse Jennifer Stromer-Galley, professora da Syracuse University, em entrevista a Ingram sobre a interface do programa de aplicativos do banco de dados de publicidade do Facebook, o que geralmente é necessário para qualquer análise significativa.

Nem mesmo a nova diretriz de proteção de dados da União Europeia (GDPR), que entrou em vigor em maio de 2018, seria motivo para sonegar informação aos pesquisadores. O regramento exige que as plataformas tecnológicas garantam a privacidade de seus usuários e obtenham consentimento antes de compartilhar informações pessoais, mas não impede que as empresas forneçam dados que não expõem a identidade de um usuário. Mesmo assim, afirma Ingram, o Facebook tem sido mais cauteloso com pesquisadores do que com anunciantes. “Eu entendo que todas as empresas de tecnologia são tímidas por causa da Cambridge Analytica e GDPR”, diz Stromer-Galley, “mas elas estão dando acesso a dados para empresas que estão lucrando com o Facebook, e não me concedeu o mesmo tipo de acesso".

O Twitter, por sua vez, anunciou financiamento para pesquisas para melhorar "a saúde coletiva, a abertura e a civilidade do diálogo em nosso serviço" e prometeu que os participantes colaborariam diretamente com a equipe da empresa. A companhia informou ainda que a ideia era produzir “artigos de pesquisa revisados por pares, acessíveis ao público e software de código aberto sempre que possível”. Entre duzentas e trinta propostas, foram escolhidas duas equipes de pesquisa, uma da Holanda e outra baseada na Universidade de Oxford, destaca Ingram.

Em março deste ano, porém, uma das equipes, liderada por dois professores de Oxford, Dr. Miles Hewstone e John Gallacher, e Marc Heerdink, da Universidade de Amsterdã, desistiram do projeto pela não terem conseguido de chegar a um acordo com o Twitter sobre como receber os dados que eles precisavam. Um porta-voz do Twitter confirmou ao jornalista do site Columbia Journalism Review que a equipe restante, baseada na Universidade de Leiden, também ainda não recebeu nenhum dado.

“Não fá dúvida de que automatizar a liberação de informações pessoais de vastas redes é um campo minado legal e ético. Mas, neste momento, os projetos no Twitter e no Facebook são bons apenas para relações públicas”, assinala Ingram.

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https://www.cjr.org/special_report/silicon-valley-cambridge-analytica.php