“Cada vez que endurecemos o paywall, crescem as assinaturas”, destaca o editor do jornal The Washington Post “Cada vez que endurecemos o paywall, crescem as assinaturas”, destaca o editor do jornal The Washington Post Folha de S.Paulo

Sobrevivência do jornalismo está no modelo pago, alta qualidade e investigação, diz Baron

Em recente passagem pelo Brasil, o premiado jornalista Martin Baron, editor do jornal The Washington Post, afirmou que a sobrevivência do jornalismo está no modelo de conteúdo digital pago, com base no trabalho jornalístico de qualidade e investigativo e em muita tecnologia. Baron disse acreditar que as pessoas apoiam o jornalismo investigativo, fundamental para a conquista de assinantes. No caso do diário norte-americano de propriedade de Jeff Bezos, fundador e presidente da Amazon, o editor afirmou que o exercício de um jornalismo mais transparente e disposto a mostrar o que as pessoas “fazem” e não o que “dizem” tem contribuído para uma maior base de leitores dispostos a pagar por informação. “Cada vez que endurecemos o paywall, crescem as assinaturas”, destacou Baron em entrevista ao jornalista Rosental Calmon Alves, professor do Knight Center for Journalism in the Americas, da Universidade do Texas (EUA), no painel de encerramento do 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), no último sábado (1º).

À frente de um dos principais jornais dos Estados Unidos em meio a um contundente e sistemático ataque do presidente do país, Donald Trump, à imprensa, Baron disse que é importante aproveitar o momento para reforçar alguns dos princípios do jornalismo, segundo relato do jornal O Globo. “O governo tem que prestar contas. Não estamos em guerra contra a administração Trump, mas nosso dever é investigar e o governo é a instituição mais poderosa que existe em qualquer país. Nosso trabalho é fazer essas instituições poderosas prestarem contas à sociedade”, afirmou. A função da imprensa, sublinhou Baron, conforme a Folha de S.Paulo, já estava presente quando foi escrita a Primeira Emenda à Constituição americana, que proíbe restrições à liberdade de expressão. “Eles queriam que nós cobrássemos responsabilidade do governo.”

O editor do The Washington Post alertou para uma armadilha de Trump, que quer tornar a imprensa o “partido de oposição”. Segundo ele, “ser independente não é ser oposição”. Ele ainda assinalou, de acordo com O Globo, que os ataques da Casa Branca à imprensa empolgam os jornalistas e, ao mesmo tempo, criam muita pressão. “Vivemos um momento interessante. Ao mesmo tempo que traz muita energia aos jornalistas, há muito tempo não recebíamos tantos ataques, chamando a mídia de inimiga do povo – disse Baron, em sua palestra “A Democracia Morre na Escuridão: a relevância do jornalismo investigativo em tempos estranhos”.

Mais interesse na cobertura sobre Trump

“Trump tem sido muito hostil com a imprensa, nos chamando de lixo, de escrever notícias falsas (fake news), além de dizer que somos inimigos do povo. Ele quer nos retratar como um partido de oposição. Não podemos fazer nada, além de nosso trabalho da melhor forma possível”, lembrou o jornalista que chefiou, em 2002, a equipe do jornal Boston Globe que investigou abusos sexuais cometidos por clérigos da igreja católica. É aí que entra, na prática, a relação do boa atuação jornalística com mais audiência, inclusive disposta a pagar para ficar bem informada. O interesse pela cobertura do jornal em relação a Trump tem aumentado o número de visitantes no site do jornal, salientou Baron. Segundo ele, o The Washington Post tem hoje cerca de 80 milhões de visitantes num mês e as assinaturas cresceram ‘em milhares’ este ano.

Esses número revelam acerto do jornal que, entre outros investimentos, reforçou sua equipe de jornalistas investigativos, de 8 para 16 jornalistas. “Acho que o jornalismo investigativo é a arma do The Washington Post. Pessoas de negócio dizem que é a nossa marca, eu gosto de dizer que é a nossa alma. A alma como sendo a essência”, salientou, segundo informação do site Poder360. “O objetivo é dar respostas rápidas. As pessoas querem as informações já” afirmou o jornalista, lembrando que existem dificuldades para obter informações no governo Trump. “E hoje a forma de contar histórias mudou. Temos que usar vídeos, gráficos interativos, áudios. Hoje, as pessoas interagem com o veículo, que tem que ser mais acessível”, comentou, enfatizando a necessidade de uma narrativa própria ao meio digital e lembrando da importância do investimento em tecnologia para colocar tudo isso em prática.

Empresa de mídia, mas também de tecnologia

Baron contou que, desde a aquisição do jornal em 2013 por Bezos, houve uma radical mudança na utilização dos recursos tecnológicos. “Nós estamos nos transformando numa empresa de tecnologia, ainda que jornalística”, disse. “Tecnologia é hoje incrivelmente importante para o nosso setor [jornalismo]. E agora nós somos vendedores de tecnologia para outras empresas de mídia.” Segundo ele, além de um número maior de jornalistas investigativos, a redação cresceu em 160 jornalistas desde a chegada de Bezos, para pouco mais de 700. Ao mesmo tempo, foram contratados mais de cem engenheiros, que ajudaram a publicação a crescer na internet.

Além disso, segundo Baron, o novo dono do jornal não interfere na cobertura jornalística. “Jeff [Bezos] nos deu total independência, pelo menos na área de política. Ele não se envolve. De nenhuma maneira”, afirmou. E, por outro lado, a redação assimilou bem as necessidades financeiras do negócio de mídia na era digital. “Não somos una obra de caridade para Bezos; temos que ter um modelo sustentável”, disse Baron, segundo relato da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP).

Notícias falsas

Interrogado sobre o fenômeno das notícias falsas, o Baron destacou a relevância deixar claro o significado desse termo, para que não se caia em ambiguidade conceitual aproveitada por diversos atores, particularmente por líderes políticos como Donald Trump. “O fenômeno está relacionado à criação e distribuição deliberada de notícias falsas. Não aos erros. Nós jornalistas cometemos erros, ma tratamos de não cometê-los e corrigi-los fazendo melhor trabalho à frente”, disse. “As pessoas geralmente buscam fontes que confirmem seus pontos de vista. Em muitos casos acreditam em conteúdos que são falsos. O problema, em uma sociedade democrática que requer o debate sobre seus problemas, se dá quando não concordamos sobre quais são os fatos sobre os quais debateremos”, alertou.

Leia mais em:
http://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/07/1897740-nao-vemos-pressao-assim-desde-nixon-diz-editor-do-post-sobre-trump.shtml
https://oglobo.globo.com/brasil/papel-do-jornalismo-fazer-instituicoes-poderosas-prestarem-contas-sociedade-diz-editor-do-washington-post-21543814
https://www.poder360.com.br/midia/investigacoes-sao-importantes-para-imprensa-ter-mais-assinantes-diz-martin-baron/
http://www.sipiapa.org/notas/1211552-el-periodismo-segun-marty-baron