Redação do Jornal do Commercio, de Pernambuco: na pandemia, jornalistas fecham as edições de casa Redação do Jornal do Commercio, de Pernambuco: na pandemia, jornalistas fecham as edições de casa / Divulgação

Redações vazias contrastam com coberturas completas, inovadoras e de muito serviço dos jornais brasileiros

As organizações de notícias brasileiras mudaram suas rotinas para, desde a primeira quinzena de março, oferecerem aos leitores uma cobertura completa sobre a pandemia da COVID-19 e, ao mesmo tempo, preservarem a saúde de seus colaboradores, observando as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS). Agora, enquanto o país começa a registrar mais casos de mortes e de contágio, as redações chegam ao fim desta semana com quase a totalidade dos jornalistas em teletrabalho, mesmo nos casos dos repórteres e fotógrafos que cobrem pautas que exigem a apuração e o registro dos fatos nas ruas. Pela primeira vez na história, muitos jornais e sites noticiosos fecharam suas edições com todos os profissionais de redação operando apenas em suas casas. A transformação veio acompanhada de novas experiências, que resultaram em inovadores produtos editoriais e serviços para os leitores.

Este o caso da redação integrada de Zero Hora, Diário Gaúcho, GaúchaZH e Rádio Gaúcha – veículos do Grupo RBS. Mais de 200 profissionais trabalham agora de suas casas, uma mudança que exigiu um esforço direcionado. A complexa missão de transferir a operação de rádio, jornais e digital para o trabalho remoto foi feita em conjunto pelas lideranças da redação e das áreas de tecnologia e operações do Grupo RBS, informa a empresa. O processo começou na quinta-feira (19) e foi finalizado na última terça-feira (24). No dia seguinte, a redação integrada já amanheceu completamente vazia.

Tecnologia a serviço do jornalismo

“O time da TI entendeu desde o início que a missão de viabilizar a operação remota da nossa redação era crucial para cumprirmos nosso compromisso de levar a informação para o nosso público”, diz Péricles Cenço, diretor de TI e operações do Grupo RBS. “Esse trabalho iniciou há três semanas, antes mesmo de começarmos a falar disso, e se encerrou essa semana, quando saíram as últimas pessoas. Jornalista experiente e com várias complexas coberturas do currículo, Nilson Vargas, gerente-executivo de jornalismo da organização gaúcha, diz que jamais viu algo parecido. “O duplo desafio de colocar a equipe em casa com segurança e, ao mesmo tempo, garantir a operação dos nossos veículos, que têm o papel fundamental de informar e orientar ao público, rendeu algumas horas de tensão e insônia, mas o resultado nos enche de satisfação e permite colocar foco nesta que é a mais complexa cobertura que já enfrentamos”, afirma.

Em São Paulo, as redações dos principais jornais também trabalham quase que totalmente em casa. O diário O Estado de S.Paulo, por exemplo, tem no momento 100% de sua redação no sistema de teletrabalho. Mas a cobertura sobre a pandemia do novo coronavírus, responsável pela COVID-19, foi aprofundada, resultando até em iniciativas inovadoras. Nesta semana, o jornal estreou o caderno especial “Na Quarentena”, uma espécie de guia diário para que as pessoas possam viver bem e saudável durante o período de afastamento social que faz parte do combate ao vírus.

A rotina de toda a redação tomou um formato inédito. "Trabalho no jornal desde 1990 e estou estreando esse novo jeito de trabalhar que é o home office", conta a repórter Tânia Monteiro. "É uma rotina diferente, mas que a tecnologia nos permite continuar falando com as nossas fontes, fazendo entrevistas e levando informação para a sociedade", explica o repórter Matheus Lara. Desde a semana passada, o jornal O Estado de S.Paulo criou mecanismos para que as equipes possam ser coordenadas à distância. "Acho que esse é o momento de fazermos uma reflexão até sobre o papel do jornalismo, que é muito importante e muito relevante nessa hora de crise", diz Paloma Cotes, que está trabalhando no núcleo específico de cobertura do coronavírus.

Preocupação com o cotidiano do leitor

Mudanças semelhantes acontecem nos jornais do Grupo Folha. Na Folha de S.Paulo, nove entre dez jornalistas atuam em home office no momento. Um dos destaques do jornal paulista, conforme relatou a sua Ombudsman, a jornalista Flavia Lima, em sua coluna do último domingo (22), é o tom didático, fundamental em um período de tanta tensão no país. “Há um cuidado em apresentar números e ouvir especialistas, os gráficos são atraentes e os relatos atendem a curiosidade dos leitores”, escreveu ela. No portal UOL, a redação trabalha 100% no sistema de teletrabalho. Os profissionais dos dois veículos do Grupo Folha que fazem coberturas nas ruas seguem os protocolos de segurança.

Da mesma forma que os jornais paulistas, o diário fluminense O Globo também está voltado para uma cobertura aprofundada, mas também com cuidados para manter uma comunicação didática e oferecer bem-estar aos seus leitores em tempos de quarentena. Por isso, enquanto está integrado ao serviço de serviço de checagem do Grupo Globo (‘Fato ou Fake’), agora dando prioridade à verificação de conteúdo sobre o novo vírus, o jornal também promove muita inovação para ajudar seus leitores a enfrentar um rotina de confinamento, como é o caso do guia para manter a mente saudável e da cartilha que ajuda pais e mães a oferecerem brincadeiras educativas aos filhos. Tudo isso com 95% da redação trabalhando em casa e, em breve, 100% em home office.

Planejamento garante eficácia do home office

Este foi o formato adotado também pela redação de O POVO, no Ceará. “Desde o último domingo estamos com 100% de home office. Só estamos na rua com o essencial (fotógrafos e repórteres), dentro dos protocolos de segurança”, diz o diretor-geral de jornalismo Arlen Medina Néri. Segundo ele, como tudo é muito novo para todos os envolvidos, a operação exige paciência, regras bem estabelecidas e flexibilidade.

O jornal Gazeta do Povo, do Paraná, também opera no momento com toda a redação deslocada para as casas dos profissionais. Esta também é a meta do Jornal do Commercio, de Pernambuco, e de A Gazeta, do Espírito Santo. Mais de 90% dos funcionários do diário pernambucano está atualmente em home office. O jornal capixaba, por sua vez, segue um cronograma iniciado na primeira quinzena de março, quando jornalistas e funcionários em grupo de risco para o coronavírus iniciaram o teletrabalho. Nesta semana, 80% da redação já estava trabalhando de casa.