Morre o jornalista Celso Pinto, criador do jornal Valor Econômico Reprodução / Carlos Garrastazu / Valor

Morre o jornalista Celso Pinto, criador do jornal Valor Econômico

O jornalista Celso Pinto, um dos mais influentes comunicadores especializados em economia do país e criador do jornal Valor Econômico, morreu na tarde desta terça-feira (03) em São Paulo. Afastado das redações desde maio de 2003, quando sofreu uma parada cardiorrespiratória, o jornalista, que tinha 67 anos, foi internado com pneumonia há duas semanas e não resistiu a complicações decorrentes da doença. Em nota, a Associação Nacional de Jornais (ANJ) destacou que Celso "era um profissional completo, brilhante" e "foi certamente um dos mais competentes jornalistas de economia" do Brasil.

Celso sempre se destacou nas redações onde atuou, mas sua carreira chegou ao ápice em 2000, quando os grupos Folha e Globo se uniram para lançar um jornal especializado em economia. O jornalista foi chamado para liderar o projeto. Ele o desenvolveu com uma equipe que chegou a reunir 160 jornalistas, incluindo vários colegas que tinham trabalhado com ele na Gazeta Mercantil e na Folha de S. Paulo.

O Valor Econômico chegou às bancas em maio de 2000 e logo se tornou a publicação mais relevante do país em sua especialidade. Celso foi seu diretor de Redação e manteve uma coluna semanal no jornal até 2003, quando passou mal durante uma partida de tênis e teve a carreira interrompida abruptamente.

Em 2016, o grupo Globo comprou a parte da Folha de S.Paulo no Valor Econômmico e passou a controlar o jornal sozinho. Celso foi membro do Conselho Editorial da Folha até 2019.

Textos precisos

Uma amostra representativa do trabalho do jornalista foi reunida numa coletânea de 90 artigos editada pela Publifolha em 2007, "Os Desafios do Crescimento: dos militares a Lula". Seus textos eram precisos, didáticos e desprovidos de adornos estilísticos.

Como o economista Persio Arida contou no prefácio do livro, Celso chegou a ser convidado para trabalhar com a equipe que formulou o Plano Real, em 1994. A ideia era que acompanhasse as discussões do grupo para depois documentar num livro o processo de construção do plano econômico.

Celso, que trabalhava para a Gazeta Mercantil em Londres nessa época, segundo a Folha de S.Paulo, disse que achava a proposta fascinante, mas recusou o convite. Argumentou que sua credibilidade como jornalista dependia de sua independência e temia perdê-la associando-se a um projeto do governo.

Tocava piano, usava suspensórios e tinha um humor que os leitores de seus artigos sóbrios ficariam surpresos em conhecer. Semanas antes do lançamento do Valor, ao receber da gráfica os primeiros exemplares do número zero numa reunião, passou os olhos pela edição e atirou os jornais para o alto com alegria. A cena foi registrada por um fotógrafo e publicada pelo Valor em 2010, na edição de seu décimo aniversário.

Talento desde jovem

Celso nasceu em São Paulo, formado em ciências sociais pela Universidade de São Paulo e jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, Celso começou na profissão em 1974, contratado pela Folha de S.Paulo como repórter de economia.

Tinha 22 anos de idade e apenas cinco meses de experiência como jornalista quando foi destacado para cobrir uma reunião da Organização Internacional do Café, em Londres.

Saiu-se tão bem que foi recompensado na volta ao Brasil com o primeiro aumento de salário, como lembrou tempos depois o jornalista Matías Molina, que editava a seção de economia da Folha de S.Paulo na época.

Após alguns meses, Celso foi convidado para trabalhar na Gazeta Mercantil, então o principal diário econômico do país. Ele foi editor de finanças e assuntos nacionais, trabalhou em Brasília e como correspondente em Londres. O jornal deixou de circular em 2009.

Em 1996, Celso voltou à Folha de S.Paulo como colunista, a convite do publisher do jornal, Octavio Frias de Oliveira (1912-2007). Escrevia quatro vezes por semana, e seus artigos, publicados no primeiro caderno, tornaram-se leitura obrigatória para ministros, banqueiros e empresários.

Casado com a jornalista Célia de Gouvêa Franco, editora-executiva do Valor, Celso deixa dois filhos, Pedro e Luis.

Leia mais em:

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/03/morre-o-jornalista-celso-pinto-criador-do-jornal-valor-economico.shtml

https://oglobo.globo.com/economia/morre-em-sao-paulo-jornalista-celso-pinto-criador-do-jornal-valor-economico-24284057