Livre das regras que limitam publicidade na imprensa, Facebook inunda o Instagram na Austrália com propaganda "dissimulada" de bebidas alcoólicas Reprodução/The Guardian

Livre das regras que limitam publicidade na imprensa, Facebook inunda o Instagram na Austrália com propaganda "dissimulada" de bebidas alcoólicas

A propaganda feita pelos chamados influenciadores de mídias sociais, celebridades como atores, modelos, atletas, entre outros, tem extrema eficácia e vem sendo cada vez mais utilizada pelo marketing digital. No Brasil, 49% dos entrevistados em pesquisa feita pela QualiBest dizem que essas personalidades são sua segunda fonte para tomada de decisão de consumo, perdendo apenas para amigos e parentes. Dados como esse e a falta de regras de restrição à publicidade de bebidas alcoólicas para as redes sociais, ao contrário das impostas à imprensa australiana e em diversos países, sustentam uma intensa ação da indústria do álcool dirigida ao público jovem na Austrália.

Estudo publicado pela VicHealth aponta que a maioria das 70 principais personalidades do Instagram da Austrália está sob a influência da indústria do álcool, com quase três quartos apresentando bebidas alcoólicas em suas contas no ano passado, relatou o jornal The Guardian. A estratégia, diz o estudo, é "dissimulada", tem a intenção de influenciar os jovens e aproveita. Ao mesmo tempo, a publicidade ganha impulso uma vez que as mídias sociais não precisam se submeter a regras em relação à publicidade de bebidas alcoólicas. É mais um caminho pelo qual as mídias interativas ficam em vantagem em relação aos veículos de comunicação, submetidos à regulação.

A Austrália possui regras duras para consumo, publicidade e impostos de bebidas alcoólicas. Diretrizes foram negociadas com o governo, e as queixas dos consumidores são tratadas de forma independente, mas todos os custos são suportados pela indústria. As reclamações são encaminhadas a uma espécie de agência reguladora, Ad Standards, que avalia as reclamações a partir de um código de ética, além de serem avaliadas em paralelo pelo Alcoholic Beverages Advertising Code (ABAC) Chief Adjudicator. As redes sociais estão livres desses procedimentos ao pagarem para os influenciadores promoverem seus anunciantes.

O mesmo ocorrem em outros países. No Brasil, por exemplo, há restrições mais rigorosas para a propaganda de bebidas com teor alcoólico superior a 13 graus Gay Lussac, como cachaças, vodcas e uísques, entre outros. Há no país regulação compartilhada para publicidade de produtos com álcool.

No estudo australiano, houve 477 menções de álcool pelos 70 principais influenciadores do Instagram no país durante 12 meses, revelou a Vichealth, e 12% foram provavelmente menções patrocinadas. Desses 61% foram divulgados e 39% não foram divulgados, o que significa que eles não possuem uma hashtag como #patrocinado #ad ou #collab ou usam a opção "parceria paga" para marcas.

"As marcas de álcool preferem fazer parcerias com os mega e macro influenciadores para oferecer uma média de três posts para uma campanha patrocinada, que geralmente tem a personalidade posando com uma garrafa de bebida com álcool", diz a pesquisa. Macro influenciadores são os que têm de 10 mil a 100 mil seguidores, e mega influenciadores são seguidos por mais de 100mil.

"Coquetéis, vinho e champanhe são, de longe, os tipos mais populares de bebida alcoólica apresentadas em posts patrocinados", afirma o estudo. "Há evidências de que os influenciadores usam bebidas alcoólicas como uma espécie de apoio para adicionar glamour e sofisticação às suas imagens. Apresentam copos de vinho ou coquetéis em postagens altamente estilizadas, simbolizando um estilo de vida elegante e invejável", continua o levantamento.

A executivo-chefe da VicHealth, a médica Lyn Roberts, reforçou que indústria do álcool emprega táticas das empresas de tabaco, usando influenciadores de alto perfil para fazer seus produtos parecerem glamourosos e sofisticados para os jovens. "O mais preocupante é que os influenciadores e as marcas podem se safar de não divulgar conteúdo pago, tornando muito difícil para os jovens discernir se o post é um anúncio ou não”, disse ela. "Também sabemos que os jovens que gostam ou seguem marcas de bebidas alcoólicas nas mídias sociais têm duas vezes mais chances de beber do que aqueles que não o fazem."

Leia mais em:

https://www.theguardian.com/technology/2019/apr/09/australian-instagram-influencers-often-plug-alcohol-but-do-not-declare-sponsorship

https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2019/02/22/projeto-quer-proibir-propaganda-de-bebida-alcoolica-fora-do-local-de-venda

https://www.meioemensagem.com.br/home/midia/2018/06/07/influenciadores-ja-sao-a-segunda-fonte-para-tomada-de-decisao.html