Assassinatos de jornalistas e impunidade induzem o fechamento de jornal de 40 anos no México

A brutal violência contra jornalista e empresas de comunicação no México, acompanhada pela impunidade recorrente, obteve no último domingo (03) uma triste vitória que sintetiza o principal objetivo do crime organizado e de autoridades corruptas no país: o silêncio da imprensa. Em carta aos leitores intitulada Adios!, publicada no portal digital e na capa da versão impressa do jornal Norte de Ciudad Juárez, o diretor e proprietário Óscar Cantú Murguía anunciou que o diário deixa, a partir desta segunda-feira (3), de circular após 40 anos de atividade por “perigos e condições adversas” para o exercício do jornalismo. Em março deste ano, três profissionais de comunicação foram assassinados no México. Um deles, a jornalista, Miroslava Breach Velducean, atuava pelo Norte de Ciudad Juárez, que empregava cerca de mil pessoas.

“A trágica e sentida morte de Miroslava Breach Velducea, nossa colaboradora, em 23 de março, fez-me refletir sobre as condições adversas em que se desenvolveu o exercício do jornalismo atualmente. O alto risco é seu ingrediente principal”, escreveu Murguía. “As agressões mortais, assim como a impunidade contra os [crimes cometidos a] jornalistas, têm ficado em evidência, impedindo-nos de continuar livremente com nosso trabalho.”

O editorial destaca que o “irresponsável descumprimento” das autoridades públicas dos três níveis do governo também “motivou-nos a tomar essa decisão”. “Tudo na vida tem um começo e um fim, um preço a pagar. E se esta é a vida, não estou disposto que nos paguemos com mais nenhuma vida de nossos colaboradores, nem com a minha própria”, acrescentou Murguía. O diretor mencionou também questões financeiras, acusando as autoridades estatais de se recusarem a pagar pelo serviço público. No México, a publicidade governamental é a principal fonte de receita para diversos meios de comunicação. Muitos críticos consideram que essa dependência leva a uma cobertura noticiosa e à autocensura.

Breach Velducea trabalhou vários anos para o Norte de Ciudad Juárez, e ocupava o cargo de diretora editorial. Seu assassinato a tiros em frente a sua casa somou-se à morte de outros dois jornalistas, em diferentes partes do México, no mesmo mês: Ricardo Monlui, do portal El Político, em 19 de março, e Cecilio Pineda Birto, diretor do periódico La Voz de Tierra Caliente, em 2 de março.

O México é o país mais perigoso da América Latina para o exercício do jornalismo, e um dos mais letais de todo o mundo para os profissionais de imprensa. Segundo relatório semestral da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), divulgado durante a reunião de meio ano da entidade – que se encerra hoje –, 13 jornalistas foram assassinados nas Américas entre outubro de 2016 e março deste ano. O México lidera a lista, com cinco mortes, da qual também fazem parte: Peru (3), República Dominicana (2), Guatemala (2) e Honduras (1). A SIP estima que mas de 120 jornalistas foram assassinados no México desde 2000.

Leia mais em:

http://www.proceso.com.mx/480591/cierra-periodico-norte-ciudad-juarez-tras-asesinato-miroslava-breach

https://www.theguardian.com/world/2017/apr/03/adios-mexican-newspaper-norte-closes-after-of-journalist

http://www.eluniversal.com.mx/articulo/estados/2017/04/2/el-periodico-norte-de-ciudad-juarez-cierra-por-inseguridad