Facebook e publishers anunciam parceria em nova aba de notícias na rede social, mas observadores mostram ceticismo Reprodução

Facebook e publishers anunciam parceria em nova aba de notícias na rede social, mas observadores mostram ceticismo

Uma trégua incômoda. Essa é a definição dada pelo jornal The New York Times para Facebook News, nova aba de notícias lançada nesta sexta-feira (25) pela rede social de Mark Zuckerberg dedicada inteiramente ao conteúdo produzido por organizações de notícias. A nova seção, disponível no aplicativo móvel do Facebook (por enquanto somente nos Estados Unidos), oferecerá matérias de uma mistura de publicações, incluindo o próprio The New York Times, The Wall Street Journal, The Washington Post, CNN, Fox, Condé Nast, Bloomberg, além de meios digitais, como BuzzFeed, Business Insider e diversos sites locais. Todas essas empresas serão remuneradas pelo Facebook em valores que, para alguns, poderão chegar até US$ 3 milhões por ano.

Zuckerberg e muitos dos seus parceiros afirmaram hoje que o novo armistício não incorrerá nos erros dos acordos de pacificação anteriores oferecidos aos publishers pelas redes, mas muitos analistas apostam que o Facebook News repetirá os fracassos do Instant Articles e do Facebook Live basicamente porque a companhia do Vale do Silício é, no fundo, uma sofisticada versão do escorpião que na fábula pica o sapo em meio ao trajeto dos dois entre uma margem e outra de um rio. Ao contrário do aracnídeo que afunda com o anfíbio, dizem especialistas, a companhia tecnológica não pretende morrer afogada.

“Apoiar o setor (jornalístico) pode resultar em alguns elogios em meio a tantos escândalos. Mas o que não é central para a sobrevivência do Facebook nunca será central para sua estratégia. As notícias não vão pagar as contas e provavelmente não causarão uma grande mudança em sua taxa de crescimento consagrada”, diz Josh Constine, jornalista especializado em tecnologia do site TechCrunch. Portanto, continua, o Facebook “não é um aliado” dos editores de notícias. “Na melhor das hipóteses, é um amigo inconstante. E mesmo pagar milhões de dólares, o que pode parecer muito no campo do jornalismo, é uma pequena fração dos US$ 22 bilhões em lucros obtidos em 2018 pela empresa”, assinala.

No entendimento do jornalista, a nova oferta do Facebook é condicional, e é improvável que a empresa pague subsídios para sempre se a seção lançada hoje não se tornar sustentável do ponto de vista financeiro. Neste caso, os publishers poderiam retornar ao sofrimento causado pelo Facebook no passado quando incentivou os investimentos em vídeos e, depois, abandonou o projeto. Ou quando frustrou as organizações de notícias com as baixas remunerações do Instant Articles, enquanto engolia a audiência dos sites de jornais. Depois de tudo isso, lembram alguns observadores, o Facebook ainda rebaixou a visibilidade dos conteúdos noticiosos no seu feed de notícias, uma prova de que não seria um parceiro confiável.  

“Os publishers [ao contrário da nova parceria com o Facebook] devem cortejar o tráfego direto para seus sites, onde têm a flexibilidade de direcionar os usuários para assinaturas ou boletins, podcasts ou reportagens, mesmo que isso não seja tão sexy em um feed”, defende Constine. “Crie um aplicativo que os usuários baixem ou faça com que eles marquem o editor nos seus dispositivos. Desenvolva fontes de receita alternativas para anúncios focados no tráfego, como assinaturas, eventos, mercadorias, dados e pesquisas. Pague para reter e recrutar os melhores talentos com vozes diferenciadas”, disse

"Sentimos uma responsabilidade aguda porque obviamente há uma consciência de que a Internet interrompeu o modelo de negócios do setor de notícias", afirmou Mark Zuckerberg, executivo-chefe do Facebook, em entrevista logo após anunciar o novo serviço. "Descobrimos uma maneira diferente de fazer isso que achamos que será melhor e mais sustentável", garantiu. "Mark Zuckerberg parece pessoal e profissionalmente comprometido em garantir que o jornalismo de alta qualidade tenha um futuro viável e valorizado", afirmou Robert Thomson, executivo-chefe da News Corporation, em comunicado. "É absolutamente apropriado que o jornalismo premium seja reconhecido e recompensado."

No Facebook News alguns conteúdos noticiosos serão escolhidos por uma equipe de jornalistas, enquanto outras serão adaptadas aos interesses dos leitores ao longo do tempo usando a tecnologia de aprendizado de máquina do Facebook. Um dos parceiros o Breitbart, editora digital de extrema direita, provocou indignação por parte de alguns ativistas políticos.  Ao contrário de jornais como o The New York Times e o The Washington Post, o Breitbart não será pago e apenas os artigos publicados no site no Facebook serão elegíveis para a guia, diz a empresa.

“Mudança radical”

A relação entre o Facebook e os publishers sempre foi tensa, lembra o The New York times. Como o Facebook e o Google dominam o mercado de publicidade on-line, absorvendo até 80% da receita, os editores veem os gigantes da tecnologia como impedindo suas expansões digitais, detalha o jornal. Hoje, Zuckerberg reconheceu a tensão e afirmou que experiências passadas permitem mais chances de sucesso na sua abordagem atual. "Não é uma coisa única", disse sobre as novas parcerias com editores. "É por isso que os acordos que estamos estruturando são compromissos de longo prazo, não dois meses, nem um ano, mas vários anos. Acreditamos que elaboramos a fórmula em todas essas conversas em que agora podemos pagar de forma sustentável pelo conteúdo".

O fato é que a maioria das dificuldades financeiras das organizações de notícias está associada a uma mudança em direção à receita de anúncios digitais, que não compensou a perda de receita com anúncios impressos. Embora os gigantes da tecnologia não sejam a única razão pela qual as receitas dos editores tenham corroído, destaca o The New York Times, até pequenos ajustes nos algoritmos do Facebook têm um efeito enorme no tráfego da web dos editores.

Desta vez, em um memorando enviado à equipe do The New York Times, o diretor executivo da empresa, Mark Thompson, e seu diretor de operações, Meredith Kopit Levien, descreveram o Facebook News como uma "mudança radical" nas transações financeiras da empresa com plataformas digitais. "Há muito tempo argumentamos que as principais plataformas obtêm valor substancial da presença de jornalismo de alta qualidade e devem ajudar a apoiar a economia que torna esse jornalismo possível", escreveram eles. "Congratulamo-nos com o fato de o Facebook ter liderado aqui."

Os dois executivos do jornal, que não divulgaram os detalhes do acordo com a rede social, disseram que consideram o Facebook News um complemento para o objetivo de aumentar as assinaturas digitais a 10 milhões em 2025. O diário tem atualmente 4,7 milhões de assinantes.

Concorrência

Outras grandes companhias de tecnologia fazem o mesmo movimento anunciado hoje pelo Facebook. No mês passado, o Google anunciou que daria prioridade a artigos que apresentassem notícias ou que investissem recursos consideráveis em relatórios sobre agregação imitativa. Destacar reportagens originais, sugeriu um executivo da empresa, aumentaria a probabilidade de os usuários confiarem no Google e continuarem voltando ao gol de busca.

Em março, a Apple também lançou um produto de assinatura de notícias pagas, o Apple News Plus, que fornece artigos de diversos editores e custa US$ 10 por mês. Mas muitos publishers recusaram os termos da empresa quando ela solicitou um corte de 50% de toda a receita de assinatura obtida.

Como funciona a nova aba

O Facebook News é resultado de conversas que a plataforma teve com organizações de mídia para saber o que eles gostariam de incluir, como as histórias deveriam ser apresentadas e quais métricas seriam disponibilizadas.

A partir disso, a aba de notícias conta com 5 pontos chave:

Histórias do dia: escolhidas por um time de jornalistas, mostrando as principais notícias do momento.

Personalização: baseado nas notícias que o usuário lê, compartilha e nos veículos que segue, a aba vai mostrar uma coleção de notícias que passaram despercebidas, mas que seriam de interesse.

Seções: a nova aba vai contar com seções de negócios, entretenimento, saúde, esportes, ciência e tecnologia.

Assinaturas: será possível ligar os serviços pagos de notícias ao Facebook para ter acesso mais rápido a artigos.

Controles: o Facebook vai permitir esconder artigos, tópicos e publicações que o usuário não quiser ver.

Leia mais em:

https://www.nytimes.com/2019/10/25/technology/facebook-publishers-news.html

https://techcrunch.com/2019/10/21/facebook-protect/

https://techcrunch.com/2019/10/25/facebook-news-tab/

https://techcrunch.com/2019/10/24/facebooks-news-not-yours/

https://thehill.com/policy/technology/467339-cnn-president-calls-out-facebook-over-absolutely-ludicrous-policy-on?utm_source=sendgrid&utm_medium=email&utm_campaign=Newsletters

https://www.vox.com/recode/2019/10/24/20929919/facebook-zuckerberg-murdoch-news-publishers-pay-content

https://thehill.com/policy/technology/467339-cnn-president-calls-out-facebook-over-absolutely-ludicrous-policy-on?utm_source=sendgrid&utm_medium=email&utm_campaign=Newsletters