Redação do jornal New York Times Redação do jornal New York Times Reprodução/NYT

Jornais precisam estar preparados para a nova onda tecnológica, apontam estudos

A indústria jornalística enfrentou nos últimos dez anos, em meio ao que se convencionou chamar de disrupção digital, mudanças radicais nos hábitos de seus consumidores, em especial o uso do mobile (smartphones) e das redes sociais. Esse cenário, dizem os principais analistas de mídia, fragmentou a atenção, minou os modelos de negócios baseados em publicidade e enfraqueceu o papel do jornalismo como guardião da verdade e da democracia. Para esses especialistas, a próxima década será marcada por tendências que exigirão dos publishers ainda mais sintonia entre o jornalismo de qualidade e a tecnologia para que as dificuldades se transformem em oportunidades de bons negócios. O desafio começa já em 2020.

Nic Newman, pesquisador sênior do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo, por exemplo, afirma que o ano será marcado por: crescente regulamentação da internet, busca pela confiança no jornalismo e conexão mais estreita com o público; e forte impacto da inteligência artificial, big data (coleta e análise de grandes volumes de dados) e novas interfaces visuais e baseadas em voz. 

Veja abaixo algumas das tendências – e necessidades para melhor desempenho da mídia – apontadas em estudo liderado por Newman e presentes em outras pesquisas:

1 - Aperfeiçoamento dos modelos de paywall

Os editores, segundo Newman, seguem apostando fortemente na renda que vem dos leitores: metade diz que essa será sua principal fonte. Cerca de um terço (35%) acha que a publicidade e a receita via leitores serão igualmente importantes e apenas um em cada sete (14%) concentra suas esperanças exclusivamente na publicidade.

Outro estudioso, Andrew Zalk, chefe de parcerias de conteúdo pago da Flipboard, esbarrar em paywall é uma das experiências mais decepcionantes que o público digital enfrenta hoje, e por isso devem ser adotadas pelos publishers a partir de uma estratégia muito bem elaborada. “Os editores precisam prosperar, e os muros para conteúdo premium são uma maneira eficaz de capturar a receita de assinaturas e definir um modelo de LCV (Lifetime Customer Value). Este ano, veremos mais editores que adotam paywall e fazem ofertas de conteúdo premium testando o conteúdo por trás dessas paredes de pagamento”, diz Zalk, que conversou com mais de 100 editores em todo o mundo sobre os desafios e a necessidade de diversificar as estratégias de distribuição.

2 - Enfrentamento ao duopólio Google-Facebook e outros gigantes digitais

O poder das plataformas tecnológicas é uma questão de grande preocupação para a maioria dos editores entrevistados por Newman, mas há diferentes pontos de vista em sua regulamentação. Os editores consideram que as intervenções dos legisladores têm mais probabilidade de prejudicar o jornalismo do que ajudar (25% a 18%), embora a maioria acredite que não causará diferenças (56%).

No entendimento de Zalk, da Flipboard, a competição das empresas jornalísticas em um mercado dominado pelas empresas de tecnologia exige investimento em SEO, distribuição algorítmica e viralidade. Os editores dependem tanto de um par de controladores de tráfego externos que uma simples alteração algorítmica ou taxas de anúncios podem causar grandes mudanças em seu tráfego orgânico e pago, afirma, o que coloca sua sustentabilidade em um estado precário. “Muitos editores, portanto, estão interessados em diversificar sua combinação de tráfego de referência e criar um portfólio de parcerias com várias plataformas sociais, SEO, referência e distribuição paga”, diz Zalk.

É provável, segundo Newman, mais movimentos na mídia para personalizar capas digitais e explorar outras formas de recomendações automáticas. Mais da metade dos entrevistados (52%) de seu estudo diz que esses projetos com inteligência artificial serão muito importantes, mas as pequenas empresas temem ficar para trás. Atrair e reter talentos são outra preocupação importante nas empresas de mídia, diz o pesquisador do Instituto Reuters, especialmente no campo tecnológico. Menos de um quarto dos entrevistados afirmam confiar em manter seus cientistas e tecnólogos de dados (24%), enquanto na área editorial o número sobe para 76%. As empresas de tecnologia e as marcas de consumo em massa costumam oferecer salários mais altos, mais segurança no emprego e uma cultura na qual o melhor trabalho pode ser desenvolvido.

3 - Investimento em conteúdos de qualidade e exclusivos como base formadora de público único

Segundo a consultora global de mídia Kreab, esta será uma tendência nos próximos dez anos. Para Zalk, as estratégias nesse caso precisam estar associadas à tecnologia. Por mais voláteis que esses algoritmos sejam, observa ele, “é assustador pensar como a maioria do tráfego de qualquer editor depende de fontes de referência que possam diminuir drasticamente ou desaparecer completamente da noite para o dia”. Os editores, por esse motivo, continua, sabem como é importante ter seu próprio público. “Essa é uma das razões pelas quais muitos criaram boletins gratuitos: o e-mail provou ser um canal eficaz não apenas para atrair tráfego para seus sites, mas também para estabelecer relacionamentos diretos com os leitores, fornecendo uma alavanca adicional para monetização. mais sustentável”.

No estudo de Newman, a maioria dos executivos de mídia afirmou estar confiante nas perspectivas de suas empresas, mas tem muito menos certeza sobre o futuro do jornalismo. O fortalecimento das informações locais é uma preocupação central, juntamente com a necessidade de melhorar a confiança no jornalismo e combater os ataques dos políticos a profissionais e veículos de imprensa. A maioria (85%) acha que a mídia deveria fazer mais para combater mentiras e meias verdades.

4 - Podcasts em alta, mas adaptados a novas tecnologias

Tudo parece pronto para ser outro grande ano para podcasts, segundo Newman: 53% dos entrevistados em sua pesquisa afirmam que este ano farão iniciativas importantes nesse campo. Outros dizem que expressar e converter textos em áudios também é uma forma de capitalizar a crescente popularidade desses formatos. Mas os editores precisam estar atentos aos rápidos avanços da tecnologia. Fones de ouvido melhores e mais imersivos, com funções mais valiosas, serão o grande sucesso do ano e darão outro impulso aos formatos de áudio, diz o pesquisador do Instituto Reuters.

As redes 5G continuarão a aparecer em diferentes cidades do mundo este ano, embora a disponibilidade de dispositivos permaneça limitada. No final, afirma Newman, o 5G permitirá conectividade mais rápida e confiável, o que facilitará o acesso ao conteúdo multimídia em movimento. Além disso, os serviços de transcrição, tradução automática e áudio/texto ou texto/áudio serão algumas das tecnologias de inteligência artificial adotadas em massa a partir deste ano, que abrirão novas fronteiras e oportunidades para a mídia.

Leia mais em:

https://reutersinstitute.politics.ox.ac.uk/periodismo-medios-y-tecnologia-tendencias-y-predicciones-para-2020

http://www.digitalnewsreport.org/publications/2020/periodismo-medios-y-tecnologia-tendencias-y-predicciones-para-2020/

https://prnoticias.com/comunicacion/clubagencias/kreab/20177756-diez-tendencias-medios-comunicacion-2020?ct=t(EMAIL_CAMPAIGN_2020_03_10)

https://laboratoriodeperiodismo.org/cinco-tendencias-que-los-editores-deberian-seguir/