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Valores democráticos como a liberdade de imprensa estão em queda no Brasil, diz pesquisa

Valores democráticos como a liberdade de imprensa estão em queda no Brasil, diz pesquisa

A crença dos brasileiros em relação a alguns dos principais valores da democracia recuou entre 2015 e 2019, revela pesquisa divulgada nesta quinta-feira (27) pelo Pew Research Center. O estudo, que de forma global mostra um enfraquecimento no comprometimento dos ideais democráticos – ainda que eles permaneçam populares –, indica, por exemplo, queda de sete pontos percentuais no apoio dos entrevistados a eleições livres e imparciais (de 71%, em 2015, para 64% no ano passado). O estudo identificou ainda queda de 11 pontos percentuais no apoio à liberdade de imprensa. Em 2015, 71% dos entrevistados disseram considerar muito importante que a imprensa possa reportar as notícias sem sofrer censura. Agora, o índice é de 60%.

A queda entre os brasileiros do apoio à liberdade de imprensa, a maior entre os países pesquisados, contrasta com a forte elevação verificada em algumas regiões. Nos Estados Unidos, a porcentagem de pessoas que disseram que a liberdade de imprensa é muito importante aumentou 13 pontos percentuais entre 2015 e 2019. No entanto, esse aumento ocorreu principalmente entre democratas e independentes de tendência democrática, passando de 64% para 85%. Entre republicanos e independentes republicanos, ele permaneceu praticamente inalterado (72% a 77%).

Em um recorte de tempo menor, entre 2018 e 2019, entretanto, o estudo mostra que a insatisfação dos brasileiros com a democracia também reduziu, neste caso em 27 pontos percentuais (de 83%, em 2018, para 56% no ano passado, contra apenas 44% satisfeitos). A pesquisa não traz mais detalhes sobre esse fenômeno, mas um dos seus autores, Richard Wike, diretor do setor de Pesquisas de Atitudes Globais do Pew Research Center, sugere em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo que o recuo possa estar associado ao período eleitoral.

"Algumas vezes, vemos que a insatisfação com a democracia diminui logo após uma eleição, o que foi o caso do Brasil", disse Wike ao jornal paulista. "No país, a insatisfação caiu ao longo de todo o espectro ideológico, mas o declínio foi especialmente acentuado entre pessoas que se identificam como de direita", afirmou na mesma entrevista. O estudo traz um dado que reforça a análise do diretor do setor de Pesquisas de Atitudes Globais do Pew Research Center: a outra grande queda no índice de insatisfação com a democracia no mesmo período vem do México (29 pontos percentuais), que também teve eleição nacional em 2018.

Mas se os brasileiros estão menos insatisfeitos com a democracia, revelam uma preocupante tendência ao autoritarismo, segundo o estudo. Apenas 36% dos entrevistados no país afirmaram defender que partidos de oposição possam atuar de forma livre, enquanto a média global de 54% a favor da livre atuação das oposições.

Há, segundo o estudo, uma insatisfação considerável com o modo como a democracia está funcionando em muitos países. Nas nações pesquisadas, a média é de 52% de insatisfação, enquanto 44% dos entrevistados afirmam estarem satisfeitos.

A pesquisa destaca que um dos indicadores que revela o desgaste global da democracia é o alto índice de entrevistados (64%) que disseram não acreditar que as autoridades eleitas se importem a população. No Brasil este índice é de 67%. O estudo indica que essa opinião é particularmente difundida na Europa – média de 69%. Além disso, 71% compartilham dessa visão nos Estados.

Por outro lado, poucos dizem isso nas três economias emergentes asiáticas incluídas no estudo: Índia (31%), Filipinas (29%) e Indonésia (18%). “Em quase todos os países pesquisados, aqueles que pensam que os políticos não se importam com os cidadãos comuns têm maior probabilidade de ficar insatisfeitos com o funcionamento da democracia em seu país”, assinala o estudo.

Maior insatisfação em 25 anos

Ao indicar desgaste nos princípios democráticos, a pesquisa do Pew Research Center – que entrevistou 38.426 pessoas em 34 países, de 13 de maio a 2 de outubro de 2019 –, reproduz em parte o que foi encontrado por outro estudo divulgado em janeiro: a mais recente edição do "Global satisfaction with democracy", da Universidade de Cambridge. Segundo o relatório, mais da metade da população do mundo está insatisfeita com o sistema democrático, atingindo o nível mais alto em 25 anos, desde que a série passou a ser realizada, informou o jornal O Globo.

O índice de insatisfação, verificado em 154 países, aumentou quase 10% desde a década de 90, tendo alcançado a marca recorde de 57,5% no ano passado, aponta o relatório. Entre as razões indicadas estão a crise econômica de 2008, a crise de refugiados, a polarização política e a falta de resposta dos governos para problemas econômicos e sociais.

Em democracias mais populosas, o índice de insatisfação é ainda maior, dizem os pesquisadores. No Brasil, por exemplo, menos de 20% das pessoas estão satisfeitas com o regime político. Estados Unidos, Nigéria e México também encabeçam a lista.

“Se a confiança na democracia está diminuindo, é porque as instituições democráticas fracassaram em lidar com algumas das principais crises de nossa era, desde colapsos econômicos até a ameaça do aquecimento global”, disse Roberto Foa, um dos autores da pesquisa, à BBC.

Leia mais em:

https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/02/satisfacao-com-democracia-aumenta-no-brasil-e-apoio-a-liberdade-de-imprensa-cai-diz-estudo.shtml

https://www.pewresearch.org/global/2020/02/27/democratic-rights-popular-globally-but-commitment-to-them-not-always-strong/

https://oglobo.globo.com/mundo/nivel-de-satisfacao-com-democracia-no-mundo-o-menor-das-ultimas-decadas-aponta-pesquisa-24218105