Jornalismo tem de mudar para vencer as notícias falsas, diz analista de mídia britânica Phil Harding Reprodução

Jornalismo tem de mudar para vencer as notícias falsas, diz analista de mídia britânica Phil Harding

Após um 2016 em que as meias-verdades se transformaram em mentiras corriqueiras e descaradas, em especial dos agentes políticos, muitos jornalistas e organizações de mídia permanecem inseguros sobre como devem combater a profusão de notícias falsas e cobrir pessoas poderosas que mentem. Em texto publicado pelo site britânico especializado Journalism, o jornalista, escritor e analista de mídia do Reino Unido, Phil Harding, ex-diretor de Política Editorial da BBC, detalha o atual cenário do fenômeno conhecido como pós-verdade e diz que é preciso mudar para que o jornalismo possa combater as falsidades. Harding esmiúça as principais frentes que podem ajudar jornalistas e empresas a vencer esse desafio, incluindo verificação de fatos; filtros às notícias falsas (nas mídias sociais e, também, nas companhias que produzem conteúdo); mudanças nos motores de busca na internet; coberturas jornalísticas mais próximas das pessoas; defesa dos princípios democráticos; e alfabetização midiática. Abaixo, um resumo do que sugere o jornalista.

Verificação de fatos

Está no centro do combate às mentiras, e passa necessariamente em como fazer esse trabalho. Existem cerca de 114 equipes dedicadas à verificação de fatos operando em 47 países em todo o mundo. Mas muitas vezes a verificação de fatos opera dentro das redações. Para serem eficazes, as checagens devem integrar o cotidiano das equipes que produzem notícias. A verificação de fatos também precisa ser ousada e franca, feita em tempo real ou tão próxima quanto possível.

Mentiras e falsas verdades

A mídia britânica precisa ser muito mais ousada e divertida ao apontar falsidades e mentiras oficiais. Precisa espelhar-se um pouco no atual momento da mídia norte-americana, que, depois das falhas da cobertura da campanha presidencial, parece ter conseguido encontrar um caminho para denunciar as mentiras ditas por agentes públicos.

Notícias falsas: mídias sociais e imprensa

As mídias sociais estão desempenhando um papel crescente nas eleições e campanhas políticas. A fabricação deliberada de notícias para divertir ou enganar não é novidade. Mas a velocidade e a forma como funcionam as mídias sociais significam, muitas vezes, que a mentira se estabeleça como verdade antes que alguém possa pensar em desafiá-la. Google e Facebook não têm mais como negar a responsabilidade editorial pelo conteúdo que hospedam, sob pena de serem reguladas.

A mídia em geral também tem uma responsabilidade aqui. Seduzidos pela perspectiva de uma manchete sensacional, pode ser muito fácil para um repórter ou editor divulgarem uma história quando eles suspeitam ou sabem que ela vem de uma fonte não confiável. Por isso, a descrição do contexto e o idioma que envolve esses relatos, por exemplo. são importantes.

Motores de busca

Abusam de algoritmos secretos e complexos para determinar o ranking das notícias. Parece que os motores de busca terão que trabalhar muito mais para garantir que o consumidor possa distinguir o real e o falso. Caso contrário, novamente, surge a perspectiva de regulação.
Cobertura jornalística

Jornalistas de ambos os lados do Atlântico precisam passar menos tempo conversando com eles e mais tempo saindo e ouvindo o público. Há muito pensamento de grupo. A mídia não percebeu uma boa parte da ira que os eleitores estavam sentindo porque não gastou tempo suficiente gastando sapatos. Os jornais investem muito em colunistas concorrentes e não são capazes para enviar repórteres para fora da redação. Há muito jornalismo de desktop. Além disso, mais de 6.500 empregos no jornalismo regional desapareceram desde 2006.

Jornalismo e democracia

O funcionamento efetivo de uma democracia depende crucialmente de poder dar ao eleitorado informações confiáveis suficientes para que ele possa fazer uma escolha. Isso, por sua vez, depende de consenso suficiente sobre os fatos básicos para que se estabeleça uma linha de debate. Quando os políticos fomentam a desinformação e os cidadãos ficam desinformados, a democracia vacila. A mídia pode e deve desempenhar um papel vital no relato dos fatos e na denúncia das mentiras. Mas precisa fazer um trabalho muito melhor do que fez até agora.

Alfabetização midiática

Com cada vez mais fontes de notícias, todos nós, mas particularmente as gerações mais jovens, precisamos de ajuda para dar sentido à surpreendente variedade de informações oferecidas e nos permitir entender o que são fatos e falsificações. Uma pesquisa recente para Channel 4 sugeriu que 96% dos britânicos têm dificuldade em distinguir notícias falsas de relatos verdadeiros. A alfabetização midiática é um assunto muito falado, mas é onde tragicamente muito pouco foi feito. A ideia parece mais importante do que nunca. Um programa adequado de alfabetização em mídia digital, juntamente com a alfabetização cívica ativa, poderia ser uma grande parte da resposta a muitos dos riscos de notícias falsas e sem a necessidade de regulamentação restritiva e dispendiosa.

Leia aqui o texto na íntegra.