Viés autoritário, mesmo em democracias, responde pela maioria das mortes de jornalistas, diz estudo

Viés autoritário, mesmo em democracias, responde pela maioria das mortes de jornalistas, diz estudo

Governos arbitrários são responsáveis pela maior parte dos assassinatos de jornalistas em todo o mundo entre 1992 e 2016, de acordo com ampla pesquisa elaborada por professoras especializadas em comunicação da Universidade de Miami. “Países com regimes políticos ‘híbridos’, que misturam elementos liberais e ‘iliberais’ (com tendências autoritárias), criam, de longe, o contexto mais perigoso para jornalistas em todo o mundo”, afirma Sallie Hughes, uma das autoras da pesquisa. Por outro lado, o estudo confirma que democracias com maior responsabilidade eleitoral e proteção de direitos proporcionam maior segurança aos jornalistas.

A análise levou em consideração os dados do Comitê para a Proteção dos Jornalistas, segundo os quais 1.812 jornalistas foram mortos no trabalho em todo o mundo entre 1992 e 2016. O estudo destaca que, das 1.790 mortes com causas verificadas, 72% foram intencionais. Além disso, mais de nove em cada dez jornalistas assassinados no mundo eram jornalistas domésticos e não correspondentes internacionais. Esses dados reforçam que a maioria das mortes ocorreu em países com regimes políticos híbridos, e a proporção dos assassinatos nesses países aumentou com o tempo.

O estudo também classificou os regimes políticos dos países em que os jornalistas morreram usando a medida do Polity 4, que considera critérios como contenção do poder executivo. “Descobrimos que 1.047 morreram em países com regimes políticos híbridos, 486 nos regimes classificados como mais autoritários, 22 nos classificados como mais democráticos, e 245 em países que o Polity 4 não classificou devido a conflitos armados entre defensores de regimes diferentes”, diz Sallie, professora associada de Jornalismo e Diretora Docente do Institute for Advanced Study of the Americas, ambos na Universidade de Miami. “Ao mesmo tempo, uma configuração espacial específica da autoridade política dentro desses países, condições políticas locais descritas como autoritarismo subnacional, explicam a lógica dos assassinatos”, completa. Exceto em 2006-2007, quando as mortes de jornalistas no Iraque durante a guerra subiram acentuadamente, os regimes híbridos, afirma a professora, têm sido os mais perigosos para jornalistas em todos os anos do século XXI.

Sallie explica como a letalidade para jornalistas encontra pilares nos países democráticos com viés autoritário. “Os sistemas políticos híbridos territorialmente desiguais apresentam normas no nível nacional que garantem explicitamente a liberdade de imprensa e condenam práticas iliberais. Essas normas nacionais incentivam os jornalistas, muitos dos quais formados profissionalmente durante os períodos de liberalização política, a monitorar o poder e denunciar abusos”, diz. “Entretanto, expor a corrupção, políticas de segurança fracassadas ou outros abusos é algo que se torna perigoso quando a prestação de contas é fraca e as autoridades locais têm incentivos para atacar os críticos e silenciá-los”.

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https://knightcenter.utexas.edu/pt-br/blog/00-21560-pesquisa-como-o-tipo-de-regime-de-um-pais-pode-se-traduzir-em-um-ambiente-perigoso-par