Gazeta do Povo extingue edição impressa diária e aposta na produção e distribuição de conteúdo pago e mobile

O jornal Gazeta do Povo, do Grupo Paranaense de Comunicação (GRPCOM), anunciou nesta quinta-feira (06) a mais ousada transformação de modelo de negócios da indústria de notícias do Brasil. O projeto, que exigiu muita pesquisa e investimentos de R$ 23 milhões nos últimos três anos, tem foco na inovação, na tecnologia com ênfase na distribuição de conteúdos pagos em equipamentos móveis (como smartphones, especialmente, e tablets) e no jornalismo de impacto social, ainda mais qualificado e atraente. Aos anunciantes, o diário também oferecerá vantagens, por meio de espaços premium e segurança no ambiente online – o veículo do Paraná vai incrementar as iniciativas de seu núcleo especializado em branded content e em publicidade customizada.

Na prática, a partir do fim de abril, a Gazeta do Povo será o primeiro jornal brasileiro produzido originalmente para plataformas móveis (responsivo a desktops e outra plataformas, numa inversão da lógica online atual), no conceito mobile first e a partir de um novo site totalmente reformulado. Ao mesmo tempo, terá como diretriz o jornalismo de maior qualidade e de impacto social – disponível 24 horas por dia e sete dias por semana no meio online e na versão impressa, que em junho passa a circular somente aos sábados, em edição especial de fim de semana. O modelo de receitas será o subscriptions first, em que as assinaturas digitais são a principal fonte de recursos (a previsão do veículo é chegar a 300 mil assinantes digitais até 2019, com quase a metade em Curitiba e o restante, no interior do Paraná ou em outros estados).

A expectativa do GRPCOM é encontrar rentabilidade a partir do equilíbrio entre a maior base de assinaturas digitais e o menor custo com impressão e distribuição da versão em papel, além da queda na arrecadação com publicidade, um fenômeno mundial. Guilherme Döring Cunha Pereira, presidente executivo da empresa, disse ao jornal ANJ online que o modelo adotado pela Gazeta do Povo é resultado de um detalhado monitoramento feito ao longo de três anos que apontou o caminho e o “timing” certo para as transformações agora promovidas, dentro da realidade específica do jornal paranaense. “Não se trata de uma receita mágica. O modelo certamente vai variar de jornal para jornal. No nosso caso, chegamos a conclusão que era o momento ideal para promover essa transformação, com base no conteúdo de qualidade e muita inovação, priorizando o mobile”, explicou Pereira.

O estudo elaborado pelo GRPCOM concluiu que, na Gazeta do Povo, a margem de lucro da versão impressa, que carrega os pesos de produção gráfica e da logística de circulação, caiu e distanciou-se demais do digital. Ao mesmo tempo, a circulação das edições em papel manteve curva decrescente, enquanto as assinaturas digitais dispararam, em especial nos últimos meses de 2016. Segundo o Instituto Verificador de Circulação (IVC), a distribuição média da versão impressa recuou 22,8% entre dezembro de 2015 e o último mês de 2016. No mesmo período, o número de assinantes digitais do jornal subiu 92,5%. “Acompanhamos o crescimento de leitura no digital, sobretudo no celular. No nosso caso, crescemos 89% no online em dois anos”, disse mais cedo, ao portal Comunique-se, o presidente executivo do GRPCOM.

Pereira informou que, atualmente, o diário tem cerca de 45 mil assinaturas que dão ao leitor acesso às edições em papel e online. No entanto, a partir do começo do segundo semestre do ano passado, a curva ascendente de assinaturas digitais tomou maior impulso, por conta do esforço comercial do jornal e pelo bem-sucedido Clube Gazeta, que dá descontos aos assinantes. Hoje, o grupo de leitores pagantes apenas no meio online conta com quase 17 mil pessoas. “As migrações de modelos econômicos sempre são difíceis, mas nós estamos arrancando com margem expressiva, praticamente com o resultado anterior. Ainda não equacionados, é verdade”, comentou o presidente do GRPCOM.

Financiamento de jornalismo que faz diferença na vida das pessoas

No fundo, salientou Pereira, a partir do investimento em excelência no jornalismo, na tecnologia e na prestação de serviços aos leitores, a empresa acredita não estar mais dependente de uma plataforma específica. “Se houver margem positiva no papel, de extrema importância para a indústria jornalística, então não há motivo para não investir nele”, exemplificou, lembrando que o grupo vai manter e melhorar as versões impressas da edição de fim de semana da Gazeta do Povo e de suas três revistas, Bom Gourmet, Haus e Viver Bem. No caso das publicações em papel, o presidente executivo do GRPCOM ressaltou que esses são produtos que devem atender muito bem aos anunciantes, repetindo o que ocorreu quando jornal unificou suas edições de sábado e domingo.

No modelo anunciado hoje, há três combos de assinatura para quem está em Curitiba. O valor da edição digital com direito a todos os conteúdos é de R$ 24,90 mensais. Com mais R$ 10, o assinante receberá em casa a edição impressa de fim de semana e as três outras publicações. A participação no Clube Gazeta também tem o custo de mais R$ 10 ao mês. No interior ou em outros estados, onde não haverá circulação das edições impressas e o sistema de vantagens a assinantes ainda não está presente, as assinaturas mensais têm o preço de R$ 9,90.

Pereira assinalou que a estratégia do jornal baseia-se em levar ao leitor – onde ele estiver, pelo celular – notícias de credibilidade em um ambiente onde se difundem amplamente as notícias falsas. “Acreditamos que o leitor da Gazeta valoriza a informação de credibilidade e isso será a base para que ampliemos o nosso universo de assinantes”, disse. “Queremos demonstrar ao assinante que ele financia um jornalismo sério, confiável e que faz a diferença na vida das pessoas”, enfatiza. Em relação aos anunciantes, o presidente executivo do GRPCOM disse que o jornal investirá no modelo premium, no seu núcleo de branded content e na lógica programática, esta última amparada por regras que protejam as marcas, inclusive em ações futuras ao lado de outros grandes jornais.

Redação mais ágil e conteúdos interativos

A transformação da Gazeta do Povo representa inovação na redação e forma como os conteúdos chegarão aos leitores. “Na lógica de produção mobile first, tudo o que planejamos nós entregamos pensando em como o leitor vai acessar esse conteúdo: no celular, no tablet ou no computador”, afirmou o diretor de redação da Gazeta do Povo, Leonardo Mendes Junior. “Vamos manter a diversidade de vozes e o pluralismo, contribuindo para o bom debate”.

A produção editorial da Gazeta do Povo também será georreferenciada. De acordo com o GRPCOM, a entrega do noticiário, análises, colunas e blogs será direcionada conforme os interesses de seus leitores e o local em que estejam, seja em Curitiba, no restante do Paraná ou em qualquer lugar do Brasil. A nova plataforma foi desenhada para aumentar a velocidade de carregamento de seus conteúdos, diminuindo o consumo de dados a facilitando a experiência do leitor. O jornal também implementará um sistema em que seus assinantes poderão ver quais foram os conteúdos acessados por suas redes de contatos e qual tipo de interação ocorreu.

Na web, a informação será atualizada continuamente, mas com aprofundamento três vezes ao dia nas edições virtuais Gazeta do Povo Bom Dia, Boa Tarde e Boa Noite, com desdobramentos e análises dos fatos. Além disso, as reportagens serão enriquecidas com o uso de imagens, vídeos e gráficos, além de podcasts.

Além disso, ao dar ênfase ao jornalismo de impacto social, a Gazeta do Povo, conforme informou o Comunique-se, acompanhará os desdobramentos das reportagens noticiadas, incluindo a verificação dos outros veículos que se pautaram pelo jornal, decisões políticas que foram tomadas após alguma denúncia publicada e a ressonância de determinado material nas redes sociais. Para colocar em prática essa diretriz, será utilizada metodologia desenvolvida pelo Marshall Projetc, site americano voltado a assuntos sobre justiça criminal.

Do celular para o celular

A lógica mobile estará presente até mesmo produção de notícias. Os jornalistas da Gazeta do Povo poderão escrever suas matérias e publicá-las na plataforma digital do jornal a partir de seus dispositivos móveis. Isso será possível por meio do aplicativo desenvolvido pela Eidos, líder global em soluções de publicação online, que permite ao jornalista produzir não só textos, mas também fotos, vídeos e lives. “O responsivo passa a ser o nosso foco. O jornalista não precisará mais estar na redação para divulgar o seu conteúdo. Isso vai permitir que o repórter esteja mais na rua, apure e divulgue informações de onde estiver”, afirmou Pereira ao Comunique-se. “Hoje, 90% dos brasileiros consomem notícia por meio de dispositivos móveis. Estamos respondendo a essa demanda, que acreditamos ser não o futuro, mas o presente do jornalismo”, acrescenta Ana Amélia Filizola, diretora da Unidade de Jornais do GRPCOM.

Temas aprofundados

A nova publicação semanal, por sua vez, em formato de revista, terá mais páginas de conteúdo, será impressa em papel de qualidade superior, com páginas grampeadas, e será recheada de conteúdos locais, nacionais e globais tratados de forma aprofundada, com análise e opinião. Entre os novos colunistas estão Ricardo Amorim, Teco Medina, Leandro Narloch, Rodrigo Constantino, Lúcio Vaz e Evandro Éboli. Serão mantidas as colunas de Luís Fernando Veríssimo, Rogério Galindo e Demétrio Magnoli. As revistas Haus e Bom Gourmet, como frisou Pereira, continuam com versões impressas.

“Não estamos apostando num jornalismo unicamente factual, mas também em algo que ajude o leitor a compreender melhor a situação, com uma reorganização de editorias e maior aproveitamento de conteúdo, focando na compreensão de tendências e de futuro, ajudando a antecipar os principais movimentos do País e do mundo”, afirmou o presidente do GRPCOM ao site especializado Meio&Mensagem.

Na redação, as editorias serão reorganizadas de editorias, informou o Comunique-se, e os jornalistas passarão a atuar em 15 grandes núcleos, com um editor à frente de cada canal: ‘República’ (André Gonçalves); ‘Nova Economia’ (Rodrigo Ghedini); ‘Livre Iniciativa’ (Fabiane Menezes); ‘Educação’ (Denise Drechsel); ‘Justiça & Direito’ (Joana Neitsch); ‘Ideias’ (Jones Rossi); ‘Política Paraná’ (Bruna Maestri Walter); ‘Curitiba’ (Marcos Xavier Vicente); ‘Esportes’ (Rodrigo Fernandes); ‘Guia’ (Gilson Garret); ‘Bom Gourmet’ (Deise Campos); ‘Haus’ (Daliane Nogueira); ‘Viver Bem’ (Katia Michele); ‘Bessa’ (Reinaldo Bessa); ‘Automóveis’ (Reniery Trovão).

“A redação tinha poucos times [editorias], mas que eram grandes. Agora, são mais grupos, só que com menos pessoas. Mais unidades de conteúdo, com poucas pessoas em cada”, contou Leonardo Mendes Júnior ao Comunique-se.

Contato direto com o assinante para a transição

Todas essas novidades, conforme a Gazeta do Povo, devem contribuir para deixar o leitor bem informado e engajado à transformação. O jornal, entretanto, fará contato direto com cada um dos seus atuais assinantes, com o objetivo de detalhar as mudanças e dirimir dúvidas, principalmente daqueles mais apegados a edição impressa. A meta é atender todos os assinantes e interessados nos próximos dois meses. Em relação aos assinantes que têm preferência pelo papel, Pereira afirmou ao Meio&Mensagem que esses leitores serão convidados a testar o novo formato.

“Esse processo de transição é uma questão geracional muito clara, então também criamos um processo para os assinantes que ainda não migraram. Montamos uma série de programas, educativos e lúdicos, para ajudar essa parcela a absorver e entender essa interatividade mobile. Sou otimista, inclusive falando com pessoas próximas, de que com um pouquinho de provocação as pessoas aderem à tecnologia.” Ao jornal ANJ online, Pereira informou que o grupo trabalha com eventuais perdas iniciais nessa etapa, talvez de 20% a 30%, pois reconhece que há leitores que, no momento, querem exclusivamente o papel. Mesmo assim, afirmou o presidente executivo do GRPCOM, a margem das assinaturas que permanecerão garante equilíbrio na operação. “Mas é nossa tarefa ir em busca de novas assinaturas e, também, de tentar convencer o retorno daqueles que podem nos deixar em um primeiro momento”.

Nova sede

O jornal paranaense prepara mais novidades. Ana Amélia Filizola anunciou, para o segundo semestre, a mudança da sede das redações do jornal, que deixam o prédio na Praça Carlos Gomes, no Centro, e o espaço da Fábrika, no Alto da XV, e passarão a ser agrupadas em um novo local, mais amplo e adequado às mudanças editoriais. “Teremos o espírito de uma startup de 100 anos”, brincou.

O jornal também lançará o novo Guia Gazeta do Povo, reunindo eventos, o melhor da programação cultural, passeios, bares e restaurantes de Curitiba e integrando-os ao Clube Gazeta do Povo, que concede descontos e vantagens em mais de 1.000 estabelecimentos comerciais. Para o leitor da web, deixam de aparecer editorias com nomes conceituais, como Vida e Cidadania, Vida Pública e Caderno G. Os conteúdos passam a ser agrupados sobre grandes temas, como política, economia e cultura, facilitando a navegação.

Repercussão

O diretor-executivo da Associação Nacional de Jornais (ANJ) Ricardo Pedreira disse que a associação vê na estratégia da Gazeta do Povo um caminho muito sólido, em uma mudança adequada às características do jornal e do mercado em que atua.

“A Gazeta do Povo está fazendo uma mudança ousada e muito consistente no seu modelo de negócio, investindo fortemente no jornalismo e na tecnologia para oferecer conteúdo ainda melhor a seus leitores e, ao mesmo tempo, priorizando as receitas oriundas das assinaturas digitais ao invés daquelas vindas da publicidade”, afirmou. “O planejamento dessa mudança foi elaborado de forma criteriosa, e a ANJ acredita que, dessa forma, o jornal poderá ser bem-sucedido na solução de uma equação imposta aos diários em todo mundo: buscar a rentabilidade perdida com a queda na publicidade a partir do conteúdo pago de alta credibilidade, da economia a ser feira com impressão e distribuição e com a garantia ao anunciante digital de que ele chegará com precisão ao seu público-alvo, a partir de anúncios premium”, concluiu Pedreira.

O presidente do Sistema Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), Edson Campagnolo, descreveu como “surpreendentes” as mudanças anunciadas pelo jornal. “Isso vai colocar a Gazeta do Povo no cerne das discussões da mídia brasileira”, disse. Parabenizando o jornal pela mudança, que classificou como “altamente relevante”, Campagnolo afirmou que a Fiep será “parceira e colaboradora” da Gazeta neste novo momento. O presidente do ISAE/FGV, Norman de Paula Arruda Filho, disse que, apesar de achar que vai sentir falta de ler o jornal impresso durante a semana, a mudança é “extraordinariamente necessária”. “É uma mudança radical na maneira de informar, de qualidade da informação, que leva em função o tempo das pessoas”, afirmou. O movimento, classificou, é “fundamental”.

O consultor e mentor de startups Allan Costa, afirmou que a Gazeta do Povo “mais uma vez deu prova de que com inteligência e sensibilidade é possível unir o digital com a necessidade do leitor por informações confiáveis e amplamente disponíveis”. Certo de que o mercado acompanhará as mudanças do jornal, Costa disse que “a iniciativa da Gazeta é sensata e coerente com o novo momento e vai gerar alta receptividade em razão de suas entregas de valor”.

Leia mais em:

http://www.gazetadopovo.com.br/economia/gazeta-apresenta-seu-novo-projeto-editorial-ao-mercado-cq2q3xmwls1i83hjdpamdoz6s

http://www.meioemensagem.com.br/home/midia/2017/04/06/gazeta-do-povo-encerra-diario-e-foca-em-mobile.html