Trabalho em rede fortalece cobertura regional de três grandes jornais do Nordeste Redação ANJ

Trabalho em rede fortalece cobertura regional de três grandes jornais do Nordeste

Três dos principais jornais do Nordeste comemoram os bons resultados de uma parceria cuja estratégia tem como princípio a simplicidade e uma criteriosa produção e distribuição de conteúdos. Criada há um pouco mais de um ano, a Rede Nordeste garante a amplitude na cobertura jornalística dos jornais O POVO (Fortaleza), Jornal do Commercio (Recife) e Correio (Salvador) sem a necessidade de gerar novos custos, relata o Centro Knight. Ao somarem os esforços de suas redações, os jornais consolidam ainda uma cobertura única e diferenciada da região Nordeste do Brasil.

Por meio da parceria 66 jornalistas das três redações têm acesso a um grupo fechado no Facebook, no qual compartilham textos, fotos, áudios e vídeos produzidos pelas redações para que sejam disponibilizados para o uso comum. Além disso, segundo o Centro Knight, qualquer material publicado nos sites ou nas redes sociais dos veículos pode ser usado pelos parceiros, desde que produção exclusiva e não originada por terceiros, como outras agências.

O acordo entre os três jornais é regrado por sete normas que, no geral, estabelecem o uso apenas de material próprio, liberam modificações e adaptações e sugerem o devido crédito. A necessidade de simplicidade é tão grande que até hoje não há um acordo formal, por escrito, entre os três veículos. “[A parceria] é muito de boca. Se começássemos pela formalização, o projeto não sairia”, reconheceu Roberto Gazzi, ex-diretor de jornalismo e mídias sociais do Correio, ao Centro Knight.

Para dar agilidade à parceria, as três redações optaram por limitar o acordo, pelo menos neste momento, às atividades da redação. “Sabíamos que era grande a possibilidade dar certo do ponto de vista editorial em algumas áreas, mas comercial e marketing talvez embarreirassem a iniciativa”, disse ao Centro Knight Arlen Medina Néri, diretor geral de jornalismo do grupo O POVO. “Se envolvêssemos o Jurídico, [a Rede] sairia em 2035. Se envolvêssemos o comercial, haveria uma guerra. Tivemos apoio dos acionistas, [que pediram] ‘criem um bom produto e tragam os problemas pra gente resolver’”.

A escolha das editorias exploradas pela parceria também foi pensada com cuidado, para não criar entraves. O grupo optou, segundo relato do Centro Knight, por começar por conteúdos que dificilmente causariam problemas, como cultura e esporte, para ampliar gradativamente o compartilhamento de outros assuntos do noticiário, como economia e segurança.

Reportagens da editoria de política também são compartilhadas, mas o tema ainda é um ponto de atenção, de acordo com o Centro Knight. “A gente sabe que a [cobertura] política pode ter divergência. Deixamos a cobertura eleitoral, partidária, em banho-maria, mas a institucional é pautada normalmente”, disse Medina Néri ao site da organização ligada á Escola de Jornalismo da Universidade do Texas em Austin.

A eficácia do compartilhamento de esforços sem a necessidade gerar mais custos tem na cobertura dos jogos de futebol seu melhor exemplo. Em campeonatos nacionais ou regionais, o corte dos investimentos com viagens de repórteres foi compensado pela troca de material com jornal das cidades onde ocorrem os jogos, segundo o Centro Knight.

A parceria também permite aos três jornais ampliar a cobertura das notícias regionais. “Por inúmeras razões, as agências [de notícias] passaram por um processo de corte de custos e dão pouca atenção a fatos regionais”, disse ao Centro Knight Laurindo Ferreira, diretor de redação do Jornal do Commercio. A aliança garantiu atenção diferenciada e com profundidade no relato de fatos de grande repercussão, entre eles os ataques de criminosos em Fortaleza, nas enchentes do Recife ou na recente reunião dos governadores do Nordeste em Salvador. Em todas essas coberturas, repórteres de O POVO, Jornal do Commercio e Correio compartilharam textos, fotos e vídeos com os parceiros, destaca o Centro Knight. “Era como se tivéssemos sucursal em Recife e Fortaleza”, disse Gazzi.

A Rede Nordeste começa a ensaiar projetos editoriais unificados que vão além do simples compartilhamento de informações. Uma primeira iniciativa, conta o Centro Knight, é a #ConexãoNordeste, um programa ao vivo semanal no Facebook em que jornalistas de O POVO, Jornal do Commercio e Correio analisam e comentam assuntos relevantes para a região.

Em uma segunda fase, os jornais pretendem produzir reportagens apuradas simultaneamente nas três cidades. “Começamos a pensar em pautas conjuntas, trabalhar em temas específicos, com publicação simultânea, mas edições a critério das praças. Esse ponto já é consensual, a primeira pauta deve estar saindo em breve”, disse Medina Néri.

Em paralelo, os três diários dialogam sobre a possibilidade de reproduzir a parceria junto as áreas comerciais de cada veículo. “Nem entramos no ramo das dificuldades ainda. Começamos a estabelecer que projetos podem nos unir comercial e editorialmente. As praças têm os seus clientes e preços diferenciados. Eu tenho convicção que isso vai acontecer, mas tem de ser mais discutido, há muitos interesses, mas é mais complicado. Cada uma das praças tem de ceder em algum momento para chegar a um consenso”, afirmou Ferreira ao Centro Knight.

Por enquanto, os jornais trabalham para fortalecer os seus veículos e criar oportunidades em outros mercados. “Se somos vistos como player regional, isso obviamente vai atrair atenção política, econômica, terceiro setor, de quem importa. Nosso objetivo desde o início é esse. Não é apenas trocar informações, é reverberar”, assinalou Medina Néri.

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