David Chavern, CEO da News Media Alliance (NMA) David Chavern, CEO da News Media Alliance (NMA)

Crise econômica que acompanha a pandemia agrava situação do jornalismo local, alertam associações de jornais dos EUA

As duas principais associações de organizações de notícias dos Estados Unidos solicitaram, em carta enviada à Casa Branca e ao Congresso norte-americano, a análise sobre a possibilidade de o governo federal adotar medidas emergenciais para “colaborar na manutenção do ecossistema informativo”, em especial no que diz respeito à sobrevivência dos jornais locais. 

Segundo a News Media Alliance (NMA) e a America’s Newspapers, a crise econômica que resulta do isolamento social necessário ao combate à pandemia da COVID-19 reduziu os investimentos em publicidade, o que afeta a saúde financeira das empresas jornalísticas que há anos já enfrentam dificuldades diante da disrupção digital e a concentração da maior parte dos anúncios on-line nas plataformas de Google e Facebook.

“Embora muitos editores tenham visto um aumento no tráfego on-line e nas assinaturas digitais, essa renda de forma alguma compensa as grandes perdas de publicidade”, destacam a NMA e a America’s Newspapers.

Na carta, as duas entidades enfatizam que seus associados – centenas de editoras nos Estados Unidos – estão na linha de frente da crise da COVID-19, fornecendo às suas comunidades notícias e informações sobre saúde, bem-estar e segurança. “E muitos de nossos membros estão fornecendo informações fora dos paywalls, sem nenhuma expectativa de retorno financeiro”, assinala a carta.

“Obviamente, o jornalismo independente e a ação do governo têm uma tensão inerente e necessária, e devemos procurar soluções que mantenham uma separação de interesses”, continua a carta. “Mas todos nós também temos uma necessidade mútua de sustentar a publicação local de notícias”.

Apesar de alguns jornais registrarem picos de leitura em suas versões digitais, a publicidade foi afetada pela queda nas condições comerciais e pela relutância dos vendedores em colocar anúncios junto às notícias da crise, destacou o analista de mídia Ken Doctor. Para ele, grandes jornais como The New York Times, The Washington Post e The Wall Street Journal, enfrentam melhor a crise do que os publishers locais.

Mas as dificuldades afetam a todos. A Gannett, a maior editora de jornais dos Estados Unidos, por exemplo, anunciou na última segunda-feira (30) licenças rotativas e cortes salariais para sua equipe, destacando as dificuldades no setor de mídia devido à pandemia do novo coronavírus. O presidente-executivo, Paul Bascobert, disse que renunciará a sua remuneração e que a equipe executiva terá um corte salarial de 25% como parte do ajuste do grupo, editor do jornal USA Today, entre outros.

"Nosso plano é minimizar os danos a longo prazo aos negócios, implementando uma combinação de licenças e reduções salariais", disse Bascobert em um comunicado. "Ao optar por um sacrifício coletivo, podemos manter nossa equipe intacta, reduzir nossa estrutura de custos, atender nossos leitores e clientes e estar prontos para emergir com força e com a oportunidade de crescer quando essa crise passar", disse.

O professor de política pública da Universidade de Duke, Philip Napoli, afirmou que a crise pode ajudar o público a refletir sobre a importância dos meios de comunicação. “O preço que pagamos pelas notícias e o preço que os anunciantes pagam para alcançar os consumidores de notícias não reflete o valor econômico destas”, apontou.

Leia mais em:

https://www.niemanlab.org/2020/03/newsonomics-tomorrows-life-or-death-decisions-for-newspapers-are-suddenly-todays-thanks-to-coronavirus/

https://www.wired.com/story/facebook-journalism-local-news-coronavirus/

https://www.poynter.org/business-work/2020/gannett-responding-to-the-coronavirus-related-downturn-announces-a-series-of-cuts/

https://www.cjr.org/the_media_today/coronavirus_testing_trump_rubio.php

https://www.newsmediaalliance.org/letter-to-president-trump-help-sustain-local-news/