Mishal Husain, apresentadora do programa Today, da BBC Mishal Husain, apresentadora do programa Today, da BBC /Reprodução

Jornalismo se fortalece diante dos ataques à pluralidade em sociedades marcadas pela polarização de ideias  

As sociedades cada vez mais polarizadas estão alicerçadas em casulos de informação, câmara de eco e bolhas de filtro, fenômenos típicos das mídias interativas. Nessa alquimia venenosa, a imprensa sem censura, diversa e confiável não tem espaço, o que coloca em risco a democracia.

O cenário foi desenhado já em 2016, em meio à campanha presidencial dos Estados Unidos e do Brexit, na Europa, por Garton Ash, autor do livro Free Speech: Ten Principles for a Connected World. Para ele, parte desse problema está no fato de que a imprensa, em meio às dificuldades da era digital, tem falhado na tarefa de entregar os fatos e, ainda, a análise deles às pessoas, enquanto as narrativas têm conseguido despertar o interesse das audiências digitais. Três anos depois, as organizações de notícias e os jornalistas permanecem enfrentando os mesmo desafios, mas há uma renovada esperança no exercício do jornalismo.

O tema foi debatido no último fim de semana por Lionel Barber, editor do jornal Financial Times, Mishal Husain, apresentadora do programa Today, da BBC, e Fraser Nelson, editor do The Spectator. “O desafio que estamos enfrentando agora é o estado elevado de alerta em que estamos desde o referendo do Reino Unido sobre sua presença na União Europeia. Mas em meio a tudo isso, uma coisa positiva é o fato que eu – e suspeito que todos nós jornalistas – tenha um renovado senso de missão e objetivo. Acho que não me sinto assim com a minha profissão desde que eu estava tentando entrar nela”, disse Mishal Husain.

Fraser Nelson também apresentou uma visão positiva sobre o jornalismo, diante de tantas dificuldades “Não há dúvida, nunca houve um momento melhor para estar no negócio de notícias, uma vez que as pessoas nunca se interessaram tanto pelo que está acontecendo”.

O editor do The Spectator ressalta que a hiperinformação e a velocidade do mundo conectado reduziram a capacidade de previsão das análises com base nas técnicas jornalísticas. Ao mesmo tempo, há muito mais pessoas sintonizadas no que está acontecendo, umas que muito mais está em jogo. “E isso criou, para jornalistas, uma oportunidade maravilhosa de alcançar pessoas que agora estão interessadas no que fazemos”. Esse interesse, segundo Mishal Husain, está associado ao fato de que, mesmo em sociedades polarizadas, há interesse pela verdade. “Gosto de pensar que, todos os dias, vou ao ar estou em busca da verdade. (...) Vejo meu trabalho em fazer as perguntas de um convidado em particular ou de uma série de convidados em um dia como sendo muito mais uma busca pela verdade”.

Os três veteranos jornalistas, entretanto, argumentam que, para continuar relevante e também despertar o interesse das pessoas, o jornalismo não pode se desviar de suas missões, de seu compromisso com a verdade. “O que seus assinantes leem é muito importante, mas muito diferente do que recebe mais reação”, disse Fraser Nelson ao defender um modelo de negócios com base em assinaturas digitais e não a audiência medida por cliques, que ainda reina no mercado publicitário e é base dos ganhos das grandes empresas de tecnologia. “Se você deseja maximizar os cliques, arraste sua publicação para a sarjeta. Se você quer valorizar as pessoas que pensam que vale a pena pagar seu jornalismo, esse é o caminho para qualidade”, afirmou. 

Leia aqui entrevista de Garton Ash ao Columbia Jurnalism Review.

Neste link, leia a conversa entre Lionel Barber, Mishal Husain e Fraser Nelson.